Strony

25 de janeiro de 2011

1° Capítulo: Reencontro


Aquele parecia um dia qualquer, eu caminhava pelas ruas habituais indo em direção a minha casa, mas uma chuva torrencial me pegou de surpresa, daquelas que não dá para correr para chegar em casa, que você tem que parar no primeiro lugar a sua frente e esperar, pois você não sabe o que acontecerá em seguida e o Governo sempre vem com as mesmas desculpas de sempre, enfim. Entrei na primeira porta que vi em minha frente e certamente era um daqueles lugares, que se não fosse aquela maldita tempestade eu não entraria, tinha um aspecto descuidado, as cadeiras e mesas de madeira velha, o lugar mal iluminado, as pessoas sujas e molhadas pela chuva davam ao lugar um cheiro e aspecto ainda mais descuidados, para não usar outro vocabulário, mas não havia o que fazer naquele momento, sentei numa cadeira vazia, numa mesa mais ao canto, onde me parecia que não seria perturbada, tirei o casaco molhado, deixei numa cadeira ao lado, junto com meus pertences e tentei não olhar muito ao redor, peguei meu celular e é claro, não tinha sinal nenhum, suspirei e fiquei ali, olhando o nada por alguns instantes.
Foi naquele momento, naquele exato momento que ouvi seus passos cruzarem o salão, não havia como confundi-los, especialmente quando aquele perfume inebriante invadiu o ambiente junto com o cheiro forte de chuva que vinha lá de fora. Eu não ousei erguer os olhos, eu não quis erguer os olhos, devia ser um engano, não poderia ser, mas aquele perfume, aquele andar? Eram de fato inconfundíveis! Meu coração acelerou, aquele peso no peito logo se fez presente, parecia que até mesmo a respiração me faltava naquele momento, mas mantive meus olhos baixos, talvez não me reconhecesse, talvez estivesse ali por algum outro motivo.
- Tem fogo?
Meu deus, aquela voz! Aquela voz só poderia ser, não tinha outra voz assim, o desespero quase me tomou a garganta e me deu uma vontade súbita de gritar, tudo que consegui dizer entre dentes foi.
- Não fumo.
- Ah... – acendeu seu próprio cigarro, puxou a cadeira ao meu lado e se sentou como se nada tivesse acontecido. Pude sentir seus olhos sobre meu rosto, procurando meus olhos, me observando atentamente e eu não sabia simplesmente o que fazer, dizer, tão pouco o que pensar daquela presença, daquela aparição, daquele fantasma ali sentado em minha frente. Ergui a minha mão, com sorte aquele lugar teria algum garçom ou qualquer coisa parecida que pudesse me servir um drinque ou qualquer coisa que tornasse aquele reencontro um pouco mais palpável, porque fácil ele jamais seria. Sem repousar meus olhos naquela direção, pedi um cowboy duplo, puxei o cigarro que estava no centro da mesa e acendi, tragando violentamente. A nicotina, há tempos não sentia aquele gosto amargo em minha boca, quando soltei a fumaça, baixei os olhos lentamente e eis o que vi:
Ali estava ela, impecável como sempre, sua pele pálida, branca como a neve, seus olhos cristalinamente azuis, combinavam perfeitamente com sua maquiagem levemente borrada preta, que destacavam ainda mais aqueles olhos vítreos, espelhados, com aquelas pequenas olheiras sempre ali presentes, que não sei porque sempre achei que davam um ar de humanidade, de imperfeição, para aquele rosto vítreo, imóvel, indecifrável como o oceano, emoldurado por aqueles cabelos em ondas, de fios dourados como sol ao amanhecer, de tão claros, dando a ela este ar pálido e perfeito, distante e vívido com estes lábios sempre rubros, intocados, intocáveis, indecifráveis. Ela não mudara um único dia.
A minha bebida chegou e virei o copo de uma única vez, era a única maneira de começar algum diálogo, se é que haveria algum, contudo era a única maneira de permanecer ali em meio aquela chuva torrencial e manter a sanidade, vendo-a me encarar como se o tempo não tivesse passado, me questionando porque ela estava ali e o que desejava. Suspirei em fim, depositando o copo sobre a mesa e fiquei a observá-la, assim como ela me observava.
Entenda, eu não a odiava, eu só não entendi a sua presença ali, naquele momento. Eu estava bem, feliz, tinha uma vida bem estruturada, com muitos planos pela frente, mas já havia conquistado muitas coisas e não havia sentido de vê-la ali sentada na minha frente com aqueles olhos, com aquele olhar, se fosse em outra época, em outro momento, eu compreenderia, mas agora? Este era o meu entrave, eu não conseguia compreender. Ela é uma daquelas pessoas que te conhecem a fundo, não que conhecem você no seu dia a dia, que sabem que cor você gosta, que restaurante, filme, mas que conhecem aquela parte de você que você não mostra para todo mundo, bem verdade que você não mostra para ninguém, porém ela conhece e conhece bem, porque ela está ali neste momentos. Ela conhece suas entranhas.
Eu nunca a chamei de amiga, ou inimiga, de amante, sequer perguntei o seu nome, é como se qualquer palavra, qualquer significado que eu desse pudesse quebrar aquele laço de confiança, aquele vínculo que se fez. Ao mesmo tempo que ela era o vazio, ela que me levava para partes de mim que eu não conhecia e que me levaram a compreender outras coisas. Assim como ela era a solidão dentro de mim mesma, ela era a compreensão de que eu era a plenitude que eu precisava. No entanto, os sentimentos que ela me apresentou, que eu vivenciei com ela foram tão profundos, confusos, que em alguns momentos eu pensei que perderia a razão, que não encontraria o caminho de volta, em outros desejei simplesmente desaparecer e que ela me deixasse em paz, somente isso, em outros era apenas silêncio, confuso, apático, como aqueles olhos que agora me fitavam. E agora eles estavam ali.
Olhei a minha volta e ninguém mais parecia notar sua presença, alguns parecia olhar o noticiário, outros estavam bêbados demais para notar qualquer coisa, outros conversavam alegremente, outros estavam com aquela feição preocupada, mas ninguém parecia notar aquela bela e apática mulher sentada a minha frente, foi como se o mundo a minha volta começasse a descolorir e ao olhar para ela novamente, apenas seus lábios mantinham a cor, rubros como sempre. Ela estava ali por mim mais uma vez, para mim, mesmo que eu não compreendesse o porquê.
Toda esta consciência parecia me drenar as forças, me tomar os sentidos. Eu apenas ergui meus olhos e a fitei, longamente, lembrando de tudo que vivemos juntas, cada momento que passamos, cada história, cada riso, cada lágrima, cada tormento, cada delírio, cada surto, cada sonho, cada cápsula, até o dia que ela partiu da mesma forma que surgiu, assim sorrateiramente. Senti como alguém que se rende, não por fraqueza, mas porque aqui não há luta. Apenas sorri de canto e ela retribuiu.
- Espero que seja breve – eu disse enfim, num último rumor de esperança.

1 comentários:

Caminhando com as Deusas disse...

Luanin,

Belíssimo!

Você deveria escrever mais.
Assim partilharia tanto com a gente!

Willy