Strony

30 de janeiro de 2011

5° Capítulo: Estrelas

                Fiquei por horas esperando-a adormecer, mesmo quando ela adormeceu aguardei algum tempo para ter certeza que seu sono era profundo e não acordaria assim que eu desse o primeiro passo. Não fazia sentido no que eu estava prestes a fazer, parecia que eu prisioneira daquela relação, daquela situação, mas o que importava? Eu me ergui cuidadosamente, tentando não fazer barulho algum, peguei meus sapatos e fui me esgueirando em direção a porta, podia sentir meu coração acelerando dentro do peito, batendo apressado, como se fosse novamente uma adolescente que foge de madrugada dos pais. Ao chegar a porta a abri tão lentamente que pensei em algum momento que jamais ela abriria, escorreguei sorrateiramente pelo vão, olhando-a, para ter certeza de que não acordaria e fechei a porta bem devagar. Quando a primeira parte do meu plano se encerrou, até pude respirar um pouco mais aliviada.
                Coloquei meus sapatos, na verdade dois tênis surrados que eu adorava e fui descendo lentamente as escadas, ao chegar na porta de entrada parecia que o meu coração já não mais cabia em meu peito, ele batia tão forte, mais tão forte, que parecia que iria romper minha caixa torácica e cair ali no chão naquele exato momento. Comecei caminhando pela calçada lentamente, sempre olhando para trás, vendo se alguém me seguia, depois fui apressando o passo, até que de repente eu estava correndo, correndo sem rumo algum, correndo selvagemmente sem direção. A medida que eu corria, eu não sabia se ria, se chorava, no fim fazia ambas as coisas.
                Quando cheguei a um parque deserto, pude ver a luz da lua refletindo sobre a areia branca, aquele vento frio bateu em meu rosto e meu corpo ardia por conta da corrida, tudo em mim parecia vivo e ao mesmo tempo exausto, sentei exausta olhando a paisagem, olhando as estrelas no firmamento e lembrei do que elas representavam para mim, aquele belo cordão de luzes, luzes que me guiavam, luzes ancestrais, lembranças, histórias, sonhos. Segurei meu colar de estrela entre a mão e apertei-o com força entre meus dedos, sentindo suas pontas finas sob minha pele e de repente rompi em lágrimas.
                Não sei precisar quanto tempo eu chorei, mas eram muitas saudades, muitas lembranças, muitos significados guardados naquelas estrelas, naquele colar, naquela liberdade recém descoberta, mas que sempre estivera lá.
                - “Tu te tornas eternamente responsável pelo o que cativas”.
                Eu disse como que para eu mesma e suspirei enxugando os olhos. Agora não chorava mais com culpa, ou com indignação, chorava apenas de saudade de mesmo, do vazio que foi aberto por sua ausência, minha contadora de histórias, minha heroína, minha amiga, tantos momentos que não voltarão mais.
                - Você causou um reboliço aqui quando foi embora! Grandes mulheres são assim e você foi uma grande mulher, grande demais para ser compreendida, talvez até mesmo para se compreender não é mesmo?
                Continuei fitando as estrelas e de súbito tive a impressão de ver uma espécie de lobo, coiote nas estrelas, achei aquilo engraçado ou talvez estivesse apenas delirando.
                - Agora deu para falar sozinha?
                - Deus do céu!
                Meu susto foi tão grande que eu praticamente cai daquele banco sentada na areia. Ela estava em pé ao meu lado, eu não a vira chegar, não sabia quanto tempo estava ali, tão pouco como havia chegado ali. Olhei confusa para todos os lados, tentando entender, mas ela nada disse, apenas sentou ao meu lado e como era melhor não perguntar nada para não ter que explicar porque eu tinha fugido, deixei pra lá.
                - Ahn estava falando com as estrelas...
                - Hum.
                - Para mim elas são como porções de nós mesmos, frações de nossa alma, espelhos, assim como são frações daqueles que se foram e podem nos ensinar através de sua sabedoria, através de cada faceta, por isso alguns dizem que Arianrhod é a Senhora das Estrelas, a Senhora da Ancestralidade, pois ela guarda estes portais...
                - Interessante.
                - Assim como, contadores de histórias, de lendas, mitos, trazem em sua essência facetas, ensinamentos, segredos que precisamos encontrar, partes de nós mesmos que foram perdidas, como se este parque por exemplo fosse um grande deserto e aqui tivéssemos perdido milhões de partes de nós e devêssemos vasculhá-lo para encontrá-las. Ao trazer estas histórias, mitos, eles nos lembram destas partes, destas faces, destes mitos que na verdade contam sobre nós mesmos.
                - Muito interessante.
                - De alguma forma minha avó foi a La Loba para mim, aquela que conta as histórias e que é capaz de fazer estes pedaços perdidos no deserto se levantarem, que é capaz de encontrá-los, fazer com que eles se unam e tornem o espírito uno novamente. Inteiro, talvez por isso tudo tenha se despedaçado, foi como se o encanto tivesse se quebrado.
                - Mas se ela tinha o poder, você pode tê-lo herdado não?
                - Será?
                - Por que não experimenta juntar a si mesma ao invés de se despedaçar? Fugir?
                Eu não ousei responder, fiquei parada a olhando em silêncio. Será que eu poderia ser a minha própria fonte de cura. Será que teria herdado o mesmo dom de contar histórias e fazer as coisas se transformarem diante do meu olhar? Seria eu também uma Loba? Meu coração parecia incerto, atormentado, ansioso, apertado, esperançoso, mas ao mesmo tempo temia esta esperança, porém eu precisava arriscar, talvez este era o legado que ela queria me deixar.

29 de janeiro de 2011

4° Capítulo: A Caixa de Pandora

                Aquela noite caia outra tempestade e eu a fitava da janela em silêncio, os raios riscavam os céus, os trovões faziam tudo tremer em volta, era tudo tão assustador quanto belo. Meus pensamentos estavam mais distantes do que nunca naquele momento, eu me sentia ausente, um corpo inerte, como se a vida corresse lá fora e nada importasse, como se a tempestade na verdade ocorresse aqui dentro e não importava o que acontecia lá fora e esta sensação era estranha, como tantas outras que eu nunca havia experimentado, é engraçado como ainda pode haver algo de novo em coisas tão conhecidas.
                Senti sua mão repousar sobre meu ombro, como que me puxando para realidade, ou talvez me afundando ainda mais para dentro daquela tempestade interna não sei. Ela sentou ao meu lado e me fitou longamente como tentando decifrar meus pensamentos, eu apenas fiquei a observando em silêncio, não sabia exatamente o que dizer, ou talvez se começasse a falar aquela tempestade sairia de dentro de mim e despejaria um rio de sentimentos que eu não compreendia, então apenas continuei a olhá-la.
                - Silenciosa hoje?
                Eu apenas assenti com a cabeça e ela voltou os olhos para tempestade e ficou a observá-la como antes eu estava fazendo.
                - Você nunca sente medo ou se sente sozinha? – eu finalmente disse.
                - Acredite, eu nunca estou sozinha, sempre tenho alguma companhia, mais do que gostaria e solidão, não tenho medo de solidão.
                - Hum... eu as vezes tenho pena de você.
                - Nunca sinta pena de ninguém! Especialmente de mim!
                - Desculpe, creio que não usei a palavra correta, não é pena, deixa eu tentar me expressar melhor. É que você é tão incompreendida! Eu mesma, te conheço há tanto tempo e por vezes te odeio, tenho vontade de... assassiná-la! E não compreendo porque vem, porque volta, porque existe! E eu te conheço, você conhece minhas entranhas, minhas verdades, partes que eu não ouso falar em voz alta e você sabe, por mais complicado que seja o que temos, vivemos, enfim é algo profundo, intenso, talvez único.
                Eu precisei parar alguns instantes para recuperar o fôlego enquanto ela me observava sem entender onde eu estava tentando chegar.
                - Mas no mundo lá fora, a maioria das pessoas fogem de você, elas negam sua existência, te vêem como fraqueza, como fuga, sei lá, são tantos nomes, tantas justificativas, desculpas, porque no fundo elas não querem encarar de frente a verdade, o que elas são, seus medos, suas vísceras, aquilo que dói, aquilo que está lá dentro delas, elas preferem viver uma mentira do que ser elas mesmas, elas temem a sociedade, os tabus, a religião, as regras, na verdade elas temem elas mesmas, porque é impossível encarar estes olhos frios, cristalinos, profundos como o oceano que me dragam para as profundezas do meu ser sem ter muita coragem, muita força e ainda sair viva, ter força para voltar a superfície. Você é um desafio, um desequilíbrio que começa sem motivo, ou por algum motivo, que nos tira dos eixos, que nos leva para dentro, é como o minotauro do centro do labirinto, somente os heróis conseguem vencê-la e somente os heróis a encontram.
                Eu baixei minha cabeça confusa, com a ferocidade dos sentimentos que todo aquele discurso insano me despertara, eu estava dando poder a ela, talvez mais poder do que eu deveria, mais ao mesmo tempo me investia do mesmo poder, agora não era momento para pensar, eu já havia dito, era momento de sentenciar a minha sina.
                - Eu me simpatizo com sua dor, eu me simpatizo com a sua incompreensão, porque eu sinto o mesmo, quando nos encontramos, eu percebo tudo isso, eu percebo que as pessoas acham que é tolice, fraqueza, bobagem, fuga, preguiça, mas na verdade é muito difícil ser o que você é e eu honro isso em você...
                Ela parecia uma estátua petrificada a minha frente, olhando-me com um misto de surpresa e pavor.
                - Em meio a tanta gente, a tanta loucura que eu vejo no mundo, a tantas pessoas que não se importam umas com as outras, apesar de todas as nossas diferenças, de todos estes sentimentos confusos que você desperta em mim, você sempre me faz lembrar o que há de melhor e pior, de minhas limitações, de que somos apenas humanos e passíveis de erros e que por vezes precisamos parar e colocar as coisas em ordem, olhar para dentro e tentar entender o que está acontecendo e por isso, por tudo isso, creio que você é um símbolo de humanidade por mais contraditório que isso possa parecer...
                Então algo inesperado aconteceu, aqueles olhos vítreos, quase sempre límpidos, sem expressão, sem fúria, sem alegria, sempre com aquela apatia e profundeza tão peculiares, fitaram os meus com um ar de surpresa, como se a caixa de Pandora tivesse sido aberta naquele momento e uma lágrima, uma única lágrima escorreu pelo rosto dela. Ela nada disse, apenas continuou me olhando, eu apenas supus que nunca haviam dito isso a ela antes e fiquei ali parada olhando para ela. De súbito ela beijou meu rosto e voltamos a fitar a tempestade em silêncio. Ela era meu minotauro e eu sua heroína, por mais irônico que tudo isso pudesse parecer.

27 de janeiro de 2011

3° Capítulo: Reflexões

Eu estava deitada fitando o céu, imersa em meus pensamentos, distante, muito além desta realidade. Ela nunca se direcionava a mim, ou ao menos eram poucos estes momentos, a maior parte do tempo eram monólogos, devaneios ou contemplação apenas, como se ela lesse tudo que se passava em meus pensamentos, mas de súbito sua voz irrompeu o silêncio e eu até me assustei com suas palavras.
                - Você se sente sozinha?
                Eu ergui minha cabeça e a fitei, as palavras primeiro vieram a minha boca com muita pressa, contudo eu as interrompi e tentei organizá-las melhor e fiz uma viagem por minha linha do tempo, meus sentimentos, sensações, desejos, motivações, buscas e tornando a fitar o céu, como procurando o mapa de minha própria estrada comecei a divagar...
                - É engraçado, num primeiro momento nós imaginamos que só podemos ser felizes se tivermos alguém do nosso lado, se encontrarmos a pessoa amada. Imaginamos príncipes e princesas, amor para sempre, desenhamos flores e corações, sofremos, choramos, nos apaixonamos, nos desiludimos, acreditamos no “felizes para sempre”! Tudo parece tão simples e ao mesmo tempo tão complicado, parece que toda a nossa vida gira em torno disso, encontrar alguém.
                Suspirei pausadamente, deixando aquele turbilhão de idéias percorrerem todo meu corpo, enquanto sentia aqueles olhos me observando com um ar de curiosidade, de certo deslumbramento.
                - Vivemos em função disso e procuramos no outro a felicidade, dependemos da realização deste sonho para termos nossa vida completa e sem perceber nos vemos escravos desta dependência. Como podemos amar alguém se sequer amamos a nós mesmos? Como partilhar algo com alguém se não sentimos isso por nós mesmos? Como depender do outro para alcançar algo que não temos em nós mesmos? Por isso não há como ser feliz, não há como não se sentir sozinho mesmo estando ao lado de alguém, porque temos que buscar primeiro isso dentro de nós mesmos, para então podermos compartilhar isso com o outro.
                - Mas você acha que é possível alguém se amar plenamente? Completamente? Como saber que está pronto para compartilhar? Não seria esta busca uma ilusão?
                - Não, ilusão é viver uma mentira, uma dependência, buscar no outro o que não existe em você, um castelo de cartas, fingir viver um conto de fadas, quando lá dentro você não encara suas próprias verdades. Não é fácil a tarefa de amar a si mesmo, de encarar as próprias verdade, de conhecer seus medos, de encará-los de frente, é um processo que provavelmente nunca terá fim, sempre haverá algo novo a ser descoberto, a ser mudado.
                - Você é feliz?
                - Eu sou... bem, eu achava que era até encontrá-la...
                - Não encare o nosso encontro como uma desilusão, ou um motivo de tristeza, encare como um convite para olhar para dentro, para refletir, para se conhecer um pouco mais, mais  a fundo.
                Ela desviou seus olhos e passou a fitar o céu, ficando em silêncio de súbito, com uma expressão indecifrável, como se tudo que eu havia dito tivessem a feito refletir, mas havia certa serenidade em sua feição, como se aquilo que ouvira tivesse a agradado de alguma forma, como se tivesse amadurecido desde o nosso último encontro e certamente eu sabia que isso havia acontecido. Secretamente eu sorri e continuei.
                - Eu me sinto sozinha quando estou em sua companhia, é uma solidão estranha, é uma solidão dentro de mim mesma, mas eu tenho alguém, alguém especial, alguém que me faz sorrir, um porto seguro, alguém com quem compartilho amor, amizade, paixão, sonhos, enfim, um amor de verdade, não uma ilusão, eu me sentia feliz...
                - Sente
                - Sinto, mas atordoada.
                - É isso que eu te causo, atordoamento?
                - É como uma dependência química, um mal necessário, um vício, uma sensação que me leva as profundezas do que eu sou, que me faz enxergar além da superfície, que me torna extremamente poética, sensível, observadora, que me toma os sentidos, que me tira do mundo, que me leva para outro lugar, para um mundo paralelo, outra realidade não sei, quando estou na sua presença tudo se torna turvo, como se eu estivesse no fundo de um oceano profundo, tudo é belo, ao mesmo tempo escuro, ao mesmo tempo repleto de cor e lembranças, é confuso. 
                Ela apenas balançou os cabelos dourados em desaprovação e me fitou com aquele ar enigmático.
                - Quando você vai embora eu desejo que nunca mais volte, quando você chega eu me apavoro, quando você está aqui em alguns momentos eu a odeio, em outros, como agora eu vejo coisas que só vejo em sua presença, em outros é como se estivesse entorpecida, por isso digo que é como uma dependência, é algo que não tenho controle, que não sei prever, que não sei como começa, por que começa e quando termina.
                - Eu sou apenas o abismo que reside em você, encare assim.
                - E se eu não quiser mais olhar?
                - Terá que voltar para o conto de fadas.
                - Ou seja, uma vez que toma a pílula não tem volta não é mesmo?
                - Mais ou menos assim...
                - Entendi.

26 de janeiro de 2011

2° Capítulo: O dia seguinte

Me perdi naqueles olhos indecifráveis, naquela imensidão como o oceano, sem perceber me afogava, mas ali hipnotizado por aqueles olhos, por aquele olhar, parecia que nada mais me importava, nada mais me tocava, tudo naquele olhar me tomava os sentidos, o ar, os pensamentos.
Sem perceber eu mergulhava cada vez mais fundo e quão mais fundo eu ia, era como se atingisse mais fundo de minha própria consciência, de minha verdade, de meus medos, como um único olhar, podia refletir tanto de mim mesma? Como um único olhar podia me levar tão longe? Onde ninguém havia me levado? O profundo, leva ao profundo não é mesmo? Murmurei para mim mesma em meio aos meus devaneios.
Meus dedos deslizaram por seus cabelos, eram como fios de ouro que escorriam por minha mão, fazendo recender aquele aroma inebriante, fechei meus olhos e deixei apenas o peso do meu corpo cair sobre a cama, fitando o teto, sentindo minha cabeça girar. Era como se lampejos tomassem minha cabeça de súbito, flashes de meu passado, lembranças perdidas, algumas boas, mas que deixaram muita saudade, outras amargas como fel, outras doloridas que insistiam em doer, outras feridas que apenas mulheres seriam capazes de compreender, outros sonhos que estouram como bolha de sabão deixando apenas aquela lembrança multicolorida no ar. Por que carregamos tantas coisas? Sentimentos? Lembranças? Dores? Marcas?
Se tais fossem feridas de batalha, como guerras que vencemos ou perdemos, certamente meu corpo estaria recoberto delas, talvez não houvesse espaço para novas, talvez fosse isso, nestes tempos nós não honramos nossos ganhos, nossas perdas, nossas dores, não há honra sequer, não há batalha, muitas vezes sequer valor, apenas em alguns momentos muita vergonha, medo, solidão, como naquele momento. Se não fosse por minha companheira de olhos vazios e imensos como o oceano, nada mais eu teria, só minhas marcas de batalha, só as feridas que eu e ela conhecíamos.
Me ergui e me coloquei de frente ao espelho, ali me despi, completamente, ela apenas me observava com aqueles olhos inertes. Peguei seu batom vermelho, rubro como seus lábios e disse a ela:
- Vamos celebrar nossas mortes, nossas vitórias e fracassos, se assim foi, que assim seja, temos que honrar tudo que somos afinal, de bom ou de ruim. Você já está aqui mesmo não é? Deve haver algum sentido nisso também.
Ela apenas assentiu balançando seus cabelos, mas seus olhos agora pareciam como uma tempestade furiosa, como se minhas palavras despertassem algo nela além daquela frivolidade, como se aquele quê selvagem também repousasse dentro dela, dentro de mim, dentro de cada um de nós, mesmo em momentos como aquele.
Comecei a mentalizar cada uma daquelas cenas, tristes, saudosas, medonhas, vergonhosas, cada derrota, cada morte, cada reencontro com ela, enfim cada batalha, vencida ou perdida, cada momento em que ganhei ou perdi o meu poder e pintei uma cruz em meu corpo, onde sentia aquele sentimento, aquela raiva, angústia, tristeza, vergonha, enfim. Ao final eu parecia um mapa vermelho, ensangüentado, um atropelamento de trem, não deixei de achar graça, mas era assim que eu me sentia e apenas disse.
- Descanse em paz.
Neste momento nem ela resistiu e soltou uma gargalhada, tão sonora, tão alta, tão esganiçada, que eu até parei para olhar se não estava de fato enlouquecendo, mas mediante a cena tão inusitada e cena tão patética, eu também comecei a rir e rimos por tanto tempo, que precisamente não sei contar, sei que ao fim estava novamente caída na cama, sem fôlego, olhando para o mesmo teto, toda manchada de batom, mas sentia-me mais leve, como se realmente tivesse me libertado daqueles fantasmas. Agora restava compreender a realidade e o porque daqueles olhos que insistiam em me fitar.

25 de janeiro de 2011

1° Capítulo: Reencontro


Aquele parecia um dia qualquer, eu caminhava pelas ruas habituais indo em direção a minha casa, mas uma chuva torrencial me pegou de surpresa, daquelas que não dá para correr para chegar em casa, que você tem que parar no primeiro lugar a sua frente e esperar, pois você não sabe o que acontecerá em seguida e o Governo sempre vem com as mesmas desculpas de sempre, enfim. Entrei na primeira porta que vi em minha frente e certamente era um daqueles lugares, que se não fosse aquela maldita tempestade eu não entraria, tinha um aspecto descuidado, as cadeiras e mesas de madeira velha, o lugar mal iluminado, as pessoas sujas e molhadas pela chuva davam ao lugar um cheiro e aspecto ainda mais descuidados, para não usar outro vocabulário, mas não havia o que fazer naquele momento, sentei numa cadeira vazia, numa mesa mais ao canto, onde me parecia que não seria perturbada, tirei o casaco molhado, deixei numa cadeira ao lado, junto com meus pertences e tentei não olhar muito ao redor, peguei meu celular e é claro, não tinha sinal nenhum, suspirei e fiquei ali, olhando o nada por alguns instantes.
Foi naquele momento, naquele exato momento que ouvi seus passos cruzarem o salão, não havia como confundi-los, especialmente quando aquele perfume inebriante invadiu o ambiente junto com o cheiro forte de chuva que vinha lá de fora. Eu não ousei erguer os olhos, eu não quis erguer os olhos, devia ser um engano, não poderia ser, mas aquele perfume, aquele andar? Eram de fato inconfundíveis! Meu coração acelerou, aquele peso no peito logo se fez presente, parecia que até mesmo a respiração me faltava naquele momento, mas mantive meus olhos baixos, talvez não me reconhecesse, talvez estivesse ali por algum outro motivo.
- Tem fogo?
Meu deus, aquela voz! Aquela voz só poderia ser, não tinha outra voz assim, o desespero quase me tomou a garganta e me deu uma vontade súbita de gritar, tudo que consegui dizer entre dentes foi.
- Não fumo.
- Ah... – acendeu seu próprio cigarro, puxou a cadeira ao meu lado e se sentou como se nada tivesse acontecido. Pude sentir seus olhos sobre meu rosto, procurando meus olhos, me observando atentamente e eu não sabia simplesmente o que fazer, dizer, tão pouco o que pensar daquela presença, daquela aparição, daquele fantasma ali sentado em minha frente. Ergui a minha mão, com sorte aquele lugar teria algum garçom ou qualquer coisa parecida que pudesse me servir um drinque ou qualquer coisa que tornasse aquele reencontro um pouco mais palpável, porque fácil ele jamais seria. Sem repousar meus olhos naquela direção, pedi um cowboy duplo, puxei o cigarro que estava no centro da mesa e acendi, tragando violentamente. A nicotina, há tempos não sentia aquele gosto amargo em minha boca, quando soltei a fumaça, baixei os olhos lentamente e eis o que vi:
Ali estava ela, impecável como sempre, sua pele pálida, branca como a neve, seus olhos cristalinamente azuis, combinavam perfeitamente com sua maquiagem levemente borrada preta, que destacavam ainda mais aqueles olhos vítreos, espelhados, com aquelas pequenas olheiras sempre ali presentes, que não sei porque sempre achei que davam um ar de humanidade, de imperfeição, para aquele rosto vítreo, imóvel, indecifrável como o oceano, emoldurado por aqueles cabelos em ondas, de fios dourados como sol ao amanhecer, de tão claros, dando a ela este ar pálido e perfeito, distante e vívido com estes lábios sempre rubros, intocados, intocáveis, indecifráveis. Ela não mudara um único dia.
A minha bebida chegou e virei o copo de uma única vez, era a única maneira de começar algum diálogo, se é que haveria algum, contudo era a única maneira de permanecer ali em meio aquela chuva torrencial e manter a sanidade, vendo-a me encarar como se o tempo não tivesse passado, me questionando porque ela estava ali e o que desejava. Suspirei em fim, depositando o copo sobre a mesa e fiquei a observá-la, assim como ela me observava.
Entenda, eu não a odiava, eu só não entendi a sua presença ali, naquele momento. Eu estava bem, feliz, tinha uma vida bem estruturada, com muitos planos pela frente, mas já havia conquistado muitas coisas e não havia sentido de vê-la ali sentada na minha frente com aqueles olhos, com aquele olhar, se fosse em outra época, em outro momento, eu compreenderia, mas agora? Este era o meu entrave, eu não conseguia compreender. Ela é uma daquelas pessoas que te conhecem a fundo, não que conhecem você no seu dia a dia, que sabem que cor você gosta, que restaurante, filme, mas que conhecem aquela parte de você que você não mostra para todo mundo, bem verdade que você não mostra para ninguém, porém ela conhece e conhece bem, porque ela está ali neste momentos. Ela conhece suas entranhas.
Eu nunca a chamei de amiga, ou inimiga, de amante, sequer perguntei o seu nome, é como se qualquer palavra, qualquer significado que eu desse pudesse quebrar aquele laço de confiança, aquele vínculo que se fez. Ao mesmo tempo que ela era o vazio, ela que me levava para partes de mim que eu não conhecia e que me levaram a compreender outras coisas. Assim como ela era a solidão dentro de mim mesma, ela era a compreensão de que eu era a plenitude que eu precisava. No entanto, os sentimentos que ela me apresentou, que eu vivenciei com ela foram tão profundos, confusos, que em alguns momentos eu pensei que perderia a razão, que não encontraria o caminho de volta, em outros desejei simplesmente desaparecer e que ela me deixasse em paz, somente isso, em outros era apenas silêncio, confuso, apático, como aqueles olhos que agora me fitavam. E agora eles estavam ali.
Olhei a minha volta e ninguém mais parecia notar sua presença, alguns parecia olhar o noticiário, outros estavam bêbados demais para notar qualquer coisa, outros conversavam alegremente, outros estavam com aquela feição preocupada, mas ninguém parecia notar aquela bela e apática mulher sentada a minha frente, foi como se o mundo a minha volta começasse a descolorir e ao olhar para ela novamente, apenas seus lábios mantinham a cor, rubros como sempre. Ela estava ali por mim mais uma vez, para mim, mesmo que eu não compreendesse o porquê.
Toda esta consciência parecia me drenar as forças, me tomar os sentidos. Eu apenas ergui meus olhos e a fitei, longamente, lembrando de tudo que vivemos juntas, cada momento que passamos, cada história, cada riso, cada lágrima, cada tormento, cada delírio, cada surto, cada sonho, cada cápsula, até o dia que ela partiu da mesma forma que surgiu, assim sorrateiramente. Senti como alguém que se rende, não por fraqueza, mas porque aqui não há luta. Apenas sorri de canto e ela retribuiu.
- Espero que seja breve – eu disse enfim, num último rumor de esperança.