Me perdi naqueles olhos indecifráveis, naquela imensidão como o oceano, sem perceber me afogava, mas ali hipnotizado por aqueles olhos, por aquele olhar, parecia que nada mais me importava, nada mais me tocava, tudo naquele olhar me tomava os sentidos, o ar, os pensamentos.
Sem perceber eu mergulhava cada vez mais fundo e quão mais fundo eu ia, era como se atingisse mais fundo de minha própria consciência, de minha verdade, de meus medos, como um único olhar, podia refletir tanto de mim mesma? Como um único olhar podia me levar tão longe? Onde ninguém havia me levado? O profundo, leva ao profundo não é mesmo? Murmurei para mim mesma em meio aos meus devaneios.
Meus dedos deslizaram por seus cabelos, eram como fios de ouro que escorriam por minha mão, fazendo recender aquele aroma inebriante, fechei meus olhos e deixei apenas o peso do meu corpo cair sobre a cama, fitando o teto, sentindo minha cabeça girar. Era como se lampejos tomassem minha cabeça de súbito, flashes de meu passado, lembranças perdidas, algumas boas, mas que deixaram muita saudade, outras amargas como fel, outras doloridas que insistiam em doer, outras feridas que apenas mulheres seriam capazes de compreender, outros sonhos que estouram como bolha de sabão deixando apenas aquela lembrança multicolorida no ar. Por que carregamos tantas coisas? Sentimentos? Lembranças? Dores? Marcas?
Se tais fossem feridas de batalha, como guerras que vencemos ou perdemos, certamente meu corpo estaria recoberto delas, talvez não houvesse espaço para novas, talvez fosse isso, nestes tempos nós não honramos nossos ganhos, nossas perdas, nossas dores, não há honra sequer, não há batalha, muitas vezes sequer valor, apenas em alguns momentos muita vergonha, medo, solidão, como naquele momento. Se não fosse por minha companheira de olhos vazios e imensos como o oceano, nada mais eu teria, só minhas marcas de batalha, só as feridas que eu e ela conhecíamos.
Me ergui e me coloquei de frente ao espelho, ali me despi, completamente, ela apenas me observava com aqueles olhos inertes. Peguei seu batom vermelho, rubro como seus lábios e disse a ela:
- Vamos celebrar nossas mortes, nossas vitórias e fracassos, se assim foi, que assim seja, temos que honrar tudo que somos afinal, de bom ou de ruim. Você já está aqui mesmo não é? Deve haver algum sentido nisso também.
Ela apenas assentiu balançando seus cabelos, mas seus olhos agora pareciam como uma tempestade furiosa, como se minhas palavras despertassem algo nela além daquela frivolidade, como se aquele quê selvagem também repousasse dentro dela, dentro de mim, dentro de cada um de nós, mesmo em momentos como aquele.
Comecei a mentalizar cada uma daquelas cenas, tristes, saudosas, medonhas, vergonhosas, cada derrota, cada morte, cada reencontro com ela, enfim cada batalha, vencida ou perdida, cada momento em que ganhei ou perdi o meu poder e pintei uma cruz em meu corpo, onde sentia aquele sentimento, aquela raiva, angústia, tristeza, vergonha, enfim. Ao final eu parecia um mapa vermelho, ensangüentado, um atropelamento de trem, não deixei de achar graça, mas era assim que eu me sentia e apenas disse.
- Descanse em paz.
Neste momento nem ela resistiu e soltou uma gargalhada, tão sonora, tão alta, tão esganiçada, que eu até parei para olhar se não estava de fato enlouquecendo, mas mediante a cena tão inusitada e cena tão patética, eu também comecei a rir e rimos por tanto tempo, que precisamente não sei contar, sei que ao fim estava novamente caída na cama, sem fôlego, olhando para o mesmo teto, toda manchada de batom, mas sentia-me mais leve, como se realmente tivesse me libertado daqueles fantasmas. Agora restava compreender a realidade e o porque daqueles olhos que insistiam em me fitar.





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