Strony

27 de janeiro de 2011

3° Capítulo: Reflexões

Eu estava deitada fitando o céu, imersa em meus pensamentos, distante, muito além desta realidade. Ela nunca se direcionava a mim, ou ao menos eram poucos estes momentos, a maior parte do tempo eram monólogos, devaneios ou contemplação apenas, como se ela lesse tudo que se passava em meus pensamentos, mas de súbito sua voz irrompeu o silêncio e eu até me assustei com suas palavras.
                - Você se sente sozinha?
                Eu ergui minha cabeça e a fitei, as palavras primeiro vieram a minha boca com muita pressa, contudo eu as interrompi e tentei organizá-las melhor e fiz uma viagem por minha linha do tempo, meus sentimentos, sensações, desejos, motivações, buscas e tornando a fitar o céu, como procurando o mapa de minha própria estrada comecei a divagar...
                - É engraçado, num primeiro momento nós imaginamos que só podemos ser felizes se tivermos alguém do nosso lado, se encontrarmos a pessoa amada. Imaginamos príncipes e princesas, amor para sempre, desenhamos flores e corações, sofremos, choramos, nos apaixonamos, nos desiludimos, acreditamos no “felizes para sempre”! Tudo parece tão simples e ao mesmo tempo tão complicado, parece que toda a nossa vida gira em torno disso, encontrar alguém.
                Suspirei pausadamente, deixando aquele turbilhão de idéias percorrerem todo meu corpo, enquanto sentia aqueles olhos me observando com um ar de curiosidade, de certo deslumbramento.
                - Vivemos em função disso e procuramos no outro a felicidade, dependemos da realização deste sonho para termos nossa vida completa e sem perceber nos vemos escravos desta dependência. Como podemos amar alguém se sequer amamos a nós mesmos? Como partilhar algo com alguém se não sentimos isso por nós mesmos? Como depender do outro para alcançar algo que não temos em nós mesmos? Por isso não há como ser feliz, não há como não se sentir sozinho mesmo estando ao lado de alguém, porque temos que buscar primeiro isso dentro de nós mesmos, para então podermos compartilhar isso com o outro.
                - Mas você acha que é possível alguém se amar plenamente? Completamente? Como saber que está pronto para compartilhar? Não seria esta busca uma ilusão?
                - Não, ilusão é viver uma mentira, uma dependência, buscar no outro o que não existe em você, um castelo de cartas, fingir viver um conto de fadas, quando lá dentro você não encara suas próprias verdades. Não é fácil a tarefa de amar a si mesmo, de encarar as próprias verdade, de conhecer seus medos, de encará-los de frente, é um processo que provavelmente nunca terá fim, sempre haverá algo novo a ser descoberto, a ser mudado.
                - Você é feliz?
                - Eu sou... bem, eu achava que era até encontrá-la...
                - Não encare o nosso encontro como uma desilusão, ou um motivo de tristeza, encare como um convite para olhar para dentro, para refletir, para se conhecer um pouco mais, mais  a fundo.
                Ela desviou seus olhos e passou a fitar o céu, ficando em silêncio de súbito, com uma expressão indecifrável, como se tudo que eu havia dito tivessem a feito refletir, mas havia certa serenidade em sua feição, como se aquilo que ouvira tivesse a agradado de alguma forma, como se tivesse amadurecido desde o nosso último encontro e certamente eu sabia que isso havia acontecido. Secretamente eu sorri e continuei.
                - Eu me sinto sozinha quando estou em sua companhia, é uma solidão estranha, é uma solidão dentro de mim mesma, mas eu tenho alguém, alguém especial, alguém que me faz sorrir, um porto seguro, alguém com quem compartilho amor, amizade, paixão, sonhos, enfim, um amor de verdade, não uma ilusão, eu me sentia feliz...
                - Sente
                - Sinto, mas atordoada.
                - É isso que eu te causo, atordoamento?
                - É como uma dependência química, um mal necessário, um vício, uma sensação que me leva as profundezas do que eu sou, que me faz enxergar além da superfície, que me torna extremamente poética, sensível, observadora, que me toma os sentidos, que me tira do mundo, que me leva para outro lugar, para um mundo paralelo, outra realidade não sei, quando estou na sua presença tudo se torna turvo, como se eu estivesse no fundo de um oceano profundo, tudo é belo, ao mesmo tempo escuro, ao mesmo tempo repleto de cor e lembranças, é confuso. 
                Ela apenas balançou os cabelos dourados em desaprovação e me fitou com aquele ar enigmático.
                - Quando você vai embora eu desejo que nunca mais volte, quando você chega eu me apavoro, quando você está aqui em alguns momentos eu a odeio, em outros, como agora eu vejo coisas que só vejo em sua presença, em outros é como se estivesse entorpecida, por isso digo que é como uma dependência, é algo que não tenho controle, que não sei prever, que não sei como começa, por que começa e quando termina.
                - Eu sou apenas o abismo que reside em você, encare assim.
                - E se eu não quiser mais olhar?
                - Terá que voltar para o conto de fadas.
                - Ou seja, uma vez que toma a pílula não tem volta não é mesmo?
                - Mais ou menos assim...
                - Entendi.

1 comentários:

Caminhando com as Deusas disse...

Estou começando a entender!
Adorei a arte do blog!

Bjo

Willy