Strony

22 de setembro de 2011

Um Breve Reencontro

Mais uma vez adentrei aquele quarto e lá estava ela, sentada na cama, impecável, seu perfume inebriante logo me tomou os sentidos, me fazendo fechar os olhos por alguns segundos, me trazendo uma sensação de conforto, de casa, algo que não deveria sentir, mas inevitavelmente eu sentia. Aproximei-me a passos lentos e sentei-me ao seu lado sem dizer uma única palavra, temendo que se eu dissesse qualquer coisa ela desapareceria no ar como uma lembrança agridoce.

Ela então voltou os olhos na minha direção e deu um breve sorriso, colocando sua mão sobre a minha e afagando-a de maneira suave.

- Você é real..
- O que esperava, um dos seus contos de fada?
- Não, definitivamente creio que prefiro sua companhia neste momento.
- Isso é um tanto estranho de se ouvir, prefere estar comigo do que com seus encantos, suspiros, devaneios, rubores e viveram felizes para sempre?
- Bem, não me julgue tola por acreditar que tais coisas podem acontecer, mas nem sempre elas tomam o rumo que esperamos, desejamos, enfim.
- Compreendo, nestes momentos de desilusão, a sua Rosa se torna uma companhia mais agradável do que a realidade, justo.
- Não se menospreze, nós já passamos desta fase! Apenas que aqui, com você eu posso ser apenas eu mesma, posso expor qualquer sentimento, posso ficar quieta em meu mundo sem ter que dar quaisquer explicações, eu posso... e lá não, são posturas, comportamentos, etiquetas, tempos, cobranças, tudo precisa ser mantido num certo equilíbrio.
- Você pode ser o que quiser onde quiser e sabe disso.
- Não quando isso envolve outros sentimentos, outras pessoas, papéis que você exerce, eu sei que é cobrança pessoal, mas não me sinto a vontade.
- Então são limites que você auto-impõe e não uma impossibilidade real.
- Sim, Rosa, são limites auto-impostos. Não quero magoar mais ainda as pessoas e preciso de tempo para lidar com minhas próprias mágoas, que são várias.
- Na verdade então você está se protegendo, para não se machucar mais e não machucar mais os outros e se esconder aqui acaba sendo um caminho mais confortável.
- Me esconder aqui acabou sendo uma conseqüência de todos os fatos, que não são só estes.
- Pelo menos desta vez você compreende melhor as suas razões e motivações para estar comigo, fica mais fácil encontrar o caminho de volta.
- Mas isso não quer dizer que não tenha sentido falta do seu humor ácido ou de suas reflexões...
- Agora você está querendo me agradar?
- O que foi, comeu limão de café da manhã?
- Não...
- Está com ciúmes?
- Não...
- Hum, eu acho que está sim! Porque eu te abandonei estes últimos meses!
- E por que sentiria?
- Você sabe porque.
- Você está muito pretensiosa!
- Hahahaha, você ficou com ciúmes!
- Não seja tola!
- Rosa... não precisa ficar assim! Você é o vazio que me completa! De alguma forma me compreende, me faz enxergar coisas que não quero ver.
- E seu conto de fadas?
- Especial...
- Mais do que eu?
- São coisas completamente diferentes! Você é minha sombra, meu vazio, a parte de mim que me leva a refletir, que me leva ao profundo. O conto de fadas era algo mágico, que me fez crer em coisas mágicas, mas que não tem como ser neste tempo e espaço...
- Desistiu?
- Não há como macular algo com tanta dor, mágoa, decepção e sofrimento.
- Preservou.
- Tentei ao menos.
- Hum... isso deve doer, agora entendo porque está aqui comigo.
- O abismo pelo menos olha para você de volta.
- É. Quer que eu te olhe?
- Não sua tonta!

Começamos a dar risada juntas e era um riso sincero, adorava aquele humor ácido da Rosa. Ela sempre parecia saber onde cutucar, o que perguntar, até onde ir e compreender meus silêncios e necessidades. Mas ela era parte de mim, assim como eu parte dela, por isso já não me surpreendia tanto. Deitamos na cama e ficamos fitando o nada de mãos dadas, muitas vezes o silêncio era mais revelador do que um milhão de palavras. Era bom estar ali com ela, era bom tê-la por perto de alguma forma, mesmo não desejando que ela ficasse ali por muito tempo.

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