Eu me via descendo uma longa escada em espiral e a cada degrau a escuridão se tornava mais densa, até que ao longe eu via uma luz tremeluzente e um vulto que parecia segurá-la e sempre neste ponto eu acordava. Ergui da cama, o peito em chamas, olhei em volta, tudo parecia vazio, silencioso, mas ela estava lá imóvel perto da janela fitando o horizonte sob a luz da lua. Eu escorreguei da cama e me aproximei em silêncio e me pus a olhar na mesma direção, a lua estava belíssima no céu, enorme, com um aro dourado como uma coroa de realeza e majestade, amarela, pairando sob o céu estrelado, como se não se importasse em ser tão solitária.
- Por que é tão difícil romper uma barreira que nós mesmos criamos Rosa? Quebrar um hábito, um vício, mudar algo em nós mesmos? Eu tenho tentado, mas parece ser em vão...
- Você acreditou mesmo que seria fácil? Quanto tempo passou lapidando esta nova postura? Anos? E pensou que em semanas a romperia?
- Bem, ao menos não pensei que seria tão difícil... creio que foi desde nosso último encontro, mais de cinco anos talvez. Eu levaria todo este tempo para desfazê-la?
- Não, não teria que ser o mesmo tempo, mas achar que pelo simples fato de tomar consciência de um problema ele se desfaria como mágica também seria ingenuidade. Certas coisas estão arraigadas, infiltradas em comportamentos, medos, padrões e estas não são assim tão simples de mudar. Outras apenas saber desfaz o encanto, mas isso requer tempo, observação, disciplina.
- Isso é um tanto frustrante...
- Frustrante porque você quer que tudo acabe logo, a tempestade, a tristeza, a dor, os pensamentos, as reflexões, a solidão dentro de si mesma...
- Sim, isso é verdade, embora eu goste de nossas conversas e das reflexões, é tudo bem complicado em alguns momentos.
- Algumas escolhas, jornadas, caminhos que seguimos nunca serão fáceis, mas eles trazem recompensas, é como se ao abrimos aquelas portas, ao rompermos aqueles umbrais, vencermos as dores que o conhecimento nos traz, o auto-conhecimento, a responsabilidade, bem, nós somos capazes de ver além, de alcançar esferas mais sutis que outros não são capazes.
- O fruto do conhecimento, tão cobiçado e ainda sou capaz de me entregar meus caminhos por tantas e tantas vezes, bem que eu sempre desconfiei que não era uma pessoa muito normal, a diferença é que agora tenho certeza que não sou nada normal.
- Pessoas geniais nunca são normais...
- E que isso me sirva de consolo! Eu sou genialmente insana!
- Deixe-me contar uma história... existe um mito que conta que aqueles que estão prontos para a transformação, assim como para sua morte, tal qual para entregarem suas vidas para um propósito maior, eles devem fazer a grande descida. Para alguns ela é representada por uma caverna profunda e úmida como a descida para o ventre, para outros uma escada espiral como o cordão de nossa ancestralidade, para outros os portais do submundo, mundo inferior, enfim, chegando em tais portais há uma mulher a sua espera, velha ou nova, madura, mas sempre, sempre sábia, conhecedora dos mistérios da vida e da morte, capaz de cruzar tais portais em segurança e conduzir através deles qualquer alma viva ou morta. Ela tem muitos nomes, mas sempre exige um juramento, um sacrifício, uma prova, um teste para que cruzem os portais em direção aos seus domínios.
Meus olhos estavam arregalados naquele momento, pois em momento algum eu havia comentado com a Rosa dos sonhos que eu havia tido estas últimas noites e de repente era exatamente isso que ela parecia descrever. Como ela poderia saber?
- De toda forma entre tantos símbolos, Ela geralmente pede que aqueles que se aproximam se dispam de suas vestes, de seus adornos, armas, amaduras, de suas posses, de qualquer coisa que os distingam entre os demais, para que lembrem que naqueles reinos eles não são reis ou rainhas, nobres, sacerdotes, ricos ou pobres, sábios ou ignorantes, somente o que há dentro deles, seus valores, medos, virtudes e imperfeições os acompanham, por isso até mesmo em outros contos pesavam seus corações e se este pesassem mais que uma pena eles estariam condenados. Compreende?
- Ela queria que todos fossem iguais, que não se julgassem pela aparência, mas sim pelo o que verdadeiramente eram, que não se escondessem por trás de seus títulos e adornos?
- Exatamente, pois é fácil ser forte atrás de armas, escudos, armaduras, é fácil parecer sábio atrás de um altar, cercado de fiéis, sob uma cúpula e roupas sacras, mas indefeso, na escuridão, despido, quem seria capaz de encarar a própria morte?
- Só os genialmente insanos como eu?
- Não é exatamente esta a resposta, mas você captou a idéia. Só aqueles que já se encararam despidos, nus, que já encararam a face de sua própria morte, que já se desafiaram, que já se confrontaram, são capazes de respeitar o outro em suas fraquezas, de encarar a própria fraqueza, a própria morte com dignidade e se entregar a ela, porque transformar-se nada mais é do que uma pequena morte, é despedir-se do velho e dar passagem para o novo, destruir para criar, criar para recriar, e novamente e quantas vezes for necessário. Qual é o segredo então?
- Confiança? Amor próprio?
- Isso, confiança em si mesmo, amor por si mesmo, mesmo que seja uma busca eterna, que nunca se esgote, por mais que se tenha medo do que irá acontecer, é não temer se entregar ao processo, a transformação, a pequena morte. É confiar nos umbrais, um coração com medo sempre pesará mais que uma pena, assim como um coração com culpa, mas um coração que está disposto a aprender, a transformar-se, sempre será julgado com compaixão e receberá aquilo que merece.
- Então eu devo apenas me entregar ao processo, a transformação e parar de me preocupar em quanto tempo irá demorar, o que irá acontecer, o que ganharei, o que perderei, apenas confiar e esperar que virá o melhor?
- Isso, sem pensar neste novo processo, não vieram coisas melhores quando você saiu da outra tempestade?
- Sim, as coisas mudaram muito, melhoraram muito, eu só não contava com uma nova.
- Os ciclos nunca terminam.
- Sinal de que outras virão...
- Pode ser que sim, pode ser que não, preocupe-se com o hoje. Existem várias formas de se viver uma tempestade que não esta.
- Então, tenho que me despir, descer as escadas, ir até ela e me entregar sem medo e apenas confiar, afinal já entreguei minha vida a Ela antes e entregá-la novamente será apenas um retorno, correto?
- Um retorno para casa...
- Casa, gosto desta palavra. Casa!





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