14 de abril de 2019
Jornada do Louco
Eu podia ouvir seus passos ecoando pelo laminado, aqueles mesmos passos ritmados, dançando debochadamente atrás de mim, não havia como confundir seu cadenciado. Então aquele perfume adentrou no ambiente e lembrei de um tempo em que temia tais passos, tanto quanto os desejava, minha ambivalência preferida! Era como se entrasse em um túnel do tempo e pudesse ver os milhões de flashes onde ansiava ou temia sua chegada, cada tilintar era um coração aflito que saltava, mas ao encontrar aqueles grandes olhos, janelas para imensidão e aquele sorriso sempre debochado de quem está sempre perto de partir novamente.
Há quantos anos a conhecia? Há quantos anos nossas histórias eram como uma? Entrelaçadas por lembranças, mágoas, verdades, segredos, pecados capitais… nada no mundo me alcançou com esta profundidade antes ou depois.
Ela diria que impus barreiras muito duras, obstáculos inalcançáveis, tarefas hercúleas para quem ousasse se aproximar de mim e do meu castelo encantado, repleto de armadilhas. Era engraçado como ela sempre transformava limites em alegorias, medos em feras abissais, dúvidas em montanhas a serem escaladas.
E neste momento encontrá-la não é meramente figurativo, mas necessário, como um pacto a ser feito, uma despedida, um enlace, uma incorporação…
Meus olhos então viraram em sua direção e ela mordia os lábios num gesto de ansiedade e lá estava ela, perfeita como sempre, intocada pelo tempo, desnudando-me com um único olhar e desta vez já não ligo, porque de todas as imperfeições ela fez morada, de todos os medos piadas, de todas as dúvidas charadas, de toda tentativa de fuga uma pegada, não havia nada, nada que eu pudesse esconder.
Eu finalmente dei um suspiro e a abracei em reconhecimento, ela sabia o que aquilo significava, palavra alguma era necessária. E ali afundada em seus braços eu podia ser apenas eu mesma, despida de máscaras, rótulos, sentido.
Ali poderia ficar uma eternidade, naquele perfume inebriante, na maciez de sua tez, na ausência de escárnio ou julgamento, apenas acolhimento e identificação.
Eu a criei assim, para ser perfeita, para ser tudo que não me permito ser, tudo que não ouso, tudo que me envergonha, tudo que me limita ou temo, ainda que não saiba exatamente o porquê. Toda aquela segurança e certeza no olhar, enquanto eu uma bússola sem norte.
Um dia fui tantos personagens, sonhadora, romântica, refém, vítima e algoz. A poesia vertia de meus dedos, os sonhos espalhafatosos se amontoavam na janela e olhos fixos na lua brilhante no céu, esperando aquele momento do salto do louco para mais uma jornada…
Mas a cada roda tanto veio e tanto se foi, torres que perderam suas bases e ruíram para o novo vir trazer semente, assim foram tantas vezes! Sem perceber arrastei comigo vários fantasmas e esqueletos, tentei entrar em espaços que não me cabiam, ou ocultar meu crime cometido. Sinto que a cada passo o que havia de selvagem, natural, visceral, latente, tudo aquilo foi sendo colocado nela, minha bela Rosa.
Mas ao olhar ao redor mais uma vez é como se o instinto me faltasse, visse refletido nos espelhos do passado e nas incertezas do futuro, tudo que se perdeu e não foi recomposto. Sementes que foram sendo guardadas para um momento propício de início de primavera, mas que então adormeceram esperando…
Ela então sussurrou:
- É como vislumbrar uma enorme tela em branco não é mesmo?
Deslizou seus dedos suavemente desembaraçando meus cabelos.
- Poder começar de qualquer ponto, com qualquer cor desejada, qualquer formato, ou até mesmo nenhum…. Poder escrever suas próprias palavras e desejos, quiçá seus medos e anseios! Qualquer coisa!
Ela ergueu meu rosto com seus dedos e me fitou diretamente.
- No entanto aqui está, olhando para a tela da sua vida, de infinitas possibilidades e permanece estática, como uma estátua, um corpo mumificado.
Silenciou por alguns segundos como se pensasse.
- Será que calou sua voz tantas vezes que desaprendera a falar? Será que verteu tantas vezes suas lágrimas que secaram? Tornou-se oca? Ou talvez insana?
Ela deu uma daquelas risadas largas e provocativas, que só ela é capaz de ressoar.
- Saiba que quanto mais olhar para o abismo, mais ele a olhará de volta, até que não saiba mais quem és ou quem é o abismo que fita.
Beijou suavemente meu rosto, fazendo-me arrepiar pelo toque quente de seus lábios em minha pele naturalmente fria.
- O tempo minha cara, ele é inexorável e começa a nos devorar por dentro e quando menos esperamos somos pó novamente. O agora é sua melhor chance, sua melhor performance...
Dei um suspiro tão profundo que pensei que desfaleceria.
- Sei que não posso ficar aqui para sempre e talvez tenha passado tempo demais aqui fitando o universo e tecendo teorias sobre minha própria existência. Estes dias li que as coisas verdadeiramente importantes não são as conhecidas, as que compreendemos, mas sim aquelas que sentimos…
- Sim, conhecer as razões não torna a verdade mais reconfortante ou menos real, mas dar novo significado ao hoje sim.
- Significado, signo, símbolo, valor… atribuir a algo um verbete que nos faça sentido, ou seja, não meramente conhecer a palavra, mas reconhecê-la com seus sentidos.
- Ela ainda mora dentro de você, mas para encontrá-la precisa deixar de temê-la, assim como suas imperfeições e erros, abraçar todas as partes que te fazem quem és.
- Talvez seria mais fácil se não tivesse atribuído a você todas estas qualidades, eu sou apenas a roteirista e você a atriz que encena este texto. Dei vida a criatura e a mim razão para controlá-la!
- Tudo isso, tudo nada mais é do que medo de não ter controle, de não saber, não ter como antever, de ser pega de surpresa em suas vulnerabilidades. Todos são assim! Tememos o que não conhecemos, o que nos soa diferente, inexplicável, ou que simplesmente não saibamos ou não tenhamos como controlar, tal qual a morte.
Sim…
Para isso serve o instinto, para alertá- la dos perigos e se não der certo? Todos nós temos o direito de ser tolos. Mas principalmente de recomeçar!
Internamente desejava que tais palavras fossem tão fáceis de se colocar em prática quanto soavam verdadeiras. Era como um embate interno que mais uma vez me arrastava entre a dicotomia de bem ou mau, certo ou errado, a mesma corda a qual me atei por uma vida inteira. A placidez da superfície do oceano tranquilo, ocultando a ferocidade de suas correntes e marés.
- Salte! Apenas salte...






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