Nós caminhávamos pela rua silenciosamente, era noite, o vento batia suavemente por nossos rostos. Ela parecia mais misteriosa que o normal aquela noite, fiquei apenas a observá-la com o canto do olho, vendo como se movia, como fitava o nada, como parecia por vezes uma boneca de louça que se movia, mas aquele silêncio muitas vezes me angustiava, eu precisava falar alguma coisa, qualquer coisa, pois apenas observá-la era como ser levada ao fundo do mais profundo abismo.
- Eu conversei com algumas pessoas...
- E sobreviveu?
- Eu estou falando sério! Eu conversei com algumas pessoas que confio sobre como estou me sentindo, sobre o que andei pensando, sobre toda esta confusão mental, esta angústia...
- E elas não te olharam com cara de pena? De coitada? De eu sabia que ela não era normal? De “e quem se importa”?
- Não... elas, bem, foram bem compreensivas, me olharam como quem quer ajudar, como quem sabe que tem algo errado há algum tempo.
- Então você não morreu ao mostrar a eles que não é a Mulher Maravilha?
- Eu estou falando sério com você! Você já vai começar a me zoar?!
- Eu não estou te zoando, eu estou constatando uma verdade. Você construiu esta imagem de si mesma de que não precisa de ajuda, de que pode resolver tudo sozinha, de que agüenta, de que é forte o bastante, de que tem que ajudar todos e não precisa ser ajudada, praticamente a Mulher Maravilha, sem o avião invisível.
- Bah...
- Pense, não sinta raiva!
- Ta, eu vou tentar pensar.
- Todos nós criamos auto-imagens, todos nós criamos estas redomas, seja para nos proteger, para fugir de nós mesmos, para não enfrentar os nossos medos, para não deixarmos que os outros se aproximem, são imagens que projetamos para as pessoas a nossa volta e que a maioria delas acredita nesta imagem, exceto aqueles que realmente nos conhecem, que servem como o fosso do castelo, para manter os inimigos e eventualmente os amigos afastamos, ou para nos proteger de nós mesmos.
- Então, é como se eu tivesse criado uma auto-imagem de super-heroína, onde eu sou capaz de vencer qualquer desafio, enfrentar qualquer medo, agüentar qualquer rotina, dar conta de tudo enfim, sem precisar da ajuda dos outros e faço com que eles acreditem nisso?
- Exato!
- Mas e o que eu ganho com isso?
- Teoricamente você ganha confiança, porque assim você se sente no controle e você acha que sempre terá o controle, que não precisa de ajuda, que é completamente independente, mas no fundo o que você gostaria é que as pessoas te ajudassem sem que você tivesse que pedir a todo tempo.
  - Faz um certo sentido isso. É como se eu quisesse que eles percebessem as minhas necessidades e assim eu não precisasse expressá-las, bem cômodo.
- Não é verdade? Mas não se preocupe, todos tem suas máscaras, suas auto-imagens. Alguns são os eternamente fracassados, alguns são os galinhas, alguns são os arrogantes, alguns são os pseudo-inteligentes, alguns são os coitadinhos, alguns são os agressivos, alguns são os sem noção, alguns são os burros, muitas vezes até assumem mais de uma imagem para proteger ou resguardar aquilo que realmente sentem ou temem ou seus verdadeiros talentos ou até mesmo para arrancarem elogios. O ser humano por vezes é bem complexo.
- Então da mesma forma que criamos máscaras para agradarmos nossos pais, a pessoas amada, criamos máscaras para fugirmos de nós mesmos, como uma espécie de auto-boicote, como uma forma de preservação em outros casos ou de tirar alguma vantagem.
- Tudo depende de como surge esta máscara, do que ela quer ocultar ou ganhar.
- No meu caso é como se eu tivesse tanto medo do meu poder pessoal, que quando o assumi, tanto por medo de abusar deste poder como já havia visto antes, assim como poder medo de abusar deste poder e ficar mandando em todos a minha volta, eu virei uma tirana do meu próprio reinado, do meu próprio domínio, comigo e ao mesmo tempo, mantive o meu receio de pedir ajuda, de me mostrar frágil, pois parecia contraditório com o meu poder...
- Um pouco de orgulho também, não é mesmo?
- Um pouco...
- Você é uma boa pessoa, não se preocupe.
- E como você sabe?
- Você nunca me matou.
- Mas poderia.
- Disso eu duvido!
- E se eu achasse meu avião invisível?
- Você é mesmo incorrigível!





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