Strony

17 de novembro de 2011

Calar


Acho curiosa a mania que as pessoas têm de colocar palavras na boca dos outros, de dizer o que não foi dito, de ampliar histórias, de inventar verdades, de distorcer os fatos, não sei se é por algum prazer oculto, por mera ociosidade ou uma explosão de criatividade mórbida talvez. O fato é que quando atribuem fatos, palavras que jamais se atribuiriam ao que sou, a quem sou, independente dos fatos que permeiam meus sentimentos, idéias, pensamentos, nada dá o direito de inventarem, florearem, aumentarem o que eu disse, pensei, senti, enfim por melhor que fosse a intenção, se é que pode se considerar boa intenção me pintar como um monstro vil e insensível, tanto quanto insensato. Tais coisas não ornam comigo e é por isso que volto a acreditar em minhas paredes brancas, em meus delírios solitários, em meu mundo silencioso e tranqüilo, onde o que penso e sinto cabe tão somente a mim e a mais ninguém!

Sentimentos não são joguetes, não são coisas das quais simplesmente nos livramos ou debochamos ou com as quais somos capazes de não nos importar, podemos até fingir, mas no fundo nos importamos, se não nada que viesse dali não nos afetaria, nos causaria fúria, dor, alegria, raiva, enfim... a indiferença meu caro, é só para aqueles por quem nada sentimos e isso é um fato! Estes sequer vemos, são como partes invisíveis de um quebra-cabeça que não nos pertence, mas os outros não, são as peças que nunca encaixam, ou as que constantemente param embaixo do sofá, a que você nunca consegue encaixar em lugar algum.

Então, recolho-me as minhas paredes e ao meu adorável silêncio! Selo meus lábios com minhas alegrias, tristezas e tudo mais que houver que ser compreendido, deixado para trás ou eternizado por mim, apenas por mim e mais ninguém, assim sendo explicações não precisam ser dadas. Pintarei minhas paredes como e quando convir, com minhas próprias matizes e deixarei os outros com seus devaneios vazios e repletos de mentiras com seus próprios ecos.

Quanto mais ouço a voz dos insanos, mas aprecio a importância do calar....

9 de novembro de 2011

Profundo

Por algum motivo estranho eu tenho duas características que se somam, uma me remete as minhas próprias profundezas e a outra me dá força para me reerguer sempre, não importa quão longe eu tenha ido. Se por um lado uma me leva para distante de tudo e de todos, por vezes me fazendo crer que posso me perder até do meu eu, a outra é que faz rugir a minha vontade, minha determinação e me arranca do torpor e me faz renascer. Dois opostos, duas essências, tão distintas, mas complementares, sem as quais eu não saberia viver.

Eu sou como um grande oceano, banhado pela escuridão da noite, iluminado pelos raios prateados da lua que repousa sob o céu estrelado. Aquela mansidão das águas, que faz perder o olhar, encantar os enamorados, acalmar os aflitos, divagar os poetas, aqueles que procuram respostas acabam se encantando com o reflexo da lua nas águas e acabam buscando suas próprias reflexões e acabam esquecendo a que vieram, se entregam aquele aconchego das águas calmas e turvas, a suave marola, o vai e vem das águas. Aquela sensação de entorpecimento, de casa, de mãe que abraça e nutre.

Porém sob as águas mansas da imensidão, mais abaixo, bem distante dos olhos, as correntezas são fortes, por vezes turbulentas, os fluxos e os refluxos se movimentam num ritmo constante, caótico, sempre em busca de algo, de abrir novos caminhos, de vencer novas barreiras, de romper limitações, é tudo tão intenso, profundo, silencioso, visceral, que só aqueles que conseguem enxergar por trás de toda mansidão, por trás de todo aquele espelho estrelado, percebe a fúria inerente daquele oceano inconstante e em eterna ebulição.

Tantas coisas se passam neste infinito particular, nestas paredes secretas, neste turbilhão de águas e sentimentos, talvez minha mãe soubesse... “Carolina, os teus olhos fundos guardam tanta dor, a dor de todo este mundo”. Talvez por isso o oceano seja o inicio de tudo, o oceano seja o início de minha essência de intensidades, sabores e dissabores, de processos de morte e renascimento tão intensos que qualquer um que ousasse me acompanhar certamente terminaria insano ou afogado em meus delírios. Não é por um acaso que a Lua é símbolo das ilusões, da magia, do mistério, da feminilidade, do oculto, do que está diante dos olhos, mas no entanto não se vê.

Parte de minha essência é o segredo, aquilo que vejo, sinto, reverbero, penso, transpiro e calo em minhas correntes, fluxos e refluxos, refletindo apenas parte daquilo que transformo e processo entre as milhões de explosões que ocorrem diariamente aqui dentro.

A outra parte, quem diria, vem de Luanin que não é somente lua, mas que em algumas línguas quer dizer leão. Felinos são ágeis, mais ativos a noite, força muscular bruta, mas são animais sinceros, leais, honrados, se gostam, gostam, não são de falsidade, se querem, querem, se não simplesmente vão embora. Não gastam sua energia em vão. São belos, voluntariosos, delicados, espreitam, observam, caçam, são determinados e estrategistas. Quando chega a hora de caçar, eles explodem sua energia e vão a luta, sem medo de fracassar, sem poupar esforços, mas sem perder sua exuberância e realeza.

Quando decido me reerguer, alcançar, renascer, sou como uma Fênix, como um felino perseguindo sua presa, o olhar fixo, determinado, nada é capaz de me impedir de alcançar, de defender minhas crenças, minhas verdades, aqueles que amo, as coisas que acredito. Posso ser uma alegre e saltitante Bast, assim como posso ser uma destemida Sekmet, tudo depende de que lado deseja despertar, mas ambas belas.

Sou filha de Freya, escolho minhas batalhas, escolho por quem lutá-las, a quem honrá-las, sempre leal aos meus sentimentos, valores, pois sei que quando chegar o meu dia não terá sido em vão, cada morte, cada renascimento, cada amor, cada tilintar de armas, cada lágrima derramada, até mesmo os momentos em que acreditei que a loucura consumiria minha alma, não terá sido em vão.

Sou o oceano profundo e silencioso que oculta seus segredos sob a luz da lua prateada, mas também sou a força do sol que renasce a cada manhã trazendo o rugir da grande leoa que reside em meu ser! Sou o profundo, que fita o abismo para então renascer. 

5 de novembro de 2011

Insanidade

Por vezes me sinto andando em um quarto vazio, de pé descalços, onde tudo que resta é a claridade das paredes brancas a minha volta e o silêncio, acompanhado de meus pensamentos, estes no entanto são infindáveis. Talvez pudesse escrever em tais paredes milhões de versos, preencher aquele vazio com palavras desconexas, que só fazem sentido para uma pessoa, preenchê-las com imagens, desenhos, rabiscos, gritos, qualquer coisa que expresse toda a fúria de meu oceano interno, ocultada por paredes brancas, por uma superfície silenciosa e calma.
Muitas vezes os olhos nos enganam, nos fazem crer em coisas que nos parecem tão certas e de repente ao pisarmos naquele solo, nos jogarmos naquele lago, descobrimos que não passava de uma bela miragem, de um reflexo do que buscávamos encontrar, de uma ilusão que colorimos com a nossa esperança, mas quando a areia movediça começa a ceder sob os nossos pés e nos vemos ali diante de nosso próprio desespero e nada podemos fazer apenas não nos debatermos pois assim seremos engolidos ainda mais rapidamente, compreendemos as armadilhas que nós mesmos nos impomos.
Aquela linha, tão tênue da sanidade, ela parece escorrer por entre nossos dedos e nada é capaz de fazer a história retroceder, nem arrependimento, raiva, perdão, angústia, culpa, nada... talvez compreender todo o enredo, traga um pouco de razão e faça a sanidade permanecer por mais alguns instantes. Quem sabe um novo personagem? Alguém para dialogar sobre este novo quadro que se faz diante de meus olhos? São tantos planos, esperanças, sonhos, desejos, mas ao mesmo tempo um emaranhado que me prende, confunde, me arranca o ar por vezes e me remete a pensamentos torpes, vontades que não me pertencem, uma prisão que não quero continuar. Quem são nossos algozes? É hora de virar a mesa, esta música é quase uma oração. Tem dias que eu penso, sim, estou perdendo a razão.

2 de outubro de 2011

Virando a Página


Após tantos devaneios com minha Rosa, creio que chega o momento de mudar, de olhar as coisas por outro ângulo, de abrir novamente as comportas e buscar novos horizontes, novas perguntas e respostas e por mais que tais devaneios, capítulos e reflexões tenham sido fundamentais é hora de abandoná-los, de virar a página.

Compreender minha depressão, dialogar com ela, entender suas feridas, porque de sua existência dores, necessidades, onde ela queria chegar ou até mesmo porque ela chegou, por mais que nem todas as respostas tenham sido respondidas, foi uma forma de me compreender melhor, de compreender a própria doença, de aceitação, do problema, da solução, da doença, do meu próprio processo, de minhas entranhas e tudo que por vezes não conseguimos expor para o mundo, nem para nós mesmos. A Rosa era este personagem, a doença tipificada em pessoa, com a qual eu dialogava, um monólogo que travei em busca de compreensão.

Talvez hoje não haja mais porque falar sozinha, talvez hoje hajam outras pessoas com as quais eu possa compartilhar meus devaneios, ou simplesmente o ícone, a Rosa, atingiu o seu objetivo, a compreensão que buscava alcançar e assim sendo não tem porque de ser, de continuar sendo neste mundo, neste universo paralelo, talvez ela deva ir para outro mundo, outro universo, ajudar outra pessoa a se compreender e mergulhar em seus encantos e desatinos.

Hoje me vejo em outro estágio, em outro movimento, menos interno, por mais que por vezes eu entre neste mundo e confronte seus horrores, seus rubores, seus sabores e me entorpeça e me perca, mas logo estou de volta a superfície procurando redirecionar o meu barco, acertando a minha rota, conferindo meus mapas e retomando minha jornada, sempre em movimento, nesta busca incessante de autoconhecimento, crescimento, nesta busca insaciável por si mesmo!

Muito de mim se rompeu nestes últimos tempos, foi exposto, aberto, ferido, cicatrizado, curado, quebrado, reconstruído, deixado para trás e o barco segue, levando aprendizados, histórias, lembranças, risos, tudo o mais o tempo irá cuidar e assimilar, somando neste mapa estelar, nesta espiral de sonhos e quem sabe tecer mais alguns pontos nesta trama, nesta grande colcha de retalhos que é o meu ser, juntando pedaços aqui e outros acolá! Cabe a cada um escrever o quer deixar no meu cobertor de sonhos e lembranças...

Mas a Rosa se vai, o barco volta a correr e os ventos batem em meus cabelos e é hora de renovar, um novo ciclo se inicia e não há como parar quando o tic tac começa sussurrar. Obrigada minha Rosa, obrigada Sr do Tempo, que se vá e o novo tempo venha, pois já é hora de recomeçar... 

1 de outubro de 2011

Novos Ares

Eu normalmente faço meus layouts, até porque é algo que adoro fazer, mas quando vi este eu me apaixonei por ele! E porque sinto a necessidade de uma nova fase, de novas palavras, de novos caminhos e versos para preencher as minhas lacunas internas e era como se este layout e eu fôssemos o casamento perfeito! É claro que vou acabar mexendo uma coisa aqui e outra acolá, porque eu não consigo não fazer isso, mas... tenho que agradecer a criatividade alheia desta vez e também a quem usou este layout antes de mim e fez com que eu me encantasse por ele. Por hora é só, agora vou fuçar enquanto as palavras fervilham!

22 de setembro de 2011

Um Breve Reencontro

Mais uma vez adentrei aquele quarto e lá estava ela, sentada na cama, impecável, seu perfume inebriante logo me tomou os sentidos, me fazendo fechar os olhos por alguns segundos, me trazendo uma sensação de conforto, de casa, algo que não deveria sentir, mas inevitavelmente eu sentia. Aproximei-me a passos lentos e sentei-me ao seu lado sem dizer uma única palavra, temendo que se eu dissesse qualquer coisa ela desapareceria no ar como uma lembrança agridoce.

Ela então voltou os olhos na minha direção e deu um breve sorriso, colocando sua mão sobre a minha e afagando-a de maneira suave.

- Você é real..
- O que esperava, um dos seus contos de fada?
- Não, definitivamente creio que prefiro sua companhia neste momento.
- Isso é um tanto estranho de se ouvir, prefere estar comigo do que com seus encantos, suspiros, devaneios, rubores e viveram felizes para sempre?
- Bem, não me julgue tola por acreditar que tais coisas podem acontecer, mas nem sempre elas tomam o rumo que esperamos, desejamos, enfim.
- Compreendo, nestes momentos de desilusão, a sua Rosa se torna uma companhia mais agradável do que a realidade, justo.
- Não se menospreze, nós já passamos desta fase! Apenas que aqui, com você eu posso ser apenas eu mesma, posso expor qualquer sentimento, posso ficar quieta em meu mundo sem ter que dar quaisquer explicações, eu posso... e lá não, são posturas, comportamentos, etiquetas, tempos, cobranças, tudo precisa ser mantido num certo equilíbrio.
- Você pode ser o que quiser onde quiser e sabe disso.
- Não quando isso envolve outros sentimentos, outras pessoas, papéis que você exerce, eu sei que é cobrança pessoal, mas não me sinto a vontade.
- Então são limites que você auto-impõe e não uma impossibilidade real.
- Sim, Rosa, são limites auto-impostos. Não quero magoar mais ainda as pessoas e preciso de tempo para lidar com minhas próprias mágoas, que são várias.
- Na verdade então você está se protegendo, para não se machucar mais e não machucar mais os outros e se esconder aqui acaba sendo um caminho mais confortável.
- Me esconder aqui acabou sendo uma conseqüência de todos os fatos, que não são só estes.
- Pelo menos desta vez você compreende melhor as suas razões e motivações para estar comigo, fica mais fácil encontrar o caminho de volta.
- Mas isso não quer dizer que não tenha sentido falta do seu humor ácido ou de suas reflexões...
- Agora você está querendo me agradar?
- O que foi, comeu limão de café da manhã?
- Não...
- Está com ciúmes?
- Não...
- Hum, eu acho que está sim! Porque eu te abandonei estes últimos meses!
- E por que sentiria?
- Você sabe porque.
- Você está muito pretensiosa!
- Hahahaha, você ficou com ciúmes!
- Não seja tola!
- Rosa... não precisa ficar assim! Você é o vazio que me completa! De alguma forma me compreende, me faz enxergar coisas que não quero ver.
- E seu conto de fadas?
- Especial...
- Mais do que eu?
- São coisas completamente diferentes! Você é minha sombra, meu vazio, a parte de mim que me leva a refletir, que me leva ao profundo. O conto de fadas era algo mágico, que me fez crer em coisas mágicas, mas que não tem como ser neste tempo e espaço...
- Desistiu?
- Não há como macular algo com tanta dor, mágoa, decepção e sofrimento.
- Preservou.
- Tentei ao menos.
- Hum... isso deve doer, agora entendo porque está aqui comigo.
- O abismo pelo menos olha para você de volta.
- É. Quer que eu te olhe?
- Não sua tonta!

Começamos a dar risada juntas e era um riso sincero, adorava aquele humor ácido da Rosa. Ela sempre parecia saber onde cutucar, o que perguntar, até onde ir e compreender meus silêncios e necessidades. Mas ela era parte de mim, assim como eu parte dela, por isso já não me surpreendia tanto. Deitamos na cama e ficamos fitando o nada de mãos dadas, muitas vezes o silêncio era mais revelador do que um milhão de palavras. Era bom estar ali com ela, era bom tê-la por perto de alguma forma, mesmo não desejando que ela ficasse ali por muito tempo.

6 de setembro de 2011

A Visita

O eco dos meus passos parecia tudo que havia naquele quarto vazio, o mesmo cenário de sempre, de tantos diálogos, de tantas histórias, de tantas reflexões, quem diria que desta vez seria eu a procurá-la ao invés do contrário. Sentei na cama e fiquei a fitar tudo em volta tentando buscar algum significado naquela visita aquele lugar, aquelas lembranças, aquele perfume que ainda pairava no ar.
- Quem diria eu aqui por vontade própria...
Deitei na cama e me pus a fitar o teto e divagar.

- Sabe Rosa, por muitos momentos tive medo de reencontrá-la, de me ver presa novamente em seu mundo, em ter que olhar para dentro e temer que mais ninguém além de você pudesse me enxergar ou compreender e que estivesse mais uma vez fadada a estas paredes, a tais sentimentos. Então reencontrei minha força, meu ar, meu sentido e aprendi tanto contigo em nosso último encontro e aprendi a respeitá-la, assim como a mim, meus ritmos, minha natureza e creio que assim passei a temê-la menos e agora que sinto seu aroma nas redondezas e que talvez nos reencontremos, não a temo, não a desejo, mas não a temo, assim como sei que posso contar com outras pessoas, que não preciso me isolar aqui, mas admito que por vezes são nestas paredes que encontro algum conforto, alguma compreensão, alguma sanidade para tudo que se passa aqui dentro, como meu oceano interno, o profundo que leva ao profundo, sem censuras, sem críticas, mas reflexões, reflexos, que me levam a me ver como sou...
Suspiros...

- Ahh Rosa, as pessoas conseguem macular o mais belo dos poemas, a mais doce as músicas, a mais tenra das rosas, o mais singelo dos toques e demonstrações de carinho, são capazes por vezes de macular até mesmo o mais puro dos sentimentos para se sentirem bem consigo mesmas...  esta minha insanidade Rosa, esta minha mania de acreditar no melhor, no sonho, talvez ainda virá a ser o motivo da minha sucumbência! Por que não podemos tão somente entrar em nossos casulos e tornarmos borboletas? Pegarmos nossas dores, tristezas, sonhos e transformarmos em asas para um próximo vôo? Eu me sinto perdendo a sanidade dia a dia, como se a cada passo um fio fosse deixado para trás...
Meus risos então ecoam pelo quarto como uma prece.

- Será Rosa, será que assim você me levaria para um mundo encantado? Será que talvez em pleno devaneio as coisas fariam algum sentido? Será que de alguma  forma você ouve estas palavras? Ou será que minha insanidade chegou a tal ponto que até você não é real? Espero que estas paredes possam registrar estes relatos, estes devaneios, pois de alguma forma, dizê-las aliviam este turbilhão de sentimentos. Obrigada, por tudo!

19 de março de 2011

17º Capítulo: Despedida


- Oi Rosa.
- Olá Estranha!
- Estranha é?
- Faz tempo não é mesmo?
- Cada vez mais ao que parece.
- Isso é natural.
- Por isso mesmo vim me despedir, antes que de repente não nos vejamos mais e não haja uma oportunidade de dizer até logo ou adeus, não sei.
- Não precisa se preocupar com isso.
- Não, desta vez é necessário, eu quero verdadeiramente agradecê-la por tudo.
- Tudo que encontrou estava em você.
- Sim eu sei, mas encontrá-la me fez vez e desta vez eu soube encará-la de uma forma diferente, mais madura, mais produtiva e por isso pude aprender tanto com você, por isso quero agradecê-la. É claro que não desejo do fundo do coração encontrá-la novamente, porém sei que se nos encontrarmos novamente será tão produtivo quanto foi desta vez, pois aprendi a enxergá-la.
- Você apenas conseguiu fazer de uma adversidade um degrau ao invés de um obstáculo.
- Eu consegui compreendê-la Rosa, vê-la além do problema, dos sintomas, da dor, da angustia, consegui mergulhar e enxergar suas entranhas, buscar suas raízes, fazer de cada lacuna, de cada dor, uma força, um caminho alternativo, uma razão para mudança, para reflexão, para fazer de você não um fantasma, mas uma companheira.
- E você foi uma boa companheira!
- E você uma excelente professora!
- E como será daqui para frente?
- Não sei... não penso muito no amanhã, tenho me preocupado em viver o hoje, o que posso de alguma forma prever, controlar e ainda sim é tão mutável.
- Isso é bom! Vai parar de escrever?
- Bem, não vejo sentido em continuar escrevendo os nossos monólogos, pois eles são nossos e dizem tão somente a esta fase, a nossa tempestade, não faria sentido dar continuidade a uma história que não corresponde mais aos meus sentimentos.
- Não acho que deveria parar.
- Não pretendo parar, apenas vou interromper os nossos monólogos, mas quero continuar com outro mundo imaginário, outros personagens, outras figuras e assim que sabe aprender outras lições.
- Ahhh simm, agira eu compreendi!
- Imagina, escrever é praticamente meu ópio, meu delírio, minha libertação.
- E o conhecimento uma fonte inesgotável para aquele que a buscam de coração.
E assim eu lhe beijei o rosto demoradamente, a abracei firme e pude sentir seu perfume inebiente mais uma vez. Não sabia ao certo se iria vê-la novamente, mas tinha que pensar positivo. Entreguei uma rosa rubra a ela e sai andando imaginando o que estaria por vir.
FIM

9 de março de 2011

16º Capítulo: A cura


- Olá Rosa...
- Olá Estranha! Há quanto tempo!
- Desculpe, realmente não tenho aparecido muito aqui...
- Não é uma bronca, ou reclamação, apenas uma constatação.
- Hum, eu entendo, mas é que de fato eu sei que não tenho a encontrado.
- Porque você iniciou a sua jornada para fora da caverna, a tendência é nos encontrarmos cada vez menos, até que não nos encontremos mais..
- Até que haja o próximo encontro.
- Se assim tiver que ser...
- Se assim tiver que ser, acha que podemos não nos encontrar mais?
- Não há como saber. Não há garantias, não posso fazer promessas para nenhuma das direções.
- Não temo um próximo encontro, não que deseje necessariamente, mas não o temo mais.
- Isso é muito bom! Sinal de que este encontro foi mais proveitoso do que os demais.
- Muito mais Rosa, muito mais, eu ganhei muito mais, aprendi, vi as coisas de outros ângulos, fiz da adversidade, do problema, da doença uma maneira de olhar as coisas sob outros ângulos, de achar respostas, de vencer padrões, dificuldades, de respeitar meu próprio tempo, de extrair coisas boas ao invés de me afundar no meu oceano particular.
- É a primeira vez que a vejo falar mais abertamente.
- Eu sei disso, até mesmo o nome que te dei foi uma maneira mais fácil de lidar com tudo, de estabelecer um diálogo mais fácil com minhas próprias dificuldades, medos, anseios, do que simplesmente com o nome em si, parecia-me vazio, como um diálogo comigo mesma apenas e não algo que pudesse dar sentido a toda loucura e vazio e respostas que eu buscava. Chamá-la pelo o que é, tiraria a magia da coisa toda e não faria a leitura aprazível.
- Você é fantástica! Devia escrever sobre estas coisas agora que estou prestes a ir embora, ou pelo menos que nossos diálogos tendem a diminuir, você tem muito a compartilhar, talvez deva dar outros nomes a outros sentimentos, personas, quem sabe...
- É uma boa idéia, diálogos com meus “Eus” são interessantes, me fazem refletir, buscar pelas respostas ao invés de me focar nas perguntas, nos problemas, nas dores, no vazio. Acabei aprendendo muito com você.
- Bem, teoricamente eu sou parte de você.
- Bem, é uma parte de mim que felizmente não está comigo sempre.
- Pensando por este lado, sou uma personagem eventual.
- Isso, minha Rosa rubra, que me fere, mas que me ensina a ver a beleza das coisas através dos espinhos, do vazio em que me lança dentro de mim mesma, mas que me faz compreender que precisamos buscar formas alternativas de vencermos nossas dificuldades, nossos medos, pedir ajuda, auxílio as pessoas a nossa volta para sairmos do labirinto, trespassar os portais, que precisamos constantemente reavaliar o que há dentro, equilibrar, limpar e recomeçar...
-Inebriante perfume que te conduz para os portões do seu próprio inferno, seu submundo pessoal que leva a transformação, de botão a rosa.
- Não há transformação sem entrega, não há entrega sem confiança, não há renascimento sem perdas, não há perdas sem dor, não há amadurecimento sem escolhas, mas em cada escolha há sempre uma possibilidade para o aprendizado, para a felicidade, para o reencontro e para um novo ciclo, sempre melhor do que o que se encerrou.
- Exatamente.
- Parece inacreditável, mas foi bom reencontrá-la.
- Foi sim, mesmo sabendo que foi duro para você e que ainda não acabou, mas Ela nunca coloca em nosso caminho pedras maiores do que podemos carregar não é mesmo?
- Não tenho dúvida disso, agora já me sinto mais forte, no começo foi bem mais difícil e as pessoas a minha volta normalmente não sabem o que fazer, como agir, a sua presença é perturbadora.
- O desconhecido é perturbador, ver alguém mergulhado em si mesmo é perturbador, o sentimento de impotência é perturbador, respeitar o tempo de cada um é perturbador, enxergar os próprios medos no outro é perturbador, a falta de informação então, essa é ainda mais perturbadora, mas você se saiu bem em todos os aspectos.
- Porque eu já a conhecia.
- Você conseguiu vencer o seu próprio preconceito, seu próprio medo e conseguiu colocar as coisas de uma forma mais clara, soube pedir ajuda sem se colocar numa posição de coitada, mas apenas que precisava de apoio, não por fraqueza, mas por não ter controle sobre o todo e por sempre ter demonstrado maturidade, responsabilidade, bom senso, por ser quem é.
- Ser verdadeiro consigo mesmo é tudo que temos Rosa, é tudo que devemos a nós mesmos, se faltamos com a nossa verdade, com nossa palavra, não temos nada, não temos honra, não temos valor, sequer sabemos quem somos e como podemos inspirar alguma coisa?
- Porque hoje você não teme mais ser quem é, mostrar quem é e o que acredita, assumir as conseqüências disso, pedir ajuda não é demonstrar fraqueza, mas sim demonstrar humanidade.
- Eu sei disso e agradeço por isso.
- Como se sente hoje?
- Feliz, feliz por tudo que fui capaz de conquistar nestes últimos meses. Lembro muito mais disso, do que dos momentos ruins.
- Então, é isso que importa!
- É isso que importa! A nossa cura!
- A nossa cura! 

27 de fevereiro de 2011

15º Capítulo: Criadores

                 Eu entrei no quarto e ela ficou me observando silenciosamente, como quem tenta decifrar algo, eu me deitei ao seu lado e fiquei a observá-la de igual forma, acompanhando seu olhar curioso, misterioso, sempre tão distante, mas ao mesmo tempo indagador.
                - Parece-me bem mais calma hoje.
                - Isso é bem verdade...
                - E o que a fez mudar?
                - Eu mesma.
                - Hum, interessante.
                - Não adianta me revoltar contra as pessoas, não adianta colocar nela a culpa de minhas próprias dificuldades e medos. O fato é que eu estava me sentindo apavorada e não estava conseguindo enxergar uma solução, ao menos uma que eu pudesse realizar sozinha. Então, mais uma vez resolvi baixar a guarda, abrir os portões, experimentar me expor, pedir ajuda mais uma vez e quem sabe ser surpreendida.
                - E como foi?
                - Sabe Rosa, cada dia que passa eu acredito mais em algo, que o não já é uma certeza, o que pode acontecer é sermos surpreendidos com um sim, com o inesperado e se nos prendermos sempre ao nosso medo, a nossa certeza do não, nunca saberemos, nunca ouviremos respostas diferentes para nada em nossa vida.
                - Pelo visto então você foi surpreendida e ouviu várias respostas positivas.
                - Verdade, foi além de qualquer expectativa que eu pudesse criar, foi complicado no começo, mas depois foi reconfortante, libertador, gratificante e percebi que no fundo eu estava fugindo de mim, talvez eu tenha mais problemas para aceitar do que os outros, ou de expor, pedir ajuda, demonstrar fragilidade, mas ninguém pode ser simplesmente uma ilha em meio ao vasto oceano, porque até mesmo nas profundezas os continentes se tocam.
                - Não falar sobre algo, não o torna menos real, só torna o problema mais solitário e a postura dos outros a respeito no fim não é o mais importante, digo no sentido daqueles que reagem negativamente, pois o que importa são os que reagem positivamente, os demais não importam. Não podemos nos trancafiar por conta de nosso passado, de nossas dores, dos que nos fizeram sofrer, mas sim nos abrir para novas experiências e vivências, para encarar sempre o novo e o aprendizado atrás de cada evento.
                - O que eu percebi com tudo isso é que não importa o quão ruim seja a situação, o quão dolorida, ou difícil, a nossa postura é que torna as coisas mais simples ou mais complicadas. Se preferirmos simplesmente nos acomodar, ou dar atenção para os comentários ou posturas ruins, ou tão somente nos isolar e nos prender a dor, ficar lamentando o que aconteceu, focar somente nos problemas, nunca sairemos dali, ou demoraremos muito mais para sairmos daquela situação.
                - Quanto mais você alimenta o problema, a dor, a pena de si mesmo, mais força eles tem sobre você.
                - Exato! No entanto, se você busca apoio nas pessoas que ama, nas pessoas que convivem com você para ajudá-lo, para dar suporte, talvez não compartilhando suas angústias intimas, mas ao menos para tornar o seu dia a dia mais ameno, para ajudá-lo a vencer suas próprias barreiras, se você usa a energia do problema para fazer uma faxina mental, emocional, se usa todo o processo a seu favor e busca maneiras alternativas para vencer suas próprias dificuldades, certamente ao fim de todo processo você terá aprendido grandes lições e até mesmo ganhado novos amigos, pessoas que ganhem um espaço em sua vida, lições que numa próxima ocasião você já saberá lidar também...
                - Isso é o que chamamos de pró-atividade, é o manter o foco na solução, em como resolver objetivamente ou através de meios alternativos o problema, do que se preocupar com o problema em si, é buscar em si mesmo as respostas e não as perguntas.
                - Verdade... tenho tentado fazer isso buscar respostas, evitar tomar decisões drásticas ou radicais, decidir coisas ou me deixar levar por sentimentos, emoções acalorados, não deixar que minha cabeça busque monstros, algo para ser o alvo ou o responsável, pois não há responsável, é um processo interno, um processo meu e pelo qual devo passar e da melhor maneira possível.
                - Todos os momentos de grande decisão, de grande estress, de grande mudança, ou que estamos enfrentando questões internas importantes, ou grandes rompimentos, perdas, eles sempre nos levam a estas encruzilhadas e o caminho mais fácil é sempre buscar um responsável, um culpado, algo para tornar o alvo de nossa frustração, raiva, mágoa, enfim, porque assumir a nossa responsabilidade por nossa alegria, tristeza, perdas, ganhos, amizades, inimizades, é muito difícil. É muito difícil se olhar no espelho e dizer: “eu sou responsável por tudo de bom e de ruim que me acontece”.
                - Isso mesmo! Porque de uma maneira ou de outra, nós é que acabamos atraindo determinadas situações para nossas vidas, através de nossos atos, pensamentos, de nossa postura perante a vida, nossas escolhas, os relacionamentos que trazemos para nosso caminho, enfim o que vivemos é reflexo do que emanamos para o mundo e assumir isso em frente ao espelho, em frente as pessoas e mudar, assumir a postura de quem tem que transformar, buscar em si as respostas, as alternativas e enxergar onde você tem fugido, errado, se escondido, é bem complicado, mas necessário, assim como é respirar....
                - Ahhh... como amo quando você desperta! Cai e torna a se levantar!
                - Nada como um joelho machucado para nos fazer lembrar que a pedra estava lá, nós é que não prestamos atenção e não adianta culpá-la, ela é só uma pedra e nós é que cruzamos o seu caminho e não soubemos desviar e por isso caminho. E muitas vezes ainda a arremessamos longe e acabemos tropeçando nela novamente mais a frente.
                - Irônico não é mesmo?
                - Não, eu diria que é perfeito. Harmonicamente perfeito! É mais do que uma lei da causa e efeito, da atração, ação e reação, é a lei do equilíbrio, da necessidade de cuidarmos do nosso equilíbrio, pois só assim poderemos equilibrar o que está a nossa volta e o que é atraído para o nosso caminho.
                - Talvez porque o universo esteja dentro e fora de você.
                - Porque ele se espelha fora, como o criamos dentro de nós não é?
                - Micro e Macro.
                - Somos criatura e criadores.
                - Tecedores e Moldadores de sua própria realidade.
                - Que assim seja!

24 de fevereiro de 2011

14º Capítulo: O cair da máscara

                - Uma rosa para uma Rosa...
                - O que é isso?
                - Um presente oras...
                - Algum motivo em especial?
                - Na verdade não. Apenas uma lembrança, um agradecimento, um agrado, como desejar receber.
                - Obrigada.
                - Sabe Rosa, me sinto cansada, realmente cansada de toda esta roupagem. Dos momentos que pareço sorrir para não ter que dar explicações, para não preocupar, ou tão somente para manter aquele ar de normalidade porque não quero ficar pedindo socorro o todo tempo. Cansada das pessoas também, parece que se você demonstra um milímetro de força ou melhora elas já exigem de você o máximo, já supõe que está tudo bem, elas não sabem lidar com a fraqueza alheia, porque não sabem lidar com a própria.
                - É difícil encarar a verdade todos os dias, isso é para poucos...
                - Eu encaro, todos os dias! Meu medo de pessoas, de multidões, minha falta de concentração, que tem me feito atrasar minhas tarefas, estudos, eu encaro meu atual medo de tempestades, minhas angústias, minhas crises de desespero, de choro, de sono, de vontade de desaparecer, todos os dias eu enfrento todos estes monstros, só para não entregar os pontos, só para eu não, não sei exatamente para que... porque a maioria finge que não vê Rosa. É cada um no seu mundo, no seu problema e eu fazendo de tudo para me manter na superfície, se não fossem algumas pessoas maravilhosas, se não fosse você e nossos diálogos insanos, eu teria me afogado neste mar de insanidade! Isso não é certo...
                - Você está realmente chateada, sinal de que está reagindo...
                - Estou, estou chateada, estou brava, indignada, eu não queria me expor, não queria expor o problema, porque não quero que me olhem com cara de coitada ou que venham com aquele discurso patético de fraqueza, de preguiça, de bem...você conhece aquele discurso leviano, mas parece que se eu não pregar uma placa no meu peito dizendo o que está acontecendo, todos vão continuar achando que está tudo normal e vão continuar pedindo meu sangue numa bandeja. Ontem eu tive tanta vontade de sair correndo, de assinar uma carta e colocar naquela mesa para não voltar mais, de virar as costas, é tão insano Rosa... tão real...
                - Hoje você não está divagando, nem falando subjetivamente, você está se expondo, mostrando que é real.
                - Eu sou real, assim como você é real e faz parte de mim e isso não pode ser mudado. É uma realidade que não posso ignorar, não posso mudar, não posso lutar contra, posso colaborar para que se estabilize, apenas isso.
                - E como se sente com relação a tudo isso?
                - De verdade? Que eu preciso rever algumas prioridades. Três coisas eu já sei que são parte de mim e eu não quero perder ou mudar. Minha crença, minha fé... meu amor, meu relacionamento, que tem sido meu grande porto seguro... meus estudos, que levam minha cabeça pra longe, me fazem bem, me dão objetivo...
                - E o restante?
                - Eu pensei que fosse a base sabe, mas esta base está me ruindo e eu não sei o que eu vou fazer, eu só preciso ter calma para não fazer nenhuma besteira, que nestas tempestades é algo que eu sempre faço.
                - Eu bem sei...
                - Eu já descobri que eu não sou a Mulher Maravilha, eu preciso me abrir, preciso de apoio, de amigos, de pedir ajuda, de expor meus medos, meus problemas. Já descobri que por mais que eu tenha pessoas ao meu lado, esta tempestade é minha e tenho que vivê-la no meu ritmo, compreender o que ela tem a me ensinar, deixar de ser tão rígida comigo mesma, redescobrir meu lado doce, equilibrar os lados, os pesos, não me cobrar tanto. Descobri que tudo na vida é entrega, total e irrestrita, confiança, amor, que temos que confiar em nós mesmos, amar a nós mesmos, seguir nossos instintos, nosso coração e deixar que os ciclos se cumpram, que o que deve morrer morra, que o deve nascer nasça e assim tudo seja sempre renovado... que nossas máscaras por vezes nos protegem, mas muitas vezes nos aprisionam também, portanto sermos honestos com nós mesmos, com nossas virtudes e limitações é sempre o melhor caminho a seguir e que nós nunca somos imutáveis, estamos em constante mudança e aprendizado.
                - Deste jeito eu não precisarei te mostrar mais nada.
                - Boba! E agora eu vejo que guardar um problema, em partes para não me expor e não ter que ouvir coisas absurdas, por vezes também acaba sendo um problema, pois por desconhecimento dele, por uma falsa aura de normalidade, quando você não está agüentando o peso da normalidade, a cobrança por esta falsa imagem que você mesmo criou é mais cara do que as besteiras que você provavelmente virá a ouvir... eu não sei, sei que do jeito que está, as coisas estão fugindo do meu controle.
                - Existem riscos em qualquer uma delas meu bem...
                - Pelo menos estarei sendo honesta comigo mesma, quem não compreender, não poderei culpá-los por sua ignorância.
                - Compaixão é um dom de poucos.
                - Sanidade, é o que eu desejo manter.
                - Na pior das hipóteses você levanta a bandeira branca.
                - Estou quase pedindo por uma!
                - Quem sabe você não ganha uma!
                - Fraqueza?
                - Humanidade minha cara, humanidade!

19 de fevereiro de 2011

13º Capítulo: A Descida

                Eu me via descendo uma longa escada em espiral e a cada degrau a escuridão se tornava mais densa, até que ao longe eu via uma luz tremeluzente e um vulto que parecia segurá-la e sempre neste ponto eu acordava. Ergui da cama, o peito em chamas, olhei em volta, tudo parecia vazio, silencioso, mas ela estava lá imóvel perto da janela fitando o horizonte sob a luz da lua. Eu escorreguei da cama e me aproximei em silêncio e me pus a olhar na mesma direção, a lua estava belíssima no céu, enorme, com um aro dourado como uma coroa de realeza e majestade, amarela, pairando sob o céu estrelado, como se não se importasse em ser tão solitária.
                - Por que é tão difícil romper uma barreira que nós mesmos criamos Rosa? Quebrar um hábito, um vício, mudar algo em nós mesmos? Eu tenho tentado, mas parece ser em vão...
                - Você acreditou mesmo que seria fácil? Quanto tempo passou lapidando esta nova postura? Anos? E pensou que em semanas a romperia?
                - Bem, ao menos não pensei que seria tão difícil... creio que foi desde nosso último encontro, mais de cinco anos talvez. Eu levaria todo este tempo para desfazê-la?
                - Não, não teria que ser o mesmo tempo, mas achar que pelo simples fato de tomar consciência de um problema ele se desfaria como mágica também seria ingenuidade. Certas coisas estão arraigadas, infiltradas em comportamentos, medos, padrões e estas não são assim tão simples de mudar. Outras apenas saber desfaz o encanto, mas isso requer tempo, observação, disciplina.
                - Isso é um tanto frustrante...
                - Frustrante porque você quer que tudo acabe logo, a tempestade, a tristeza, a dor, os pensamentos, as reflexões, a solidão dentro de si mesma...
                - Sim, isso é verdade, embora eu goste de nossas conversas e das reflexões, é tudo bem complicado em alguns momentos.
                - Algumas escolhas, jornadas, caminhos que seguimos nunca serão fáceis, mas eles trazem recompensas, é como se ao abrimos aquelas portas, ao rompermos aqueles umbrais, vencermos as dores que o conhecimento nos traz, o auto-conhecimento, a responsabilidade, bem, nós somos capazes de ver além, de alcançar esferas mais sutis que outros não são capazes.
                - O fruto do conhecimento, tão cobiçado e ainda sou capaz de me entregar meus caminhos por tantas e tantas vezes, bem que eu sempre desconfiei que não era uma pessoa muito normal, a diferença é que agora tenho certeza que não sou nada normal.
                - Pessoas geniais nunca são normais...
                - E que isso me sirva de consolo! Eu sou genialmente insana!
                - Deixe-me contar uma história... existe um mito que conta que aqueles que estão prontos para a transformação, assim como para sua morte, tal qual para entregarem suas vidas para um propósito maior, eles devem fazer a grande descida. Para alguns ela é representada por uma caverna profunda e úmida como a descida para o ventre, para outros uma escada espiral como o cordão de nossa ancestralidade, para outros os portais do submundo, mundo inferior, enfim, chegando em tais portais há uma mulher a sua espera, velha ou nova, madura, mas sempre, sempre sábia, conhecedora dos mistérios da vida e da morte, capaz de cruzar tais portais em segurança e conduzir através deles qualquer alma viva ou morta. Ela tem muitos nomes, mas sempre exige um juramento, um sacrifício, uma prova, um teste para que cruzem os portais em direção aos seus domínios.
                Meus olhos estavam arregalados naquele momento, pois em momento algum eu havia comentado com a Rosa dos sonhos que eu havia tido estas últimas noites e de repente era exatamente isso que ela parecia descrever. Como ela poderia saber?
                - De toda forma entre tantos símbolos, Ela geralmente pede que aqueles que se aproximam se dispam de suas vestes, de seus adornos, armas, amaduras, de suas posses, de qualquer coisa que os distingam entre os demais, para que lembrem que naqueles reinos eles não são reis ou rainhas, nobres, sacerdotes, ricos ou pobres, sábios ou ignorantes, somente o que há dentro deles, seus valores, medos, virtudes e imperfeições os acompanham, por isso até mesmo em outros contos pesavam seus corações e se este pesassem mais que uma pena eles estariam condenados. Compreende?
                - Ela queria que todos fossem iguais, que não se julgassem pela aparência, mas sim pelo o que verdadeiramente eram, que não se escondessem por trás de seus títulos e adornos?
                - Exatamente, pois é fácil ser forte atrás de armas, escudos, armaduras, é fácil parecer sábio atrás de um altar, cercado de fiéis, sob uma cúpula e roupas sacras, mas indefeso, na escuridão, despido, quem seria capaz de encarar a própria morte?
                - Só os genialmente insanos como eu?
                - Não é exatamente esta a resposta, mas você captou a idéia. Só aqueles que já se encararam despidos, nus, que já encararam a face de sua própria morte, que já se desafiaram, que já se confrontaram, são capazes de respeitar o outro em suas fraquezas, de encarar a própria fraqueza, a própria morte com dignidade e se entregar a ela, porque transformar-se nada mais é do que uma pequena morte, é despedir-se do velho e dar passagem para o novo, destruir para criar, criar para recriar, e novamente e quantas vezes for necessário. Qual é o segredo então?
                - Confiança? Amor próprio?
                - Isso, confiança em si mesmo, amor por si mesmo, mesmo que seja uma busca eterna, que nunca se esgote, por mais que se tenha medo do que irá acontecer, é não temer se entregar ao processo, a transformação, a pequena morte. É confiar nos umbrais, um coração com medo sempre pesará mais que uma pena, assim como um coração com culpa, mas um coração que está disposto a aprender, a transformar-se, sempre será julgado com compaixão e receberá aquilo que merece.
                - Então eu devo apenas me entregar ao processo, a transformação e parar de me preocupar em quanto tempo irá demorar, o que irá acontecer, o que ganharei, o que perderei, apenas confiar e esperar que virá o melhor?
                - Isso, sem pensar neste novo processo, não vieram coisas melhores quando você saiu da outra tempestade?
                - Sim, as coisas mudaram muito, melhoraram muito, eu só não contava com uma nova.
                - Os ciclos nunca terminam.
                - Sinal de que outras virão...
                - Pode ser que sim, pode ser que não, preocupe-se com o hoje. Existem várias formas de se viver uma tempestade que não esta.
                - Então, tenho que me despir, descer as escadas, ir até ela e me entregar sem medo e apenas confiar, afinal já entreguei minha vida a Ela antes e entregá-la novamente será apenas um retorno, correto?
                - Um retorno para casa...
                - Casa, gosto desta palavra. Casa! 

15 de fevereiro de 2011

12º Capítulo: Tempestade

                - O que você está fazendo aí?
                 - Estou vivendo minha própria tempestade!
               - Desta forma vai acabar é doente, isso sim!
               - Não foi você que disse que eu deveria abandonar um pouco a razão? É o que estou fazendo!
               - Ficando embaixo desta tempestade?
               - Exato!
               Eu sentia a chuva encharcar o meu corpo, ele estremecia de frio, mas ao mesmo tempo era como se ela levasse embora parte dos meus medos, das minhas dores, lavasse minha alma. Por vezes os raios riscavam o céu, iluminando tudo em volta e era como se minha pele pudesse sentir toda aquela eletricidade suspensa, pois eu sentia todo o meu corpo arrepiar. A cada trovão eu sentia meu coração pulsar fortemente dentro do meu peito, retumbando, parecendo que iria explodir em seu interior. Meus pés descalços tocavam a terra e aquela sensação era boa, era como se eu pudesse sentir tudo em volta, me sentir ligada a tudo que existia.
               Eu olhei para ela e tornei a entrar, tremendo de frio, não sabia a quanto tempo estava ali e fiquei a encarando por alguns instantes, seus olhos não se desviaram dos meus, assim como ela não ousara me questionar nada, apenas me observava ali parada a sua frente, escorrendo, completamente ensopada.
               - Rosa...
               - Hum...
               - Você acha que é mesmo possível mudar? Voltar atrás?
               - Como assim?
               - Eu sinto como se eu estivesse engessada, endurecida, presa. Como se tivesse passado tanto tempo agindo de uma certa forma, que agora agir de outra maneira tem sido bem difícil, quando me dou conta já estou agindo da maneira que me auto-determinei.
               - É como um vício, no começo é sempre difícil, porque existe o costume, o hábito, o comportamento viciado, o impulso de agir sempre igual, porém com a observação, com a disciplina você pode ir corrigindo este comportamento, moldando...
               - Eu achei que seria mais fácil...
               - Você já deveria saber que nestes processos nada é fácil.
               - Creio que sim, nunca foi..
               - Então, por que desta vez haveria de ser?
               - Pensei que com toda a bagagem, conhecimento, desta vez seria mais fácil...
               - Nenhuma forja é fácil, mudanças nunca são fáceis, transformações, renascimentos, eles requerem pequenas mortes, entrega, são processos viscerais.
               - De fato.
               - O que foi?
               - Creio que neste processo nunca tinha me sentido tão só.
               - Por que?
               - É como se eu gritasse e ninguém me ouvisse, se eu falasse e ninguém entendesse, se eu tentasse correr e meus pés estivessem fincados, como se eu pedisse ajuda e as pessoas só ouvissem os ecos de suas próprias vozes. Então percebi, lembrei de nossa conversa sobre tempestade, do processo solitário, interno, pessoal e foi como esvaziar-se em mim.
                 - Não fique assim, toda tempestade tem seu começo, seu meio e seu fim...
               - Mas nós nunca sabemos quanto tempo irá durar.
               - Nunca é para sempre.
               - Mas eu não sei o que irá sobrar quando ela acabar, o que vai estar lá quando ela passar, o que vai permanecer, qual será sua intensidade desta vez, ela nunca deixa tudo igual...
               - Você não deve temer isso também, o que ela levar embora era necessário.
               - E se eu não estiver preparada? E se eu não quiser? Se...
               - Cada um vive sua própria tempestade! Não adianta querer prever.
               - Mas e se ela levar tudo?
               - Ela só leva aquilo que não tem raízes fortes, aquilo que não se sustenta.
               - E como eu poderia saber?
               - Não tem como saber, agora não, até porque aqui dentro dela é tudo muito diferente.            Você só poderá ver claramente quando ela passar, só quando estiver fora dela poderá enxergar as coisas verdadeiras, os laços verdadeiros, compreender o que aconteceu, viveu, sentiu e seguir..
               - E o que acontece durante?
               - Durante é tudo incerto, você deve tomar cuidado, pois enquanto fora dela tudo é claro, certo, navegar é seguro, se tem segurança para sair do curso e voltar para ele, consertar erros. Durante ela não, pois qualquer erro parece grandioso, monstruoso, pode significar um choque nas rochas, pois as águas são turbulentas e furiosas, um leve desvio e tudo pode estar perdido, por isso levar seu próprio barco é tão importante, pois só você sabe para onde conduzi-lo e como. Não seja tão exigente consigo mesma, tão pouco com os outros.
               - Entendo...
               - Deixe que cada um siga seu curso, sua intensidade, sua verdade, cada um colhe seus próprios ventos e direções minha flor... viva a sua, sem culpa, nem exija que os outros entendam ou compreendam. Esta é uma jornada solitária, ninguém encontra seu caminho no outro.
                - Mas...
               Ela levou seus dedos aos meus lábios e os silenciou.
               - Sem mais, sem pensar, sem criar fantasmas. Vá tomar um banho quente, esqueça todo o resto. Não é momento de decisões, é momento de viver, sentir e seguir, decisões só quando o sol se abrir. Combinado?
               - Tubo bem...
               - Vá...
               Eu sai dali desnorteada, sem saber exatamente o que pensar, mas ela disse que não era para pensar, então tentei não pensar, simplesmente fui tomar o meu banho e aquecer o meu corpo e deixar que minha tempestade me levasse para onde quer que eu devesse chegar.

11 de fevereiro de 2011

11º Capítulo: Totalidade


                  - O que foi? Você me parecia tão mais animada estes dias?
                - Não sei Rosa, sabe quando parece que você está andando sob um campo minado, sob areia movediça? Num primeiro momento parece confortável, mas ao mesmo tempo incerto, instável, como se a qualquer momento a terra pudesse abrir sob os seus pés.
                - Entendo.
                - E o que acha que pode ter desencadeado isso?
                - De alguma forma, com todas estas reflexões, eu percebi que preciso mudar certas coisas em minha vida, contudo hoje não tenho como mudar certas coisas, apenas detalhes, mas o quadro permanece o mesmo. Para haver realmente uma mudança, é como se eu tivesse que repensar em tudo, começar do zero, repintar a tela ou forçar um pouco mais, para então começar a minha obra.
                - Humm, qual é a dúvida nisso tudo?
                - Será que eu agüento Rosa? Quanto mais será que eu agüento? Eu tinha tanta certeza de minha fortaleza, de meus super poderes, da minha invencibilidade e agora não tenho mais, porém que estratégia usar? O que fazer? Era tudo tão claro, tão objetivo! Agora parece-me que tudo foge do controle, tudo parece-me cada vez mais distante!
                - Mudanças nunca são fáceis, ainda mais quando elas começam dentro, quando a tempestade ocorre dentro e fora de nós.
                - Me sinto sendo jogada para fora do barco neste momento, eu soube pedir ajuda e a recebi, agora estamos todos numa jangada, mas a tempestade é tão espessa, tão forte, que não sabemos para onde ir, ao mesmo tempo que não sabemos quanto tempo vamos durar ali.
                - Que tal apenas confiar?
                - Em algo maior? Em mim? No apoio que venho recebendo?
                - Em tudo isso, na sua própria tempestade, ela não veio em vão. Ela veio lavar, purificar, te mostrar coisas, te trazer ensinamentos, mas você está com pressa de resolver, quando na verdade talvez deva simplesmente sentir, se entregar a ela, viver. Emoção lembra? Menos razão!
                - Mas como me deixar levar pela tempestade, pelas emoções, se são elas que me desesperam, que me fazem agir como um bicho acuado? Se elas me confundem os sentidos?
                - Pare! Feche seus olhos!
                Eu podia sentir aquele desespero me subindo as pernas, a respiração ofegando, o peito sendo esmagado por mais uma crise de ansiedade, era como se o mundo me esmagasse, tentasse me sufocar, eu me sentia insignificante, queria correr, mas não me mexia, queria gritar, mas minha voz não saia, queria chorar, mas meus olhos secaram, queria... e estava ali congelada, com medo, em pânico de nada e ao mesmo tempo de tudo.
                - Você já viu algum animal perdido na floresta?
                - O que?
                - Sim ou não?
                - Ahn... não...
                - Já viu algum animal perder o rumo de caso porque chove?
                - Não...
                - Já viu algum animal não ter reação diante do maior perigo?
                - Acho que não...
                - Não esqueça desta parte em você, esta parte animal, selvagem.
                - Use seus instintos. Um animal sempre tenta fugir, correr, ou ameaçar, mesmo que não tenha a menor chance, mesmo que seja seu último grito, ele sempre volta para sua casa quando aprende a reconhecer os sinais, ele sempre encontra seu bando. Você está esquecendo da sua essência.
                - Não importa onde você esteja, lembre-se disso, não use só sua mente, a razão, vocês se vangloriam tanto por sua racionalidade, mas ela não é tudo, é apenas uma parte do que são, vocês também são animais, são emoção, são espírito, são sagrado e precisam se conectar com estas partes, ouvi-las e confiar nelas, pois elas também podem te guiar quando a razão não está conseguindo achar respostas, quando ela não está conseguindo ter o controle.
                Eu respirei profundamente e tentei encontrar esta parte em mim, tentei encontrar alguma parte em mim que não precisasse da minha razão, de ordem, que apenas agisse, sentisse, intuísse, reagisse.
                - Se a razão foi tirada do poder, é porque era necessário, porque ela estava dominando as outras partes e tirando o equilíbrio, tornando-a árida. A tempestade veio para purificar, para fazê-la lembrar... então lembre-se...
                De repente eu me vi correndo por todos os lugares, matas, desertos, praias, montanhas, sob a lua e finalmente a tempestade me alcançou, eram raios, trovões, ela balançava meus cabelos de forma selvagem, como selvagem eu era naquele momento e de repente um raio me acertou, em cheio e sem explicação nenhuma eu uivei, longamente, intensamente.
                Quando abri os olhos eu estava mais calma, sentia uma eletricidade percorrendo meu corpo, respirei profundamente e olhei para a Rosa.
                - Então que venha a minha tempestade...
                - Nunca se esqueça de quem você...
                - Não vou esquecer....
                - Não deixe que a razão controle a sua totalidade.
                - Mais uma vez, muito obrigada!