Meus passos ecoavam, embora tudo ali parecesse familiar, as cores, os móveis, toda aquela atmosfera neutra e rústica, mas não me lembrava bem se já estivera ali. O barulho de um fósforo sendo riscado de súbito chamou minha atenção e em seguida o cheiro peculiar e a fumaça.
- Sentiu minha falta? – falou a voz feminina levemente rouca. Há quanto tempo não vinha aqui? ... Três anos? Três anos é muito tempo, até mesmo para você!
Eu não sabia descrever o que sentir, familiaridade? Medo? Conforto? Ela sabia meus segredos, talvez todos eles, não nem todos, mas me conhecia mais do que qualquer um e isso por si só é assustador e por que deveria ser? Será que havia mudado? Será que ainda me soaria familiar e reconfortante? Me aproximei devagar, borboletas reviravam meu estômago e lá estava ela. Seus cabelos estavam curtos, alourados, sua pele permanecia pálida e seus lábios rubros, mas ela parecia tão... jovem. Suas roupas também, ela não era a mulher que costumava fitar, mas uma adolescente.
- Hannah?! – não sei dizer como estas palavras saíram de minha boca.
- Este é meu novo nome? –falou num tom um tanto irônico. Pensei que Rosa soasse melhor, mais íntimo talvez.
- Não Hannah, Rosa, mas é que você parece tão jovem... e tão eu. A familiaridade, não sua, mas dela... eu não me lembrava dela, eu não costumava pensar nela, entende?
- Voilà! Esta sou sua nova “EU”! Pensei que iria gostar... – falou com certo ar de desânimo.
- Não é algo que costumo lembrar, gostar, falar, aquela época é digna de esquecimento.
Minha voz parecia falhar, eu estava confusa, talvez atormentada, entorpecida por lembranças e sonhos e medos.
- Ahhh, mas foi aí que nos conhecemos pela primeira vez!
- Eu sei... quer dizer, não sabia na época, você nem tinha nome!
- Não éramos íntimas, não podia te falar meu nome naquela época – falou com certo desdém.
- Hum... – eu me sentia sem ar, como se o mundo tivesse parado de girar de súbito e minha cabeça girasse muito depressa.
- A imaturidade! Tudo é tão cheio de dúvidas, cores, sonhos, inseguranças, paixões arrasadoras, por que vocês têm tanta necessidade de se adequar? Você sempre foi tão... interessante e autêntica! Não precisava deles...
- Nem de você, eu suponho... – cocei a cabeça tentando organizar as ideias. Ela então gargalhou, mas tanto e com tanta intensidade que me senti corar.
- Nem de mim? Você esqueceu que eu sou parte de você? Hum??? Não existe você, sem mim! – raiva, ela estava com raiva. Será que é assim que soamos quando adolescentes?
- Veja, hoje eu consigo entender tudo isso, mas naquela época, naquela época eu só queria me enquadrar, me sentir parte e não anestesiada.
Ela resmungou algo que eu não consegui entender e nem sei se queria. Me deixei cair na cama e deitei fechando os olhos, apalpando as têmporas. Senti o peso do corpo dela se espreguiçar ao meu lado, como um gato, me olhando curiosamente, até que a ponta dos seus dedos macios deslizou sobre meu rosto.
- Quantos anos você tem agora? – murmurou.
- Isso verdadeiramente importa Rosa?
- Hannah, pode me chamar de Hannah se quiser. – falou num tom manso, como alguém que tenta ganhar um doce.
- Eu estou viva, percebe? A Hannah não, percorremos caminhos diferentes.
- Nem tão diferentes assim – ela deu de ombros. Você cogitou o mesmo caminho...
- Jura que vamos falar sobre isso?
- Não... até porque, se tivesse sido não estaríamos aqui, não teríamos nos conhecido bem, você jamais me compreenderia, foi apenas uma curiosidade tola.
Eu suspirei e abri meus olhos e lá estava ela a me fitar, aqueles olhos, conhecidos olhos e agora pareciam tão jovens, imaturos, repletos de esperança. Aquela curiosidade pela vida, pelo romance, pelas aventuras, pelo futuro! Aquilo tudo era tão... adorável e tão frágil. Era como explicar a uma criança que a vida não seria o que ela espera, que ela se machucaria, mas que também aprenderia e teria marcas, alguns medos iriam embora, outros viriam, pouco a pouco toda aquela sede se tornaria... precaução talvez? Mas em outra parte tantas daquelas inseguranças e incertezas, tudo aquilo pareceria tão bobo que a faria rir e ela riria de muitas daquelas paixões, mas talvez não das mágoas.
- Deve haver um propósito não? Um motivo para estarmos aqui e estas lembranças? Aquelas noites que só existiam nós duas e a lua, não é mesmo?
- Sou uma adolescente... meu papel agora não é trazer respostas, mas contestar!
- Talvez você precise de respostas então... todos adolescentes precisam, querem compreender, reconhecimento e conforto em si mesmo...
Sim, era tudo que eu buscava, talvez da forma mais errática possível, da maneira mais impensada e inconsequente! Não, eu apenas queria amizades para compartilhar, um amor doce para descobrir, coragem para me expor, ser uma pessoa “normal”. Hoje tudo isso soa engraçado, afinal o que é “normalidade”?
Creio que aquela solidão, aquele sentimento de não pertencimento era o pior, não pertencia a minha família, não pertencia as religiões que conhecia na época, não pertencia àquelas pessoas que estudavam comigo, aquele sentimento ímpar! Porém, ao fim, tudo que eu queria era achar alguém ímpar para formar um par. Solidão. Acho que isso resumia a minha existência com uma veracidade e veemência sem igual. Tudo que acontecia só faziam com que eu me sentisse, só.
Ela parecia ler meus pensamentos...
- Se você me conhecesse, como hoje, será que se sentiria tão só nesta época? – nem ela parecia ter certeza da resposta.
- Não Rosa, creio que teria acabado com tudo, se eu soubesse de você, de que seria sempre a minha fiel companheira. Que de alguma forma este vazio sempre voltaria, eu não tinha maturidade para entender este... vazio.
- Você chorava muito nesta época? – agora ela enrolava os dedos em meus cabelos.
- Hahahaha... tanto que eu tinha certeza que me afogaria, morreria de tanto chorar, sem nem ao menos saber porque em alguns momentos. Então, prometi que seria forte e que ninguém mais me veria chorar, mas isso foi depois, bem depois...
- É possível alguém... secar?
- É possível... não deveria ser... não deveria ser sinônimo de fraqueza, ou medo, apenas de sentimento, intensidade. Tudo era tão intenso...
Minha mente divagava nas milhões de imagens, lembranças, mágoas, risos, era como navegar num rio de lembranças e tocá-las com a ponta dos dedos e vê-las evanescer.
- Eu lembro daquele cinema, de vê-lo a beijando e eu tinha esperança que ali, no fim, ele mudasse de ideia e era como se arrancassem meu coração do peito e eu permaneci ali, assistindo a tudo em silêncio. Depois quantas vezes eu acompanhei ele pela janela? Hoje eu olho e vejo que éramos de mundos tão diferentes, na verdade eu nunca o conheci! Depois andar sozinha por aqueles corredores e eu não tinha feito nada.. por que as pessoas por vezes são tão cruéis com as outras?
- Você acha que se você soubesse que no fim, iria encontrar um amor, um alguém especial e teria motivos para seguir, algo teria sido diferente? – ela me fitava com aqueles olhos suplicantes.
- Acho que não acreditaria, ou talvez não fizesse diferença –suspiro lentamente. Talvez tudo isso fizesse parte do “plano”, para chegar onde eu cheguei, para ser quem eu sou, para...
- Mas por que algumas pessoas sofrem mais do que as outras? Isso não acontece com todos! É injusto! – ela bradou. Tem gente que merece e nada acontece!
- Ahh doce Hannah, cada um tem seus desafios, seus medos e dores e é diferente para cada um, alguns são mais sensíveis, outros se endurecem, outros não tem caráter mesmo, nem nunca terão.
- Por que?!
- Não saberia determinar, cada um tece sua própria explicação. Acho apenas que cada conto, cada história tem que ter seu opositor, aquele que te conduz para o descobrimento de si mesmo. Como a semente que precisa de fogo para enfim eclodir, não tem o porquê, tem o meio necessário para cada um de nós se encontrar e reconhecer.
- Entendo... não acho justo! Mas entendo... – ela parecia pensar fitando o teto. Somos uma semente dura! – riu de canto.
- Bem duras... quase carrancudas... – ela riu e eu ri, rimos juntas, fizemos caras engraçadas, rimos mais. Aquela cumplicidade, aquela parceria, por que tinha que ser assim? Por que tudo parece despertar em sua presença? Por que toda esta necessidade dela? Eu não saberia dizer, não saberia dizer por que por vezes tudo parece tão mais lúcido quando estou com ela. E ali estávamos mais uma vez, rindo e lembrando do intocável.





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