Strony

15 de fevereiro de 2011

12º Capítulo: Tempestade

                - O que você está fazendo aí?
                 - Estou vivendo minha própria tempestade!
               - Desta forma vai acabar é doente, isso sim!
               - Não foi você que disse que eu deveria abandonar um pouco a razão? É o que estou fazendo!
               - Ficando embaixo desta tempestade?
               - Exato!
               Eu sentia a chuva encharcar o meu corpo, ele estremecia de frio, mas ao mesmo tempo era como se ela levasse embora parte dos meus medos, das minhas dores, lavasse minha alma. Por vezes os raios riscavam o céu, iluminando tudo em volta e era como se minha pele pudesse sentir toda aquela eletricidade suspensa, pois eu sentia todo o meu corpo arrepiar. A cada trovão eu sentia meu coração pulsar fortemente dentro do meu peito, retumbando, parecendo que iria explodir em seu interior. Meus pés descalços tocavam a terra e aquela sensação era boa, era como se eu pudesse sentir tudo em volta, me sentir ligada a tudo que existia.
               Eu olhei para ela e tornei a entrar, tremendo de frio, não sabia a quanto tempo estava ali e fiquei a encarando por alguns instantes, seus olhos não se desviaram dos meus, assim como ela não ousara me questionar nada, apenas me observava ali parada a sua frente, escorrendo, completamente ensopada.
               - Rosa...
               - Hum...
               - Você acha que é mesmo possível mudar? Voltar atrás?
               - Como assim?
               - Eu sinto como se eu estivesse engessada, endurecida, presa. Como se tivesse passado tanto tempo agindo de uma certa forma, que agora agir de outra maneira tem sido bem difícil, quando me dou conta já estou agindo da maneira que me auto-determinei.
               - É como um vício, no começo é sempre difícil, porque existe o costume, o hábito, o comportamento viciado, o impulso de agir sempre igual, porém com a observação, com a disciplina você pode ir corrigindo este comportamento, moldando...
               - Eu achei que seria mais fácil...
               - Você já deveria saber que nestes processos nada é fácil.
               - Creio que sim, nunca foi..
               - Então, por que desta vez haveria de ser?
               - Pensei que com toda a bagagem, conhecimento, desta vez seria mais fácil...
               - Nenhuma forja é fácil, mudanças nunca são fáceis, transformações, renascimentos, eles requerem pequenas mortes, entrega, são processos viscerais.
               - De fato.
               - O que foi?
               - Creio que neste processo nunca tinha me sentido tão só.
               - Por que?
               - É como se eu gritasse e ninguém me ouvisse, se eu falasse e ninguém entendesse, se eu tentasse correr e meus pés estivessem fincados, como se eu pedisse ajuda e as pessoas só ouvissem os ecos de suas próprias vozes. Então percebi, lembrei de nossa conversa sobre tempestade, do processo solitário, interno, pessoal e foi como esvaziar-se em mim.
                 - Não fique assim, toda tempestade tem seu começo, seu meio e seu fim...
               - Mas nós nunca sabemos quanto tempo irá durar.
               - Nunca é para sempre.
               - Mas eu não sei o que irá sobrar quando ela acabar, o que vai estar lá quando ela passar, o que vai permanecer, qual será sua intensidade desta vez, ela nunca deixa tudo igual...
               - Você não deve temer isso também, o que ela levar embora era necessário.
               - E se eu não estiver preparada? E se eu não quiser? Se...
               - Cada um vive sua própria tempestade! Não adianta querer prever.
               - Mas e se ela levar tudo?
               - Ela só leva aquilo que não tem raízes fortes, aquilo que não se sustenta.
               - E como eu poderia saber?
               - Não tem como saber, agora não, até porque aqui dentro dela é tudo muito diferente.            Você só poderá ver claramente quando ela passar, só quando estiver fora dela poderá enxergar as coisas verdadeiras, os laços verdadeiros, compreender o que aconteceu, viveu, sentiu e seguir..
               - E o que acontece durante?
               - Durante é tudo incerto, você deve tomar cuidado, pois enquanto fora dela tudo é claro, certo, navegar é seguro, se tem segurança para sair do curso e voltar para ele, consertar erros. Durante ela não, pois qualquer erro parece grandioso, monstruoso, pode significar um choque nas rochas, pois as águas são turbulentas e furiosas, um leve desvio e tudo pode estar perdido, por isso levar seu próprio barco é tão importante, pois só você sabe para onde conduzi-lo e como. Não seja tão exigente consigo mesma, tão pouco com os outros.
               - Entendo...
               - Deixe que cada um siga seu curso, sua intensidade, sua verdade, cada um colhe seus próprios ventos e direções minha flor... viva a sua, sem culpa, nem exija que os outros entendam ou compreendam. Esta é uma jornada solitária, ninguém encontra seu caminho no outro.
                - Mas...
               Ela levou seus dedos aos meus lábios e os silenciou.
               - Sem mais, sem pensar, sem criar fantasmas. Vá tomar um banho quente, esqueça todo o resto. Não é momento de decisões, é momento de viver, sentir e seguir, decisões só quando o sol se abrir. Combinado?
               - Tubo bem...
               - Vá...
               Eu sai dali desnorteada, sem saber exatamente o que pensar, mas ela disse que não era para pensar, então tentei não pensar, simplesmente fui tomar o meu banho e aquecer o meu corpo e deixar que minha tempestade me levasse para onde quer que eu devesse chegar.

0 comentários: