Strony

7 de fevereiro de 2011

8º Capítulo: Ciclos

             Eu andei pelo quarto a passos lentos, quase que arrastados, rodopiando pra lá e para cá, olhando-a com o canto dos olhos, ainda sentindo-me envergonhada por ter parecido uma criança birrenta em nossa última conversa, por fim sentei-me ao seu lado. Ela fingia não me observa, mas eu sabia que ela me acompanhava discretamente com aqueles olhos vítreos.
                - Rosa... – tais palavras não passaram de um murmúrio.
                - Hum.
                - Você disse que nós não perdemos aquelas partes de nós que deixamos de lado, que elas ficam apenas escondidas, guardadas, latentes.
                - Pense assim, é como a lua, todas as noites você vê a mesma face dela não é verdade? Mas você sabe que ela tem outra face, que está sempre oculta, contudo ela existe, tanto quanto aquela que está visível todas as noites.
                - Então é como simplesmente nós ocultássemos aquela parte e deixamos a mostra apenas a outra parte, da mesma forma que antes deixamos esta parte agora visível escondida e a outra a mostra?
                - Exato. É como a antiga sala dos tecidos pretos, só que ao invés de você entrar na sala e perceber que haviam coisas escondidas e simplesmente puxar os véus e tentar trazer o equilíbrio entre tudo que havia ali, você colocou os véus sobre o que estava exposto e expôs o que antes estava escondido, vocês inverteu os papéis.
                - Eu pensava que estava resolvendo o problema, mas na verdade eu estava apenas invertendo os pólos, partindo de um extremo para o outro.
                - Isso. Ao invés de equilibrar tudo, você apenas trocou de posição no tabuleiro, o que por um lado foi bom, pois você aprendeu outros dons, outras características que antes julgava não ter, conquistou novos horizontes e passou a ter novas perspectivas a respeito de si mesma, conheceu um lado de si mesma que até então era oculto, inexplorado.
                - Por outro lado apaguei todo aquele lado luminoso que eu já conhecia.
                - Aí entra uma importante lição, quando estamos explorando o nosso universo não adianta apenas inverter os pólos, virar 180º pois você estará ocultando o que conhece e viverá intensamente o desconhecido, será como começar do zero, se ao invés disso você tivesse virado apenas 90º de cada vez, você sempre estaria trabalhando com uma porção desconhecida e uma porção conhecida, você estaria sempre em equilíbrio, sempre teria onde se apoiar e o que explorar, ganhando novas cartas e tendo cartas para jogar.
                - É como se eu tivesse mergulhado na porção escura da lua e tivesse simplesmente tentado desvendar tudo de uma vez e no meio daquela confusão eu até consegui aprender várias coisas, mas me faltou luz, aquele sentimento de casa, de conhecido, aquele porto-seguro que traz segurança, centramento, conforto.
                - Você apenas confundiu, na sua ânsia de conhecer, de mostrar para o”Cobrador” que você era capaz de mudar, de ser responsável, fazer, organizar, estabelecer metas e alcançá-las, você colocou tanto foco nisso que só enxergou isso. Bom que você conquistou isso, ruim porque você se perdeu em sua busca, mas agora é recomeçar, nunca é o fim...
                - Toda vez que nos encontramos é sempre o abismo antes do salto não é mesmo?
                - Isso! Mas agora ciente dos ciclos, ciente que não adianta simplesmente reverter os papéis, mudar de um extremo para o outro. Aprenda com a lua, tudo dentro de nós fala dela, dos ciclos, de respeitar o nosso movimento interno.
                Ela então pegou uma folha de papel e começou a desenhar com seu batom vermelho em nosso espelho as fases da lua, os seus cinco momentos no céu, crescente, cheia, minguante, negra e nova. E então continuou.
                - Primeiro estamos juvenis, alegres, soltas, falantes, risonhas.. então estamos plenas, responsáveis, nutridoras, atentas, protetoras, amorosas... então mais introspectivas, pensativas, refletindo sobre a vida, amores, futuro, melosas ou tristonhas... então estamos imersas em nós mesmas, silenciosas, escondidas em nosso próprio universo, misteriosas... de repente ressurgimos renovadas, selvagens, mulheres, poderosas e tudo isso pode acontecer num único dia, ou num mês, ou no decorrer do ano. Temos nossos ciclos e devemos respeitá-los.
                - Acredito que eu não respeitei os meus ciclos, me prendi em apenas alguns deles, numa tentativa de me impor aquilo que eu não conhecia e que julgava que precisava conquistar e deixei aprisionados os demais, até o momento que tudo ruiu, eles não fluem uns sem os outros, um precisa do outro para que o ciclo perdure.
                Ela então me empurrou na cama e fez um sinal para que eu não resistisse. Eu fiquei apenas olhando com uma cara de curiosidade, sem entender o que estava acontecendo. Ela então puxou minha camiseta e com seu batom começou a pintar as luas em meu ventre e então ficou olhando com um sorriso de satisfação.
                - Pronto, agora você tem o poder dos ciclos de volta!
                Eu fiquei olhando para ela admirada apenas. Aqueles eram os momentos que davam significado ao que era mágico daquela relação confusa e por vezes tão dolorosa, as coisas que ela me arrancava e a dor das verdades que ela me trazia, por vezes eram dissolvidas em momentos como aqueles, por isso ela era a minha Rosa, meu Minotauro, pois por vezes me presenteava com seu inebriante perfume e seu infindável conhecimento! Afinal, como deve ser passar uma vida inteira mergulhada em si mesmo?

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