Fiquei por horas esperando-a adormecer, mesmo quando ela adormeceu aguardei algum tempo para ter certeza que seu sono era profundo e não acordaria assim que eu desse o primeiro passo. Não fazia sentido no que eu estava prestes a fazer, parecia que eu prisioneira daquela relação, daquela situação, mas o que importava? Eu me ergui cuidadosamente, tentando não fazer barulho algum, peguei meus sapatos e fui me esgueirando em direção a porta, podia sentir meu coração acelerando dentro do peito, batendo apressado, como se fosse novamente uma adolescente que foge de madrugada dos pais. Ao chegar a porta a abri tão lentamente que pensei em algum momento que jamais ela abriria, escorreguei sorrateiramente pelo vão, olhando-a, para ter certeza de que não acordaria e fechei a porta bem devagar. Quando a primeira parte do meu plano se encerrou, até pude respirar um pouco mais aliviada.
Coloquei meus sapatos, na verdade dois tênis surrados que eu adorava e fui descendo lentamente as escadas, ao chegar na porta de entrada parecia que o meu coração já não mais cabia em meu peito, ele batia tão forte, mais tão forte, que parecia que iria romper minha caixa torácica e cair ali no chão naquele exato momento. Comecei caminhando pela calçada lentamente, sempre olhando para trás, vendo se alguém me seguia, depois fui apressando o passo, até que de repente eu estava correndo, correndo sem rumo algum, correndo selvagemmente sem direção. A medida que eu corria, eu não sabia se ria, se chorava, no fim fazia ambas as coisas.
Quando cheguei a um parque deserto, pude ver a luz da lua refletindo sobre a areia branca, aquele vento frio bateu em meu rosto e meu corpo ardia por conta da corrida, tudo em mim parecia vivo e ao mesmo tempo exausto, sentei exausta olhando a paisagem, olhando as estrelas no firmamento e lembrei do que elas representavam para mim, aquele belo cordão de luzes, luzes que me guiavam, luzes ancestrais, lembranças, histórias, sonhos. Segurei meu colar de estrela entre a mão e apertei-o com força entre meus dedos, sentindo suas pontas finas sob minha pele e de repente rompi em lágrimas.
Não sei precisar quanto tempo eu chorei, mas eram muitas saudades, muitas lembranças, muitos significados guardados naquelas estrelas, naquele colar, naquela liberdade recém descoberta, mas que sempre estivera lá.
- “Tu te tornas eternamente responsável pelo o que cativas”.
Eu disse como que para eu mesma e suspirei enxugando os olhos. Agora não chorava mais com culpa, ou com indignação, chorava apenas de saudade de mesmo, do vazio que foi aberto por sua ausência, minha contadora de histórias, minha heroína, minha amiga, tantos momentos que não voltarão mais.
- Você causou um reboliço aqui quando foi embora! Grandes mulheres são assim e você foi uma grande mulher, grande demais para ser compreendida, talvez até mesmo para se compreender não é mesmo?
Continuei fitando as estrelas e de súbito tive a impressão de ver uma espécie de lobo, coiote nas estrelas, achei aquilo engraçado ou talvez estivesse apenas delirando.
- Agora deu para falar sozinha?
- Deus do céu!
Meu susto foi tão grande que eu praticamente cai daquele banco sentada na areia. Ela estava em pé ao meu lado, eu não a vira chegar, não sabia quanto tempo estava ali, tão pouco como havia chegado ali. Olhei confusa para todos os lados, tentando entender, mas ela nada disse, apenas sentou ao meu lado e como era melhor não perguntar nada para não ter que explicar porque eu tinha fugido, deixei pra lá.
- Ahn estava falando com as estrelas...
- Hum.
- Para mim elas são como porções de nós mesmos, frações de nossa alma, espelhos, assim como são frações daqueles que se foram e podem nos ensinar através de sua sabedoria, através de cada faceta, por isso alguns dizem que Arianrhod é a Senhora das Estrelas, a Senhora da Ancestralidade, pois ela guarda estes portais...
- Interessante.
- Assim como, contadores de histórias, de lendas, mitos, trazem em sua essência facetas, ensinamentos, segredos que precisamos encontrar, partes de nós mesmos que foram perdidas, como se este parque por exemplo fosse um grande deserto e aqui tivéssemos perdido milhões de partes de nós e devêssemos vasculhá-lo para encontrá-las. Ao trazer estas histórias, mitos, eles nos lembram destas partes, destas faces, destes mitos que na verdade contam sobre nós mesmos.
- Muito interessante.
- De alguma forma minha avó foi a La Loba para mim, aquela que conta as histórias e que é capaz de fazer estes pedaços perdidos no deserto se levantarem, que é capaz de encontrá-los, fazer com que eles se unam e tornem o espírito uno novamente. Inteiro, talvez por isso tudo tenha se despedaçado, foi como se o encanto tivesse se quebrado.
- Mas se ela tinha o poder, você pode tê-lo herdado não?
- Será?
- Por que não experimenta juntar a si mesma ao invés de se despedaçar? Fugir?
Eu não ousei responder, fiquei parada a olhando em silêncio. Será que eu poderia ser a minha própria fonte de cura. Será que teria herdado o mesmo dom de contar histórias e fazer as coisas se transformarem diante do meu olhar? Seria eu também uma Loba? Meu coração parecia incerto, atormentado, ansioso, apertado, esperançoso, mas ao mesmo tempo temia esta esperança, porém eu precisava arriscar, talvez este era o legado que ela queria me deixar.





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