Eu podia ouvir os ecos dos meus
passos atrás de mim, como o passado que ressoava em minha lembrança e é
inevitável pensar se poderia ter sido diferente, mas no fundo sabemos que isso
não importa, porque o passado é inatingível, o futuro é incerto, então temos o
presente para alterar.
Seus olhos pareciam me acompanhar
silenciosamente e ao olhá-la pela primeira vislumbrei algo que nunca notara
antes, tristeza. Ela sempre me pareceu uma mulher segura, sedutora, misteriosa
e até certo ponto inatingível, mas agora com os traços juvenis e a postura
adolescente, parece-me que assim como todos nós, máscaras se fazem com o tempo,
o sorriso inocente torna-se indecifrável e pouco a pouco perdemos aquela tez
vibrante, tão motivada pelo mundo externo e nos tornamos apenas um reflexo do
que passa por dentro de nós.
Esperanças perdidas, sonhos
amadurecidos, urgência silenciada pela prioridade, maturidade, mas ao mesmo
tempo um tom de indiferença, nada mais urge, nada mais é empolgante e excitante
como antes. Tudo aquilo que antes era a flor da pele, agora é uma análise
delicada de cada momento, expressa pelo o que permitimos exprimir e toda
naturalidade parece um eco distante.
Sentei-me ao seu lado e afagueis
seus cabelos levemente bagunçados, tirando os nós com a ponta dos dedos e ela
soltou um suspiro leve, deixou que uma única e solitária lágrima escorresse por
seu rosto macio e brilhante. Eu a enxuguei com a ponta dos dedos e afaguei seu
rosto de leve.
-
Eu havia esquecido como era... toda esta urgência e inconstância da
adolescência... – ela por fim desabafou.
-
Todos nós acabemos por amortecer estas memórias Rosa, crescer, fazer escolhas,
tudo isso acaba sendo um processo doloroso, mas ao mesmo tempo é o que nos
molda no que somos hoje.
-
Escolher é difícil, tomar lados, partidos, abrir mão de opções, se expor...
-
Me falaram algo curioso estes dias, que aquele que se mantém em cima do muro
por medo de ser criticado por um dos lados, acaba levando pedrada de ambos os
lados, não escolher não deveria ser uma escolha, pois acabamos mais expostos e
deixamos que cada um teça suas próprias verdades, pois a nossa não foi exposta.
-
Humm... será que se tivéssemos nos exposto mais teria sido diferente?
-
Não há como saber, só como será daqui para frente.
Sorri para ela docemente, num
misto de cumplicidade e aceitação do que não pode mais ser mudado. Ela sorriu
de volta e me abraçou, ali ficamos, abraçadas uma a outra, entregues a todas as
emoções afloradas pelo passado.
-
Você se sente idiota? – ela murmurou.
-
Mais do que gostaria. – confessei.
-
Por que? – ela me olhou com ar de curiosidade.
-
Porque tive medo, medo de perder, medo de machucar, medo de me expor e neste
constante medo permaneci sobre o muro em muitos momentos, sem dizer o que havia
me magoado, sem dizer toda a verdade que gritava dentro de mim, sem expor meus
sentimentos, sem fechar algumas pontas e de repente isso me parece tão tolo. Idiota
porque eu preservei tanta gente que não merecia, deixei de machucá-los e... eu?
-
Permaneceu em silêncio...
-
Sim, num silêncio torturante de lembranças, de verdades não ditas para não
machucá-los quando eles já o haviam feito, eu me julgava boa! Julgava que, ao
fazer isso eu estava evitando o conflito, mas no fim eu estava era afundando a
mim mesma Rosa! E alguns permaneceram na minha vida de forma tão vazia e pouco
a pouco eu ia perdendo a fé nas pessoas, crendo que sua capacidade de me
machucar era maior, me julgando “boa” por não ser cruel, mas a que preço Rosa?
-
Aqui estou, com uma coleção de histórias, de pessoas que muito provavelmente
sequer lembram de mim, do meu nome e eu os tenho todos gravados na memória,
diálogos que ocorreram em minha mente e que nunca, nunca foram ditos, mas fazer
o que? Procurar estas pessoas tanta tempo depois e dizer agora? Isso não mudará
nada, eles não são mais aquelas pessoas, outras sequer sei se ainda existem,
outras talvez tudo isso seja tão sem importância que eles sequer lembrem destas
histórias, a apagaram enquanto eu as cultivava. Percebe a insanidade disso?
Eu ri, ri porque era a única
coisa que restava neste momento, rir das minhas escolhas tolas, mas nada
poderia mudar a minha essência, este lado ingênuo, bom, doce, que não quer
machucar as pessoas, não propositalmente ao menos, com a intenção de e então
resta pensar em como ser, fazer daqui para frente para não mais colecionar
histórias.
-
O que foi? – ela me olhava com atenção.
-
Não é boa a sensação de sentir-se idiota por ser boa, por querer preservar
momentos e pessoas.
-
Mas você sabe que a maioria das pessoas não é assim, não sabe?
-
Claro que sim, este é um gosto amargo que carrego, de que a maioria nunca
pensou por um segundo em mim, apenas em si mesmos.
-
Ou seja, eles pensaram em si mesmos, você os preservou e quem pensou em você?
-
Pois é... quem pensou em mim? Quem preservou os meus sentimentos?
-
Ninguém... – ela murmurou, como se não quisesse me ferir.
-
Entende por que me sinto idiota? Tentando sempre ponderar, poupar, preservar,
manter laços, manter as pessoas unidas e fazer os outros perceberem seus erros,
não tomando lados e sendo política, o que restou?
-
Pessoas que a julgam tola, incapaz de se posicionar?
-
A tola dos tolos, pelos Deuses! E tem gente que ainda me julgou insensível!
Hahahaha
De repente eu cai na gargalhada,
porque tudo aquilo soava tão patético que eu só poderia rir de mim mesma.
-
Sabe o que ele dizia, por exemplo, “você é pior que uma puta”. Aquele que
brincou com meus sentimentos como um gato brinca com um novelo, você consegue
perceber a graça nisso?
-
Ele? Ah não, ele era um idiota, não conseguia lidar nem com os próprios
sentimentos! Por isso ficava brincando com você como um iô-iô, mas ele contava
que você fosse ficar ali para sempre.
-
Mas... eu não fiquei não é mesmo, o que me faz crer que não sou tão idiota!
-
Só lenta.... hahahahaha
-
Idiota! – joguei um travesseiro nela e rimos.





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