Aquela noite caia outra tempestade e eu a fitava da janela em silêncio, os raios riscavam os céus, os trovões faziam tudo tremer em volta, era tudo tão assustador quanto belo. Meus pensamentos estavam mais distantes do que nunca naquele momento, eu me sentia ausente, um corpo inerte, como se a vida corresse lá fora e nada importasse, como se a tempestade na verdade ocorresse aqui dentro e não importava o que acontecia lá fora e esta sensação era estranha, como tantas outras que eu nunca havia experimentado, é engraçado como ainda pode haver algo de novo em coisas tão conhecidas.
Senti sua mão repousar sobre meu ombro, como que me puxando para realidade, ou talvez me afundando ainda mais para dentro daquela tempestade interna não sei. Ela sentou ao meu lado e me fitou longamente como tentando decifrar meus pensamentos, eu apenas fiquei a observando em silêncio, não sabia exatamente o que dizer, ou talvez se começasse a falar aquela tempestade sairia de dentro de mim e despejaria um rio de sentimentos que eu não compreendia, então apenas continuei a olhá-la.
- Silenciosa hoje?
Eu apenas assenti com a cabeça e ela voltou os olhos para tempestade e ficou a observá-la como antes eu estava fazendo.
- Você nunca sente medo ou se sente sozinha? – eu finalmente disse.
- Acredite, eu nunca estou sozinha, sempre tenho alguma companhia, mais do que gostaria e solidão, não tenho medo de solidão.
- Hum... eu as vezes tenho pena de você.
- Nunca sinta pena de ninguém! Especialmente de mim!
- Desculpe, creio que não usei a palavra correta, não é pena, deixa eu tentar me expressar melhor. É que você é tão incompreendida! Eu mesma, te conheço há tanto tempo e por vezes te odeio, tenho vontade de... assassiná-la! E não compreendo porque vem, porque volta, porque existe! E eu te conheço, você conhece minhas entranhas, minhas verdades, partes que eu não ouso falar em voz alta e você sabe, por mais complicado que seja o que temos, vivemos, enfim é algo profundo, intenso, talvez único.
Eu precisei parar alguns instantes para recuperar o fôlego enquanto ela me observava sem entender onde eu estava tentando chegar.
- Mas no mundo lá fora, a maioria das pessoas fogem de você, elas negam sua existência, te vêem como fraqueza, como fuga, sei lá, são tantos nomes, tantas justificativas, desculpas, porque no fundo elas não querem encarar de frente a verdade, o que elas são, seus medos, suas vísceras, aquilo que dói, aquilo que está lá dentro delas, elas preferem viver uma mentira do que ser elas mesmas, elas temem a sociedade, os tabus, a religião, as regras, na verdade elas temem elas mesmas, porque é impossível encarar estes olhos frios, cristalinos, profundos como o oceano que me dragam para as profundezas do meu ser sem ter muita coragem, muita força e ainda sair viva, ter força para voltar a superfície. Você é um desafio, um desequilíbrio que começa sem motivo, ou por algum motivo, que nos tira dos eixos, que nos leva para dentro, é como o minotauro do centro do labirinto, somente os heróis conseguem vencê-la e somente os heróis a encontram.
Eu baixei minha cabeça confusa, com a ferocidade dos sentimentos que todo aquele discurso insano me despertara, eu estava dando poder a ela, talvez mais poder do que eu deveria, mais ao mesmo tempo me investia do mesmo poder, agora não era momento para pensar, eu já havia dito, era momento de sentenciar a minha sina.
- Eu me simpatizo com sua dor, eu me simpatizo com a sua incompreensão, porque eu sinto o mesmo, quando nos encontramos, eu percebo tudo isso, eu percebo que as pessoas acham que é tolice, fraqueza, bobagem, fuga, preguiça, mas na verdade é muito difícil ser o que você é e eu honro isso em você...
Ela parecia uma estátua petrificada a minha frente, olhando-me com um misto de surpresa e pavor.
- Em meio a tanta gente, a tanta loucura que eu vejo no mundo, a tantas pessoas que não se importam umas com as outras, apesar de todas as nossas diferenças, de todos estes sentimentos confusos que você desperta em mim, você sempre me faz lembrar o que há de melhor e pior, de minhas limitações, de que somos apenas humanos e passíveis de erros e que por vezes precisamos parar e colocar as coisas em ordem, olhar para dentro e tentar entender o que está acontecendo e por isso, por tudo isso, creio que você é um símbolo de humanidade por mais contraditório que isso possa parecer...
Então algo inesperado aconteceu, aqueles olhos vítreos, quase sempre límpidos, sem expressão, sem fúria, sem alegria, sempre com aquela apatia e profundeza tão peculiares, fitaram os meus com um ar de surpresa, como se a caixa de Pandora tivesse sido aberta naquele momento e uma lágrima, uma única lágrima escorreu pelo rosto dela. Ela nada disse, apenas continuou me olhando, eu apenas supus que nunca haviam dito isso a ela antes e fiquei ali parada olhando para ela. De súbito ela beijou meu rosto e voltamos a fitar a tempestade em silêncio. Ela era meu minotauro e eu sua heroína, por mais irônico que tudo isso pudesse parecer.





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