Strony

27 de fevereiro de 2011

15º Capítulo: Criadores

                 Eu entrei no quarto e ela ficou me observando silenciosamente, como quem tenta decifrar algo, eu me deitei ao seu lado e fiquei a observá-la de igual forma, acompanhando seu olhar curioso, misterioso, sempre tão distante, mas ao mesmo tempo indagador.
                - Parece-me bem mais calma hoje.
                - Isso é bem verdade...
                - E o que a fez mudar?
                - Eu mesma.
                - Hum, interessante.
                - Não adianta me revoltar contra as pessoas, não adianta colocar nela a culpa de minhas próprias dificuldades e medos. O fato é que eu estava me sentindo apavorada e não estava conseguindo enxergar uma solução, ao menos uma que eu pudesse realizar sozinha. Então, mais uma vez resolvi baixar a guarda, abrir os portões, experimentar me expor, pedir ajuda mais uma vez e quem sabe ser surpreendida.
                - E como foi?
                - Sabe Rosa, cada dia que passa eu acredito mais em algo, que o não já é uma certeza, o que pode acontecer é sermos surpreendidos com um sim, com o inesperado e se nos prendermos sempre ao nosso medo, a nossa certeza do não, nunca saberemos, nunca ouviremos respostas diferentes para nada em nossa vida.
                - Pelo visto então você foi surpreendida e ouviu várias respostas positivas.
                - Verdade, foi além de qualquer expectativa que eu pudesse criar, foi complicado no começo, mas depois foi reconfortante, libertador, gratificante e percebi que no fundo eu estava fugindo de mim, talvez eu tenha mais problemas para aceitar do que os outros, ou de expor, pedir ajuda, demonstrar fragilidade, mas ninguém pode ser simplesmente uma ilha em meio ao vasto oceano, porque até mesmo nas profundezas os continentes se tocam.
                - Não falar sobre algo, não o torna menos real, só torna o problema mais solitário e a postura dos outros a respeito no fim não é o mais importante, digo no sentido daqueles que reagem negativamente, pois o que importa são os que reagem positivamente, os demais não importam. Não podemos nos trancafiar por conta de nosso passado, de nossas dores, dos que nos fizeram sofrer, mas sim nos abrir para novas experiências e vivências, para encarar sempre o novo e o aprendizado atrás de cada evento.
                - O que eu percebi com tudo isso é que não importa o quão ruim seja a situação, o quão dolorida, ou difícil, a nossa postura é que torna as coisas mais simples ou mais complicadas. Se preferirmos simplesmente nos acomodar, ou dar atenção para os comentários ou posturas ruins, ou tão somente nos isolar e nos prender a dor, ficar lamentando o que aconteceu, focar somente nos problemas, nunca sairemos dali, ou demoraremos muito mais para sairmos daquela situação.
                - Quanto mais você alimenta o problema, a dor, a pena de si mesmo, mais força eles tem sobre você.
                - Exato! No entanto, se você busca apoio nas pessoas que ama, nas pessoas que convivem com você para ajudá-lo, para dar suporte, talvez não compartilhando suas angústias intimas, mas ao menos para tornar o seu dia a dia mais ameno, para ajudá-lo a vencer suas próprias barreiras, se você usa a energia do problema para fazer uma faxina mental, emocional, se usa todo o processo a seu favor e busca maneiras alternativas para vencer suas próprias dificuldades, certamente ao fim de todo processo você terá aprendido grandes lições e até mesmo ganhado novos amigos, pessoas que ganhem um espaço em sua vida, lições que numa próxima ocasião você já saberá lidar também...
                - Isso é o que chamamos de pró-atividade, é o manter o foco na solução, em como resolver objetivamente ou através de meios alternativos o problema, do que se preocupar com o problema em si, é buscar em si mesmo as respostas e não as perguntas.
                - Verdade... tenho tentado fazer isso buscar respostas, evitar tomar decisões drásticas ou radicais, decidir coisas ou me deixar levar por sentimentos, emoções acalorados, não deixar que minha cabeça busque monstros, algo para ser o alvo ou o responsável, pois não há responsável, é um processo interno, um processo meu e pelo qual devo passar e da melhor maneira possível.
                - Todos os momentos de grande decisão, de grande estress, de grande mudança, ou que estamos enfrentando questões internas importantes, ou grandes rompimentos, perdas, eles sempre nos levam a estas encruzilhadas e o caminho mais fácil é sempre buscar um responsável, um culpado, algo para tornar o alvo de nossa frustração, raiva, mágoa, enfim, porque assumir a nossa responsabilidade por nossa alegria, tristeza, perdas, ganhos, amizades, inimizades, é muito difícil. É muito difícil se olhar no espelho e dizer: “eu sou responsável por tudo de bom e de ruim que me acontece”.
                - Isso mesmo! Porque de uma maneira ou de outra, nós é que acabamos atraindo determinadas situações para nossas vidas, através de nossos atos, pensamentos, de nossa postura perante a vida, nossas escolhas, os relacionamentos que trazemos para nosso caminho, enfim o que vivemos é reflexo do que emanamos para o mundo e assumir isso em frente ao espelho, em frente as pessoas e mudar, assumir a postura de quem tem que transformar, buscar em si as respostas, as alternativas e enxergar onde você tem fugido, errado, se escondido, é bem complicado, mas necessário, assim como é respirar....
                - Ahhh... como amo quando você desperta! Cai e torna a se levantar!
                - Nada como um joelho machucado para nos fazer lembrar que a pedra estava lá, nós é que não prestamos atenção e não adianta culpá-la, ela é só uma pedra e nós é que cruzamos o seu caminho e não soubemos desviar e por isso caminho. E muitas vezes ainda a arremessamos longe e acabemos tropeçando nela novamente mais a frente.
                - Irônico não é mesmo?
                - Não, eu diria que é perfeito. Harmonicamente perfeito! É mais do que uma lei da causa e efeito, da atração, ação e reação, é a lei do equilíbrio, da necessidade de cuidarmos do nosso equilíbrio, pois só assim poderemos equilibrar o que está a nossa volta e o que é atraído para o nosso caminho.
                - Talvez porque o universo esteja dentro e fora de você.
                - Porque ele se espelha fora, como o criamos dentro de nós não é?
                - Micro e Macro.
                - Somos criatura e criadores.
                - Tecedores e Moldadores de sua própria realidade.
                - Que assim seja!

24 de fevereiro de 2011

14º Capítulo: O cair da máscara

                - Uma rosa para uma Rosa...
                - O que é isso?
                - Um presente oras...
                - Algum motivo em especial?
                - Na verdade não. Apenas uma lembrança, um agradecimento, um agrado, como desejar receber.
                - Obrigada.
                - Sabe Rosa, me sinto cansada, realmente cansada de toda esta roupagem. Dos momentos que pareço sorrir para não ter que dar explicações, para não preocupar, ou tão somente para manter aquele ar de normalidade porque não quero ficar pedindo socorro o todo tempo. Cansada das pessoas também, parece que se você demonstra um milímetro de força ou melhora elas já exigem de você o máximo, já supõe que está tudo bem, elas não sabem lidar com a fraqueza alheia, porque não sabem lidar com a própria.
                - É difícil encarar a verdade todos os dias, isso é para poucos...
                - Eu encaro, todos os dias! Meu medo de pessoas, de multidões, minha falta de concentração, que tem me feito atrasar minhas tarefas, estudos, eu encaro meu atual medo de tempestades, minhas angústias, minhas crises de desespero, de choro, de sono, de vontade de desaparecer, todos os dias eu enfrento todos estes monstros, só para não entregar os pontos, só para eu não, não sei exatamente para que... porque a maioria finge que não vê Rosa. É cada um no seu mundo, no seu problema e eu fazendo de tudo para me manter na superfície, se não fossem algumas pessoas maravilhosas, se não fosse você e nossos diálogos insanos, eu teria me afogado neste mar de insanidade! Isso não é certo...
                - Você está realmente chateada, sinal de que está reagindo...
                - Estou, estou chateada, estou brava, indignada, eu não queria me expor, não queria expor o problema, porque não quero que me olhem com cara de coitada ou que venham com aquele discurso patético de fraqueza, de preguiça, de bem...você conhece aquele discurso leviano, mas parece que se eu não pregar uma placa no meu peito dizendo o que está acontecendo, todos vão continuar achando que está tudo normal e vão continuar pedindo meu sangue numa bandeja. Ontem eu tive tanta vontade de sair correndo, de assinar uma carta e colocar naquela mesa para não voltar mais, de virar as costas, é tão insano Rosa... tão real...
                - Hoje você não está divagando, nem falando subjetivamente, você está se expondo, mostrando que é real.
                - Eu sou real, assim como você é real e faz parte de mim e isso não pode ser mudado. É uma realidade que não posso ignorar, não posso mudar, não posso lutar contra, posso colaborar para que se estabilize, apenas isso.
                - E como se sente com relação a tudo isso?
                - De verdade? Que eu preciso rever algumas prioridades. Três coisas eu já sei que são parte de mim e eu não quero perder ou mudar. Minha crença, minha fé... meu amor, meu relacionamento, que tem sido meu grande porto seguro... meus estudos, que levam minha cabeça pra longe, me fazem bem, me dão objetivo...
                - E o restante?
                - Eu pensei que fosse a base sabe, mas esta base está me ruindo e eu não sei o que eu vou fazer, eu só preciso ter calma para não fazer nenhuma besteira, que nestas tempestades é algo que eu sempre faço.
                - Eu bem sei...
                - Eu já descobri que eu não sou a Mulher Maravilha, eu preciso me abrir, preciso de apoio, de amigos, de pedir ajuda, de expor meus medos, meus problemas. Já descobri que por mais que eu tenha pessoas ao meu lado, esta tempestade é minha e tenho que vivê-la no meu ritmo, compreender o que ela tem a me ensinar, deixar de ser tão rígida comigo mesma, redescobrir meu lado doce, equilibrar os lados, os pesos, não me cobrar tanto. Descobri que tudo na vida é entrega, total e irrestrita, confiança, amor, que temos que confiar em nós mesmos, amar a nós mesmos, seguir nossos instintos, nosso coração e deixar que os ciclos se cumpram, que o que deve morrer morra, que o deve nascer nasça e assim tudo seja sempre renovado... que nossas máscaras por vezes nos protegem, mas muitas vezes nos aprisionam também, portanto sermos honestos com nós mesmos, com nossas virtudes e limitações é sempre o melhor caminho a seguir e que nós nunca somos imutáveis, estamos em constante mudança e aprendizado.
                - Deste jeito eu não precisarei te mostrar mais nada.
                - Boba! E agora eu vejo que guardar um problema, em partes para não me expor e não ter que ouvir coisas absurdas, por vezes também acaba sendo um problema, pois por desconhecimento dele, por uma falsa aura de normalidade, quando você não está agüentando o peso da normalidade, a cobrança por esta falsa imagem que você mesmo criou é mais cara do que as besteiras que você provavelmente virá a ouvir... eu não sei, sei que do jeito que está, as coisas estão fugindo do meu controle.
                - Existem riscos em qualquer uma delas meu bem...
                - Pelo menos estarei sendo honesta comigo mesma, quem não compreender, não poderei culpá-los por sua ignorância.
                - Compaixão é um dom de poucos.
                - Sanidade, é o que eu desejo manter.
                - Na pior das hipóteses você levanta a bandeira branca.
                - Estou quase pedindo por uma!
                - Quem sabe você não ganha uma!
                - Fraqueza?
                - Humanidade minha cara, humanidade!

19 de fevereiro de 2011

13º Capítulo: A Descida

                Eu me via descendo uma longa escada em espiral e a cada degrau a escuridão se tornava mais densa, até que ao longe eu via uma luz tremeluzente e um vulto que parecia segurá-la e sempre neste ponto eu acordava. Ergui da cama, o peito em chamas, olhei em volta, tudo parecia vazio, silencioso, mas ela estava lá imóvel perto da janela fitando o horizonte sob a luz da lua. Eu escorreguei da cama e me aproximei em silêncio e me pus a olhar na mesma direção, a lua estava belíssima no céu, enorme, com um aro dourado como uma coroa de realeza e majestade, amarela, pairando sob o céu estrelado, como se não se importasse em ser tão solitária.
                - Por que é tão difícil romper uma barreira que nós mesmos criamos Rosa? Quebrar um hábito, um vício, mudar algo em nós mesmos? Eu tenho tentado, mas parece ser em vão...
                - Você acreditou mesmo que seria fácil? Quanto tempo passou lapidando esta nova postura? Anos? E pensou que em semanas a romperia?
                - Bem, ao menos não pensei que seria tão difícil... creio que foi desde nosso último encontro, mais de cinco anos talvez. Eu levaria todo este tempo para desfazê-la?
                - Não, não teria que ser o mesmo tempo, mas achar que pelo simples fato de tomar consciência de um problema ele se desfaria como mágica também seria ingenuidade. Certas coisas estão arraigadas, infiltradas em comportamentos, medos, padrões e estas não são assim tão simples de mudar. Outras apenas saber desfaz o encanto, mas isso requer tempo, observação, disciplina.
                - Isso é um tanto frustrante...
                - Frustrante porque você quer que tudo acabe logo, a tempestade, a tristeza, a dor, os pensamentos, as reflexões, a solidão dentro de si mesma...
                - Sim, isso é verdade, embora eu goste de nossas conversas e das reflexões, é tudo bem complicado em alguns momentos.
                - Algumas escolhas, jornadas, caminhos que seguimos nunca serão fáceis, mas eles trazem recompensas, é como se ao abrimos aquelas portas, ao rompermos aqueles umbrais, vencermos as dores que o conhecimento nos traz, o auto-conhecimento, a responsabilidade, bem, nós somos capazes de ver além, de alcançar esferas mais sutis que outros não são capazes.
                - O fruto do conhecimento, tão cobiçado e ainda sou capaz de me entregar meus caminhos por tantas e tantas vezes, bem que eu sempre desconfiei que não era uma pessoa muito normal, a diferença é que agora tenho certeza que não sou nada normal.
                - Pessoas geniais nunca são normais...
                - E que isso me sirva de consolo! Eu sou genialmente insana!
                - Deixe-me contar uma história... existe um mito que conta que aqueles que estão prontos para a transformação, assim como para sua morte, tal qual para entregarem suas vidas para um propósito maior, eles devem fazer a grande descida. Para alguns ela é representada por uma caverna profunda e úmida como a descida para o ventre, para outros uma escada espiral como o cordão de nossa ancestralidade, para outros os portais do submundo, mundo inferior, enfim, chegando em tais portais há uma mulher a sua espera, velha ou nova, madura, mas sempre, sempre sábia, conhecedora dos mistérios da vida e da morte, capaz de cruzar tais portais em segurança e conduzir através deles qualquer alma viva ou morta. Ela tem muitos nomes, mas sempre exige um juramento, um sacrifício, uma prova, um teste para que cruzem os portais em direção aos seus domínios.
                Meus olhos estavam arregalados naquele momento, pois em momento algum eu havia comentado com a Rosa dos sonhos que eu havia tido estas últimas noites e de repente era exatamente isso que ela parecia descrever. Como ela poderia saber?
                - De toda forma entre tantos símbolos, Ela geralmente pede que aqueles que se aproximam se dispam de suas vestes, de seus adornos, armas, amaduras, de suas posses, de qualquer coisa que os distingam entre os demais, para que lembrem que naqueles reinos eles não são reis ou rainhas, nobres, sacerdotes, ricos ou pobres, sábios ou ignorantes, somente o que há dentro deles, seus valores, medos, virtudes e imperfeições os acompanham, por isso até mesmo em outros contos pesavam seus corações e se este pesassem mais que uma pena eles estariam condenados. Compreende?
                - Ela queria que todos fossem iguais, que não se julgassem pela aparência, mas sim pelo o que verdadeiramente eram, que não se escondessem por trás de seus títulos e adornos?
                - Exatamente, pois é fácil ser forte atrás de armas, escudos, armaduras, é fácil parecer sábio atrás de um altar, cercado de fiéis, sob uma cúpula e roupas sacras, mas indefeso, na escuridão, despido, quem seria capaz de encarar a própria morte?
                - Só os genialmente insanos como eu?
                - Não é exatamente esta a resposta, mas você captou a idéia. Só aqueles que já se encararam despidos, nus, que já encararam a face de sua própria morte, que já se desafiaram, que já se confrontaram, são capazes de respeitar o outro em suas fraquezas, de encarar a própria fraqueza, a própria morte com dignidade e se entregar a ela, porque transformar-se nada mais é do que uma pequena morte, é despedir-se do velho e dar passagem para o novo, destruir para criar, criar para recriar, e novamente e quantas vezes for necessário. Qual é o segredo então?
                - Confiança? Amor próprio?
                - Isso, confiança em si mesmo, amor por si mesmo, mesmo que seja uma busca eterna, que nunca se esgote, por mais que se tenha medo do que irá acontecer, é não temer se entregar ao processo, a transformação, a pequena morte. É confiar nos umbrais, um coração com medo sempre pesará mais que uma pena, assim como um coração com culpa, mas um coração que está disposto a aprender, a transformar-se, sempre será julgado com compaixão e receberá aquilo que merece.
                - Então eu devo apenas me entregar ao processo, a transformação e parar de me preocupar em quanto tempo irá demorar, o que irá acontecer, o que ganharei, o que perderei, apenas confiar e esperar que virá o melhor?
                - Isso, sem pensar neste novo processo, não vieram coisas melhores quando você saiu da outra tempestade?
                - Sim, as coisas mudaram muito, melhoraram muito, eu só não contava com uma nova.
                - Os ciclos nunca terminam.
                - Sinal de que outras virão...
                - Pode ser que sim, pode ser que não, preocupe-se com o hoje. Existem várias formas de se viver uma tempestade que não esta.
                - Então, tenho que me despir, descer as escadas, ir até ela e me entregar sem medo e apenas confiar, afinal já entreguei minha vida a Ela antes e entregá-la novamente será apenas um retorno, correto?
                - Um retorno para casa...
                - Casa, gosto desta palavra. Casa! 

15 de fevereiro de 2011

12º Capítulo: Tempestade

                - O que você está fazendo aí?
                 - Estou vivendo minha própria tempestade!
               - Desta forma vai acabar é doente, isso sim!
               - Não foi você que disse que eu deveria abandonar um pouco a razão? É o que estou fazendo!
               - Ficando embaixo desta tempestade?
               - Exato!
               Eu sentia a chuva encharcar o meu corpo, ele estremecia de frio, mas ao mesmo tempo era como se ela levasse embora parte dos meus medos, das minhas dores, lavasse minha alma. Por vezes os raios riscavam o céu, iluminando tudo em volta e era como se minha pele pudesse sentir toda aquela eletricidade suspensa, pois eu sentia todo o meu corpo arrepiar. A cada trovão eu sentia meu coração pulsar fortemente dentro do meu peito, retumbando, parecendo que iria explodir em seu interior. Meus pés descalços tocavam a terra e aquela sensação era boa, era como se eu pudesse sentir tudo em volta, me sentir ligada a tudo que existia.
               Eu olhei para ela e tornei a entrar, tremendo de frio, não sabia a quanto tempo estava ali e fiquei a encarando por alguns instantes, seus olhos não se desviaram dos meus, assim como ela não ousara me questionar nada, apenas me observava ali parada a sua frente, escorrendo, completamente ensopada.
               - Rosa...
               - Hum...
               - Você acha que é mesmo possível mudar? Voltar atrás?
               - Como assim?
               - Eu sinto como se eu estivesse engessada, endurecida, presa. Como se tivesse passado tanto tempo agindo de uma certa forma, que agora agir de outra maneira tem sido bem difícil, quando me dou conta já estou agindo da maneira que me auto-determinei.
               - É como um vício, no começo é sempre difícil, porque existe o costume, o hábito, o comportamento viciado, o impulso de agir sempre igual, porém com a observação, com a disciplina você pode ir corrigindo este comportamento, moldando...
               - Eu achei que seria mais fácil...
               - Você já deveria saber que nestes processos nada é fácil.
               - Creio que sim, nunca foi..
               - Então, por que desta vez haveria de ser?
               - Pensei que com toda a bagagem, conhecimento, desta vez seria mais fácil...
               - Nenhuma forja é fácil, mudanças nunca são fáceis, transformações, renascimentos, eles requerem pequenas mortes, entrega, são processos viscerais.
               - De fato.
               - O que foi?
               - Creio que neste processo nunca tinha me sentido tão só.
               - Por que?
               - É como se eu gritasse e ninguém me ouvisse, se eu falasse e ninguém entendesse, se eu tentasse correr e meus pés estivessem fincados, como se eu pedisse ajuda e as pessoas só ouvissem os ecos de suas próprias vozes. Então percebi, lembrei de nossa conversa sobre tempestade, do processo solitário, interno, pessoal e foi como esvaziar-se em mim.
                 - Não fique assim, toda tempestade tem seu começo, seu meio e seu fim...
               - Mas nós nunca sabemos quanto tempo irá durar.
               - Nunca é para sempre.
               - Mas eu não sei o que irá sobrar quando ela acabar, o que vai estar lá quando ela passar, o que vai permanecer, qual será sua intensidade desta vez, ela nunca deixa tudo igual...
               - Você não deve temer isso também, o que ela levar embora era necessário.
               - E se eu não estiver preparada? E se eu não quiser? Se...
               - Cada um vive sua própria tempestade! Não adianta querer prever.
               - Mas e se ela levar tudo?
               - Ela só leva aquilo que não tem raízes fortes, aquilo que não se sustenta.
               - E como eu poderia saber?
               - Não tem como saber, agora não, até porque aqui dentro dela é tudo muito diferente.            Você só poderá ver claramente quando ela passar, só quando estiver fora dela poderá enxergar as coisas verdadeiras, os laços verdadeiros, compreender o que aconteceu, viveu, sentiu e seguir..
               - E o que acontece durante?
               - Durante é tudo incerto, você deve tomar cuidado, pois enquanto fora dela tudo é claro, certo, navegar é seguro, se tem segurança para sair do curso e voltar para ele, consertar erros. Durante ela não, pois qualquer erro parece grandioso, monstruoso, pode significar um choque nas rochas, pois as águas são turbulentas e furiosas, um leve desvio e tudo pode estar perdido, por isso levar seu próprio barco é tão importante, pois só você sabe para onde conduzi-lo e como. Não seja tão exigente consigo mesma, tão pouco com os outros.
               - Entendo...
               - Deixe que cada um siga seu curso, sua intensidade, sua verdade, cada um colhe seus próprios ventos e direções minha flor... viva a sua, sem culpa, nem exija que os outros entendam ou compreendam. Esta é uma jornada solitária, ninguém encontra seu caminho no outro.
                - Mas...
               Ela levou seus dedos aos meus lábios e os silenciou.
               - Sem mais, sem pensar, sem criar fantasmas. Vá tomar um banho quente, esqueça todo o resto. Não é momento de decisões, é momento de viver, sentir e seguir, decisões só quando o sol se abrir. Combinado?
               - Tubo bem...
               - Vá...
               Eu sai dali desnorteada, sem saber exatamente o que pensar, mas ela disse que não era para pensar, então tentei não pensar, simplesmente fui tomar o meu banho e aquecer o meu corpo e deixar que minha tempestade me levasse para onde quer que eu devesse chegar.

11 de fevereiro de 2011

11º Capítulo: Totalidade


                  - O que foi? Você me parecia tão mais animada estes dias?
                - Não sei Rosa, sabe quando parece que você está andando sob um campo minado, sob areia movediça? Num primeiro momento parece confortável, mas ao mesmo tempo incerto, instável, como se a qualquer momento a terra pudesse abrir sob os seus pés.
                - Entendo.
                - E o que acha que pode ter desencadeado isso?
                - De alguma forma, com todas estas reflexões, eu percebi que preciso mudar certas coisas em minha vida, contudo hoje não tenho como mudar certas coisas, apenas detalhes, mas o quadro permanece o mesmo. Para haver realmente uma mudança, é como se eu tivesse que repensar em tudo, começar do zero, repintar a tela ou forçar um pouco mais, para então começar a minha obra.
                - Humm, qual é a dúvida nisso tudo?
                - Será que eu agüento Rosa? Quanto mais será que eu agüento? Eu tinha tanta certeza de minha fortaleza, de meus super poderes, da minha invencibilidade e agora não tenho mais, porém que estratégia usar? O que fazer? Era tudo tão claro, tão objetivo! Agora parece-me que tudo foge do controle, tudo parece-me cada vez mais distante!
                - Mudanças nunca são fáceis, ainda mais quando elas começam dentro, quando a tempestade ocorre dentro e fora de nós.
                - Me sinto sendo jogada para fora do barco neste momento, eu soube pedir ajuda e a recebi, agora estamos todos numa jangada, mas a tempestade é tão espessa, tão forte, que não sabemos para onde ir, ao mesmo tempo que não sabemos quanto tempo vamos durar ali.
                - Que tal apenas confiar?
                - Em algo maior? Em mim? No apoio que venho recebendo?
                - Em tudo isso, na sua própria tempestade, ela não veio em vão. Ela veio lavar, purificar, te mostrar coisas, te trazer ensinamentos, mas você está com pressa de resolver, quando na verdade talvez deva simplesmente sentir, se entregar a ela, viver. Emoção lembra? Menos razão!
                - Mas como me deixar levar pela tempestade, pelas emoções, se são elas que me desesperam, que me fazem agir como um bicho acuado? Se elas me confundem os sentidos?
                - Pare! Feche seus olhos!
                Eu podia sentir aquele desespero me subindo as pernas, a respiração ofegando, o peito sendo esmagado por mais uma crise de ansiedade, era como se o mundo me esmagasse, tentasse me sufocar, eu me sentia insignificante, queria correr, mas não me mexia, queria gritar, mas minha voz não saia, queria chorar, mas meus olhos secaram, queria... e estava ali congelada, com medo, em pânico de nada e ao mesmo tempo de tudo.
                - Você já viu algum animal perdido na floresta?
                - O que?
                - Sim ou não?
                - Ahn... não...
                - Já viu algum animal perder o rumo de caso porque chove?
                - Não...
                - Já viu algum animal não ter reação diante do maior perigo?
                - Acho que não...
                - Não esqueça desta parte em você, esta parte animal, selvagem.
                - Use seus instintos. Um animal sempre tenta fugir, correr, ou ameaçar, mesmo que não tenha a menor chance, mesmo que seja seu último grito, ele sempre volta para sua casa quando aprende a reconhecer os sinais, ele sempre encontra seu bando. Você está esquecendo da sua essência.
                - Não importa onde você esteja, lembre-se disso, não use só sua mente, a razão, vocês se vangloriam tanto por sua racionalidade, mas ela não é tudo, é apenas uma parte do que são, vocês também são animais, são emoção, são espírito, são sagrado e precisam se conectar com estas partes, ouvi-las e confiar nelas, pois elas também podem te guiar quando a razão não está conseguindo achar respostas, quando ela não está conseguindo ter o controle.
                Eu respirei profundamente e tentei encontrar esta parte em mim, tentei encontrar alguma parte em mim que não precisasse da minha razão, de ordem, que apenas agisse, sentisse, intuísse, reagisse.
                - Se a razão foi tirada do poder, é porque era necessário, porque ela estava dominando as outras partes e tirando o equilíbrio, tornando-a árida. A tempestade veio para purificar, para fazê-la lembrar... então lembre-se...
                De repente eu me vi correndo por todos os lugares, matas, desertos, praias, montanhas, sob a lua e finalmente a tempestade me alcançou, eram raios, trovões, ela balançava meus cabelos de forma selvagem, como selvagem eu era naquele momento e de repente um raio me acertou, em cheio e sem explicação nenhuma eu uivei, longamente, intensamente.
                Quando abri os olhos eu estava mais calma, sentia uma eletricidade percorrendo meu corpo, respirei profundamente e olhei para a Rosa.
                - Então que venha a minha tempestade...
                - Nunca se esqueça de quem você...
                - Não vou esquecer....
                - Não deixe que a razão controle a sua totalidade.
                - Mais uma vez, muito obrigada!

9 de fevereiro de 2011

10º Capítulo: Humanos e Rosas


         Hoje certa melancolia se abateu sobre mim, apesar dos outros dias eu e a Rosa termos tido conversas fantásticas e isso tudo ter animado um pouco os meus ânimos, me feito enxergar além da escuridão. Talvez sejam os reflexos refletidos no espelho, os medos escondidos em cada conquista, não o medo do desconhecido, mas sim o medo de que o conhecido retorne, que antigas batalhas vencidas, talvez não tenham sido de fato vencidas, mas tal qual as máscaras que nos auto-impomos, tenham sido uma auto-ilusão e de repente das sombras elas ressurjam, mais fortes do que nunca e voltem a nos assombrar.
         As horas passavam devagar, pareciam se arrastar na verdade, intermináveis, com um tic-tac lento, arrastando, o ventilador ligado não afastava o calor, o café não me mantinha desperta, o coração parecia apertado dentro do peito e o pensamento constantemente divagava, tudo parecia moroso, incômodo e as memórias ficam a rodopiar, indo e vindo sem parar, como se alguém tivesse pego milhões de fitas do passado e cortado alguns pedaços e emendado várias juntas e assim elas ficavam passando de maneira aleatória, contudo a maior parte das vezes aqueles momentos que me causavam arrepios e que eu queria manter como que esquecidos, melhor resolvidos.
         Este era um daqueles dias que certamente eu desejava estar em qualquer outro lugar, uma praia, uma piscina, um iglu no meio do nada, bem não é para tanto, até porque eu não gosto tanto de frio. Um lugar de temperatura amena, de bela paisagem natural, com nenhum barulho de cidade, apenas de vento, pássaros, água e aquele cheiro de grama cortada, flores e frutas no ar, nada mais, mais ninguém, apenas eu, uma rede, um livro, uma tela, muitas cores, uma brisa constante e tempo para nada, para fechar os olhos e apenas vazio, silêncio, paz, tranqüilidade. Tudo que tenho desejado estes dias é este sentimento, tranqüilidade, não esta porção de sentimentos confusos, intensos, reflexivos, elucidativos, mas ao mesmo tempo exaustivos, emocionalmente exaustivos.
         Eu bem sei que certas cicatrizes nunca se fecham completamente, dependendo da época do ano elas tornam a abrir, a causar certa dor, são acionadas com palavras ou gestos, ou cenas, ou tão somente lembranças, mas vivenciar um momento que torne-as palpável é assustador, é como dizer “o pesadelo voltou!”. Eu escolhi sair dele e não darei poder a outra pessoa, por mais que eu ame esta pessoa, para que ele volte, não mais. Toda relação envolve duas pessoas, toda dependência, relacionamento vicioso, prejudicial, dolorido, precisa da colaboração de ambas as partes, da vítima e do tirano, do vilão e do herói, do dependente e da do objeto da dependência. Eu quebrei o meu elo e o ciclo se desfez e de repente me vi querendo reatar este elo? Nem pensar!
         Se tem algo que aprendi é que se tem cor de sushi, tem gosto de sushi e textura de sushi, não se engane é sushi! Não adianta querer arranjar desculpas para si mesma, que desta vez será diferente, que você tem a situação sob controle, que você já aprendeu a lição, quando você aprende sobre um padrão, quando reconhecê-lo, evite-o, porque se cair nas suas graças, ele vai te enrolar novamente e novamente e novamente!
         A única cura para um vício é abandoná-lo, não existe: mas é só um pouquinho! Acho que parte desta melancolia é por ver este monstro, parte por saber que terei que ser dura caso ele tente ressurgir, parte porque amo a pessoa por traz dele e neste caso aqui só posso eliminar o padrão e não simplesmente descartar a pessoa, também estou melancólica por não ter contato a verdade a ela, mesmo pensando no seu bem, no bem de pessoas que amo mais do que tudo neste mundo, ainda sim é uma omissão e talvez eles não compreendam o meu silêncio. Escolhas...
         Por que para as rosas tudo parece tão mais simples? Por que mesmo quando tristes elas permanecem rubras e perfumadas? Capazes de se defenderem com seus espinhos? No fundo talvez esta seja a beleza da humanidade ou talvez esta seja simplesmente nossa sina, nossa força, ao mesmo tempo que fragilidade, quiçá o que define humanidade...

8 de fevereiro de 2011

9º Capítulo: Máscaras

             Nós caminhávamos pela rua silenciosamente, era noite, o vento batia suavemente por nossos rostos. Ela parecia mais misteriosa que o normal aquela noite, fiquei apenas a observá-la com o canto do olho, vendo como se movia, como fitava o nada, como parecia por vezes uma boneca de louça que se movia, mas aquele silêncio muitas vezes me angustiava, eu precisava falar alguma coisa, qualquer coisa, pois apenas observá-la era como ser levada ao fundo do mais profundo abismo.
                - Eu conversei com algumas pessoas...
                - E sobreviveu?
               - Eu estou falando sério! Eu conversei com algumas pessoas que confio sobre como estou me sentindo, sobre o que andei pensando, sobre toda esta confusão mental, esta angústia...
                - E elas não te olharam com cara de pena? De coitada? De eu sabia que ela não era normal? De “e quem se importa”?
                - Não... elas, bem, foram bem compreensivas, me olharam como quem quer ajudar, como quem sabe que tem algo errado há algum tempo.
                - Então você não morreu ao mostrar a eles que não é a Mulher Maravilha?
                - Eu estou falando sério com você! Você já vai começar a me zoar?!
              - Eu não estou te zoando, eu estou constatando uma verdade. Você construiu esta imagem de si mesma de que não precisa de ajuda, de que pode resolver tudo sozinha, de que agüenta, de que é forte o bastante, de que tem que ajudar todos e não precisa ser ajudada, praticamente a Mulher Maravilha, sem o avião invisível.
                - Bah...
                - Pense, não sinta raiva!
                - Ta, eu vou tentar pensar.
              - Todos nós criamos auto-imagens, todos nós criamos estas redomas, seja para nos proteger, para fugir de nós mesmos, para não enfrentar os nossos medos, para não deixarmos que os outros se aproximem, são imagens que projetamos para as pessoas a nossa volta e que a maioria delas acredita nesta imagem, exceto aqueles que realmente nos conhecem, que servem como o fosso do castelo, para manter os inimigos e eventualmente os amigos afastamos, ou para nos proteger de nós mesmos.
               - Então, é como se eu tivesse criado uma auto-imagem de super-heroína, onde eu sou capaz de vencer qualquer desafio, enfrentar qualquer medo, agüentar qualquer rotina, dar conta de tudo enfim, sem precisar da ajuda dos outros e faço com que eles acreditem nisso?
                - Exato!
                - Mas e o que eu ganho com isso?
               - Teoricamente você ganha confiança, porque assim você se sente no controle e você acha que sempre terá o controle, que não precisa de ajuda, que é completamente independente, mas no fundo o que você gostaria é que as pessoas te ajudassem sem que você tivesse que pedir a todo tempo.
            - Faz um certo sentido isso. É como se eu quisesse que eles percebessem as minhas necessidades e assim eu não precisasse expressá-las, bem cômodo.
                - Não é verdade? Mas não se preocupe, todos tem suas máscaras, suas auto-imagens. Alguns são os eternamente fracassados, alguns são os galinhas, alguns são os arrogantes, alguns são os pseudo-inteligentes, alguns são os coitadinhos, alguns são os agressivos, alguns são os sem noção, alguns são os burros, muitas vezes até assumem mais de uma imagem para proteger ou resguardar aquilo que realmente sentem ou temem ou seus verdadeiros talentos ou até mesmo para arrancarem elogios. O ser humano por vezes é bem complexo.
                - Então da mesma forma que criamos máscaras para agradarmos nossos pais, a pessoas amada, criamos máscaras para fugirmos de nós mesmos, como uma espécie de auto-boicote, como uma forma de preservação em outros casos ou de tirar alguma vantagem.
              - Tudo depende de como surge esta máscara, do que ela quer ocultar ou ganhar.

                - No meu caso é como se eu tivesse tanto medo do meu poder pessoal, que quando o assumi, tanto por medo de abusar deste poder como já havia visto antes, assim como poder medo de abusar deste poder e ficar mandando em todos a minha volta, eu virei uma tirana do meu próprio reinado, do meu próprio domínio, comigo e ao mesmo tempo, mantive o meu receio de pedir ajuda, de me mostrar frágil, pois parecia contraditório com o meu poder...
                - Um pouco de orgulho também, não é mesmo?
                - Um pouco...
                - Você é uma boa pessoa, não se preocupe.
                - E como você sabe?
                - Você nunca me matou.
                - Mas poderia.
                - Disso eu duvido!
                - E se eu achasse meu avião invisível?
                - Você é mesmo incorrigível!

7 de fevereiro de 2011

8º Capítulo: Ciclos

             Eu andei pelo quarto a passos lentos, quase que arrastados, rodopiando pra lá e para cá, olhando-a com o canto dos olhos, ainda sentindo-me envergonhada por ter parecido uma criança birrenta em nossa última conversa, por fim sentei-me ao seu lado. Ela fingia não me observa, mas eu sabia que ela me acompanhava discretamente com aqueles olhos vítreos.
                - Rosa... – tais palavras não passaram de um murmúrio.
                - Hum.
                - Você disse que nós não perdemos aquelas partes de nós que deixamos de lado, que elas ficam apenas escondidas, guardadas, latentes.
                - Pense assim, é como a lua, todas as noites você vê a mesma face dela não é verdade? Mas você sabe que ela tem outra face, que está sempre oculta, contudo ela existe, tanto quanto aquela que está visível todas as noites.
                - Então é como simplesmente nós ocultássemos aquela parte e deixamos a mostra apenas a outra parte, da mesma forma que antes deixamos esta parte agora visível escondida e a outra a mostra?
                - Exato. É como a antiga sala dos tecidos pretos, só que ao invés de você entrar na sala e perceber que haviam coisas escondidas e simplesmente puxar os véus e tentar trazer o equilíbrio entre tudo que havia ali, você colocou os véus sobre o que estava exposto e expôs o que antes estava escondido, vocês inverteu os papéis.
                - Eu pensava que estava resolvendo o problema, mas na verdade eu estava apenas invertendo os pólos, partindo de um extremo para o outro.
                - Isso. Ao invés de equilibrar tudo, você apenas trocou de posição no tabuleiro, o que por um lado foi bom, pois você aprendeu outros dons, outras características que antes julgava não ter, conquistou novos horizontes e passou a ter novas perspectivas a respeito de si mesma, conheceu um lado de si mesma que até então era oculto, inexplorado.
                - Por outro lado apaguei todo aquele lado luminoso que eu já conhecia.
                - Aí entra uma importante lição, quando estamos explorando o nosso universo não adianta apenas inverter os pólos, virar 180º pois você estará ocultando o que conhece e viverá intensamente o desconhecido, será como começar do zero, se ao invés disso você tivesse virado apenas 90º de cada vez, você sempre estaria trabalhando com uma porção desconhecida e uma porção conhecida, você estaria sempre em equilíbrio, sempre teria onde se apoiar e o que explorar, ganhando novas cartas e tendo cartas para jogar.
                - É como se eu tivesse mergulhado na porção escura da lua e tivesse simplesmente tentado desvendar tudo de uma vez e no meio daquela confusão eu até consegui aprender várias coisas, mas me faltou luz, aquele sentimento de casa, de conhecido, aquele porto-seguro que traz segurança, centramento, conforto.
                - Você apenas confundiu, na sua ânsia de conhecer, de mostrar para o”Cobrador” que você era capaz de mudar, de ser responsável, fazer, organizar, estabelecer metas e alcançá-las, você colocou tanto foco nisso que só enxergou isso. Bom que você conquistou isso, ruim porque você se perdeu em sua busca, mas agora é recomeçar, nunca é o fim...
                - Toda vez que nos encontramos é sempre o abismo antes do salto não é mesmo?
                - Isso! Mas agora ciente dos ciclos, ciente que não adianta simplesmente reverter os papéis, mudar de um extremo para o outro. Aprenda com a lua, tudo dentro de nós fala dela, dos ciclos, de respeitar o nosso movimento interno.
                Ela então pegou uma folha de papel e começou a desenhar com seu batom vermelho em nosso espelho as fases da lua, os seus cinco momentos no céu, crescente, cheia, minguante, negra e nova. E então continuou.
                - Primeiro estamos juvenis, alegres, soltas, falantes, risonhas.. então estamos plenas, responsáveis, nutridoras, atentas, protetoras, amorosas... então mais introspectivas, pensativas, refletindo sobre a vida, amores, futuro, melosas ou tristonhas... então estamos imersas em nós mesmas, silenciosas, escondidas em nosso próprio universo, misteriosas... de repente ressurgimos renovadas, selvagens, mulheres, poderosas e tudo isso pode acontecer num único dia, ou num mês, ou no decorrer do ano. Temos nossos ciclos e devemos respeitá-los.
                - Acredito que eu não respeitei os meus ciclos, me prendi em apenas alguns deles, numa tentativa de me impor aquilo que eu não conhecia e que julgava que precisava conquistar e deixei aprisionados os demais, até o momento que tudo ruiu, eles não fluem uns sem os outros, um precisa do outro para que o ciclo perdure.
                Ela então me empurrou na cama e fez um sinal para que eu não resistisse. Eu fiquei apenas olhando com uma cara de curiosidade, sem entender o que estava acontecendo. Ela então puxou minha camiseta e com seu batom começou a pintar as luas em meu ventre e então ficou olhando com um sorriso de satisfação.
                - Pronto, agora você tem o poder dos ciclos de volta!
                Eu fiquei olhando para ela admirada apenas. Aqueles eram os momentos que davam significado ao que era mágico daquela relação confusa e por vezes tão dolorosa, as coisas que ela me arrancava e a dor das verdades que ela me trazia, por vezes eram dissolvidas em momentos como aqueles, por isso ela era a minha Rosa, meu Minotauro, pois por vezes me presenteava com seu inebriante perfume e seu infindável conhecimento! Afinal, como deve ser passar uma vida inteira mergulhada em si mesmo?

5 de fevereiro de 2011

7º Capítulo: Jogo

                - Eu inventei um nome para você...
                Ela me olhou com certo ar de curiosidade, tentando imaginar que nome seria este. Se aproximou de mim e ficou esperando que eu dissesse o nome.
                - Rosa.
                Eu disse suavemente, como que esperando sua reação, se sorriria, se não se importaria, afinal para mim aquele nome tinha significados diversos, era doce, mas ao mesmo tempo selvagem, trazia um aroma inebriante, mas ao mesmo tempo espinhos ferozes e cicatrizes marcantes, era um misto de beleza e dor, de doçura e fel, de amor e ódio, sentimentos complexos, como complexa era a nossa relação. Ela então abriu um leve sorriso, sutil como tudo que vinha dela.
                - Rosa, gostei. Isso quer dizer que me vê por completo, tanto as coisas boas, quanto as ruins, ainda sim é capaz de me admirar.
                Por alguns instantes não soube exatamente o que dizer, pois não tinha visto desta forma, havia pensando sim nas coisas boas e nas ruins, mas não que no fim das contas preferia chamá-la de rosa e não de espinho. Talvez porque enquanto vive-se um espinho só pensemos nele, na dor que ele nos causa, mas quando nós o tiramos, só pensamos no alívio e depois no que aprendemos, nas lições e por vezes as lições são mais valiosas do que o espinho em si, não que sejamos tolos a ponto de ficar colhendo espinhos por aí!
                - Como acha que podemos recuperar algo que perdemos?
                Eu disse de súbito, lembrando de minhas reflexões da noite anterior.
                - Algo que é seu ou algo que diz respeito a alguém?
                - Não, meu mesmo, coisas que eu tinha, que eu fazia, sabia, que eu talvez exagerasse e de repente tentando colocar ordem na casa, acabei colocando ordem demais e a casa se tornou árida, cheia de retas, regras, planos...
                - Como alguém que era livre e selvagem, que achou que devia simplesmente se tornar ordeira, masculina, dura consigo mesma, volta a ser ela mesma?
                Aquelas palavras foram como um soco no estômago, tanto que eu precisei sentar para compreender o que eu estava ouvindo. Não que eu me vestisse como homem, ou parecesse um, mas toda aquele ordenamento, rigidez, tirania, metodismo, era tudo muito de Saturno, de Ares, aquele meu ar irresponsável de Diana, que pisava na grama, que andava descalça, que tomava banho de chuva, que se permitia ser livre, que vivia esta liberdade, que se permitia sentir prazer, correr, rir, até mesmo se embriagar pelas madrugas, tudo isso era controlado e não era por minha mãe como antigamente, eu não tinha vilão, algoz, a quem culpar, era eu.
                - É tão difícil quebrar as próprias regras assim? Ou você guarda tanta culpa assim por tê-las quebrado no passado?
                - Eu acho... acho que um pouco dos dois... a gente cresce e vem as responsabilidades... a casa... as contas... e o retorno de...
                - Acho que você levou tudo a sério demais, acho que você vem se pressionando demais. Ou espera achar o Avião Invisível?
                Ela estava tirando sarro da minha cara! Eu não disse que ela era irritante! Irritante! Detestável! Eu sofrendo! Me acabando! Dias aqui presa neste, neste buraco, neste inferno, nesta dimensão, sei lá que porcaria é essa e ela ainda tira sarro da minha cara!
                - Ahh, você não começa!
                - Começar com o que? Vai me dizer que você não é a Mulher Maravilha então? Por que achar que pode manter tudo sob o controle o tempo todo, só pode ser alguém que se acha superior ou suicida não é mesmo? Que pode resolver tudo sozinha? Sexo forte né? Mulher agüenta tudo?
                - Eu disse para você não começar! Eu não disse que eu sou a Mulher Maravilha, nem que sou melhor do que ninguém, nem que mulheres são melhores, mas é que as vezes parece que eles moram num mundo paralelo e a gente não tem paciência de ficar esperando eles prestarem  atenção em alguma coisa, então a gente vai lá e resolve. E eu não agüento tudo e não tento resolver tudo sozinha, eu peço ajuda quando preciso.
                - Ah é, pra quem? Com quem você tem conversado?
                - Ahh... com minhas amigas.
                - Que amigas, diga os nomes.
                - Você não conhece.
                - Nomes.
                - Ninguém, é tudo muito corrido e elas sempre tem problemas e eu tento ajudar e aí... fica assim.
                - Mulher Maravilha.
                - Vá se ferrar.
                - Você é humana lembra?
                - Tenho tentado esquecer...
                - E isso vai ajudar em que?
                - Não sei..
                - Agora parece uma criança birrenta.
                - Eu não sei, parece um monte de bobagem, as mesmas reclamações pelas mesmas coisas, ninguém quer ficar ouvindo as mesmas coisas sempre e sei lá, não tenho como mudar a situação agora, do que vai adiantar ficar reclamando?
                - Desabafar talvez?
                - Ser homem é tão mais simples....
                Me joguei na cama, com a cabeça no travesseiro, me sentia derrotada neste embate, de fato eu não era muito de pedir ajuda para as pessoas a minha volta, de desabafar, de xingar minha rotina estafante ou sei lá, resmungar porque alguém me olhou feio, ou as vezes quando tentava fazer isso não ganhava muita atenção, era o suficiente para assumir a postura da menina birrenta e não falar mais nada por meses. Em que loucura eu tinha me colocado? Eu não diria a ela que ela tinha razão e isso estava resolvido.
                - Você gosta de ser mulher, de ser complicada, dos conflitos, da beleza, da força, da selvageria, da liberdade, deste jeito menina, jovem, mulher de ser...
                - Você tem razão.... sobre tudo...
                Perdi. Ou ganhei?

3 de fevereiro de 2011

6º Capítulo: Rosa

                Creio que perdi a noção de tempo e espaço, que tenho passado tempo demais imersa em meu silêncio, em meu vazio, neste meu mundo submerso, perdida em meus pensamentos. É como se a realidade não pudesse me tocar ou fosse algo muito distante, intocável, como se eu estivesse entorpecida, ou exausta demais para tentar entender o que se passa lá fora, como se eu visse apenas flashes e então tornasse a fechar os olhos e mergulhasse novamente na escuridão de mim mesma.
                As vezes sinto que não há nada mais, apenas eu e esta jornada solitária, este grande deserto. Por vezes acho que moro num planeta distante, cercada por um mar de estrelas, apenas eu e minha rosa, como o Pequeno Príncipe em seu pequeno planeta, mas como se de súbito todas as estrelas tivesse perdido o brilho e a bela rosa despetalado e tudo ali é apenas o vazio, a solidão e a lembrança daquelas cores, daquele perfume, daquele amor. De súbito tudo volta a ter seu brilho, mesmo que esmaecido, como um filme antigo e fico assistindo admirada, mas torna a se apagar, como se um vaga-lume tilintasse em minha cabeça sem parar.
                É engraçada a vida. Num momento nós estamos no mundo e na nossa eterna insatisfação com tudo, começamos a criar roupagens, máscaras, uma para os amigos, para sermos aceitos, uma para o trabalho, uma para os amores, uma para as baladas, uma para cada área, numa tentativa de impressionar, ou de esconder esta ou aquela faceta de nós mesmos, e assim começamos a criar coisas plásticas para o nosso mundo, adornos, fantasias, gestos, palavras, de repente, nem nós mesmos sabemos quem nós somos. Nos desfizemos em tantos pedaços, em tantas roupagens, em tantas máscaras, em tantas mentiras, que não sabemos mais, estamos fragmentados pelo mundo.
                Buscamos tantas coisas em nossa vida, sonhos, metas, mas esquecemos de buscar a nós mesmos, o que gostamos, o que nos faz bem, quem somos, quais são nossos pontos fortes, os pontos fracos, o que nos faz feliz, o que nos motiva. Ao invés disso, passamos pela vida correndo sempre sem tempo para nós mesmos, ou quando temos este tempo estamos muito cansados, ou preferimos não mexer nisso e assim vamos apenas colocando panos negros sobre o que nos desagrada, enfeitando aquilo que é mais agradável, criando máscaras para disfarçar certas coisas e de repente, nada mais faz sentido dentro de nós. Nos tornamos dependentes de nossas máscaras, de nossas mentiras, de nossas próprias desculpas e ainda nos perguntamos por que não somos realmente felizes ou vivemos aquela felicidade de “faz de conta”.
                Lembro-me da primeira vez que me encontrei com a Rosa, hoje vou chamá-la assim, minha vida estava de pernas para o ar, dentro e fora, quando ela me levou para dentro do meu mundo e pude olhar todos aqueles enfeites e máscaras e panos pretos, toda aquela confusão, primeiro eu tentei negar, mas depois eu tive que encarar a verdade, eu estava vivendo uma mentira e por isso ela estava ali, para me mostrar algo difícil, mas que eu precisava encarar. Junto com ela eu comecei a quebrar algumas máscaras, a compreender algumas feridas, a me livrar de alguns enfeites, mas é claro que nem tudo é tão claro na prática quanto é na teoria, algumas coisas não saíram como o planejado, mas ali foi o início de uma longa jornada para dentro e posso dizer que eu parei de negligenciar este mundo interior.
                Comecei uma verdadeira busca de auto-conhecimento, diria mesmo de amor próprio, de auto-respeito, auto-preservação, de conhecer meus limites e impô-los, de conhecer minha verdade e expressá-la, de conhecer meus sonhos e alcançá-los, de acreditar na minha capacidade e explorá-la, de buscar a minha auto-estima, de juntar aquelas partes, aquelas facetas perdidas ao longo da minha vida. Cada pedaço, cada parte, as boas e as ruins. Em alguns momentos tive breves encontros com a Rosa, mas eram curtos, quase indolores, quase sempre ela chegava e ia embora sem causar grandes impactos, eu tinha o controle e talvez por isso, por toda esta disciplina, amadurecimento, eu achei, tolamente, que não a encontraria mais.
                Olhando para o quadro completo agora, sozinha, enquanto ela está adormecida, creio que começo a entender o desenho que se faz. Nesta minha ânsia de ter o controle, de retomar o controle, de colocar ordem, de me mostrar capaz, de mergulhar neste processo, de sair da posição de dependente, sonhadora, incapaz de realizar e ficar sempre idealizando as coisas e colocando nas mãos dos outros a concretização dos meus projetos, de sempre me deixar em segundo plano, de não assumir posturas de liderança, poder, eu inverti completamente o jogo e assumi tudo isso de uma vez só e descobri que tenho tudo isso, que sou amplamente capaz, independente, realizadora, responsável, organizada, metódica, líder, poderosa e bem, assumi responsabilidades demais, rotinas demais, ordens demais, me tornei praticamente uma virginiana metódica, praticamente uma filha chata de Saturno.
                O resultado disso? Stress, acúmulo de tudo, não sobrou tempo para mim, para doçura, para sonhar, para todo aquele lado doce, romântico, leve, criativo, e então uma Rosa se mostrou em meu jardim para me lembrar que nem tanto ao céu, nem tanto ao mar navegante. Então quando todas as estrelas se apagam, é que nos lembramos que somos meramente humanos, feitos de carne e osso, muito mais frágeis do que pensamos, muito mais fortes do que ousamos conhecer por outro lado. Como uma rosa, de pétalas suaves, de perfume inebriante, mas de espinhos que podem feri-lo profundamente. Então termino meus devaneios solitários desta noite com um pensamento do Pequeno Príncipe... “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante.” (Antoine de Saint Exupéry)