- Eu inventei um nome para você...
Ela me olhou com certo ar de curiosidade, tentando imaginar que nome seria este. Se aproximou de mim e ficou esperando que eu dissesse o nome.
- Rosa.
Eu disse suavemente, como que esperando sua reação, se sorriria, se não se importaria, afinal para mim aquele nome tinha significados diversos, era doce, mas ao mesmo tempo selvagem, trazia um aroma inebriante, mas ao mesmo tempo espinhos ferozes e cicatrizes marcantes, era um misto de beleza e dor, de doçura e fel, de amor e ódio, sentimentos complexos, como complexa era a nossa relação. Ela então abriu um leve sorriso, sutil como tudo que vinha dela.
- Rosa, gostei. Isso quer dizer que me vê por completo, tanto as coisas boas, quanto as ruins, ainda sim é capaz de me admirar.
Por alguns instantes não soube exatamente o que dizer, pois não tinha visto desta forma, havia pensando sim nas coisas boas e nas ruins, mas não que no fim das contas preferia chamá-la de rosa e não de espinho. Talvez porque enquanto vive-se um espinho só pensemos nele, na dor que ele nos causa, mas quando nós o tiramos, só pensamos no alívio e depois no que aprendemos, nas lições e por vezes as lições são mais valiosas do que o espinho em si, não que sejamos tolos a ponto de ficar colhendo espinhos por aí!
- Como acha que podemos recuperar algo que perdemos?
Eu disse de súbito, lembrando de minhas reflexões da noite anterior.
- Algo que é seu ou algo que diz respeito a alguém?
- Não, meu mesmo, coisas que eu tinha, que eu fazia, sabia, que eu talvez exagerasse e de repente tentando colocar ordem na casa, acabei colocando ordem demais e a casa se tornou árida, cheia de retas, regras, planos...
- Como alguém que era livre e selvagem, que achou que devia simplesmente se tornar ordeira, masculina, dura consigo mesma, volta a ser ela mesma?
Aquelas palavras foram como um soco no estômago, tanto que eu precisei sentar para compreender o que eu estava ouvindo. Não que eu me vestisse como homem, ou parecesse um, mas toda aquele ordenamento, rigidez, tirania, metodismo, era tudo muito de Saturno, de Ares, aquele meu ar irresponsável de Diana, que pisava na grama, que andava descalça, que tomava banho de chuva, que se permitia ser livre, que vivia esta liberdade, que se permitia sentir prazer, correr, rir, até mesmo se embriagar pelas madrugas, tudo isso era controlado e não era por minha mãe como antigamente, eu não tinha vilão, algoz, a quem culpar, era eu.
- É tão difícil quebrar as próprias regras assim? Ou você guarda tanta culpa assim por tê-las quebrado no passado?
- Eu acho... acho que um pouco dos dois... a gente cresce e vem as responsabilidades... a casa... as contas... e o retorno de...
- Acho que você levou tudo a sério demais, acho que você vem se pressionando demais. Ou espera achar o Avião Invisível?
Ela estava tirando sarro da minha cara! Eu não disse que ela era irritante! Irritante! Detestável! Eu sofrendo! Me acabando! Dias aqui presa neste, neste buraco, neste inferno, nesta dimensão, sei lá que porcaria é essa e ela ainda tira sarro da minha cara!
- Ahh, você não começa!
- Começar com o que? Vai me dizer que você não é a Mulher Maravilha então? Por que achar que pode manter tudo sob o controle o tempo todo, só pode ser alguém que se acha superior ou suicida não é mesmo? Que pode resolver tudo sozinha? Sexo forte né? Mulher agüenta tudo?
- Eu disse para você não começar! Eu não disse que eu sou a Mulher Maravilha, nem que sou melhor do que ninguém, nem que mulheres são melhores, mas é que as vezes parece que eles moram num mundo paralelo e a gente não tem paciência de ficar esperando eles prestarem atenção em alguma coisa, então a gente vai lá e resolve. E eu não agüento tudo e não tento resolver tudo sozinha, eu peço ajuda quando preciso.
- Ah é, pra quem? Com quem você tem conversado?
- Ahh... com minhas amigas.
- Que amigas, diga os nomes.
- Você não conhece.
- Nomes.
- Ninguém, é tudo muito corrido e elas sempre tem problemas e eu tento ajudar e aí... fica assim.
- Mulher Maravilha.
- Vá se ferrar.
- Você é humana lembra?
- Tenho tentado esquecer...
- E isso vai ajudar em que?
- Não sei..
- Agora parece uma criança birrenta.
- Eu não sei, parece um monte de bobagem, as mesmas reclamações pelas mesmas coisas, ninguém quer ficar ouvindo as mesmas coisas sempre e sei lá, não tenho como mudar a situação agora, do que vai adiantar ficar reclamando?
- Desabafar talvez?
- Ser homem é tão mais simples....
Me joguei na cama, com a cabeça no travesseiro, me sentia derrotada neste embate, de fato eu não era muito de pedir ajuda para as pessoas a minha volta, de desabafar, de xingar minha rotina estafante ou sei lá, resmungar porque alguém me olhou feio, ou as vezes quando tentava fazer isso não ganhava muita atenção, era o suficiente para assumir a postura da menina birrenta e não falar mais nada por meses. Em que loucura eu tinha me colocado? Eu não diria a ela que ela tinha razão e isso estava resolvido.
- Você gosta de ser mulher, de ser complicada, dos conflitos, da beleza, da força, da selvageria, da liberdade, deste jeito menina, jovem, mulher de ser...
- Você tem razão.... sobre tudo...
Perdi. Ou ganhei?





1 comentários:
Li e adorei. Profundo, verdadeiro e é como se as palavras da história arrancassem verdades não ditas de quem lê. Voltarei sempre.
:*
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