19 de abril de 2019
O Momento Antes do Salto
O problema não é o salto, mas sim o momento que antecede o salto. Os murmúrios da plateia ouvidos do lado de dentro da coxia, os infinitos segundos que antecedem o primeiro beijo. É como se estivéssemos em suspensão, a mente percorrendo todos os caminhos, verificando todas as possibilidades, os “se”, as incertezas, os medos, tudo aquilo que nos deixa vulnerável está presente e ao mesmo tempo a certeza que se permanecermos no mesmo lugar, com as mesmas crenças, nada irá mudar.Eis que surge então a coragem, mesmo diante do medo mortal de tudo dar errado. Pulamos!
A adrenalina provocada pelo salto, a euforia, todos estes sentimentos de exaltação nos percorrem e dão sentido a vida tal qual conhecemos, nos sentimos vivos, invencíveis, mas este momento é igualmente fugaz, porque além do salto nada é conhecido, todas as possibilidades estão abertas e somos humanos, tememos o desconhecido ao mesmo passo que somos atraídos por ele, tememos a vulnerabilidade do momento, tememos que não aja nada mais além daquele salto.
Porém, não é de fato o que virá depois que importa, o que importa é o arriscar-se, sentir-se vivo, ter a coragem de ser o veículo da mudança, ousar fazer algo diferente, sair da famosa zona de conforto.
O conhecido nos conforta, sua familiaridade de cores, cheiros, sabores, nos trás aquela falsa sensação de segurança, de saber exatamente onde estão as bombas deste campo minado. Ainda que o conhecido seja nossa própria prisão, que nos faça caminhar nos mecanismos automáticos de nosso cérebro, como um trem que cumpre seu roteiro diário, mas se nos perguntarem sobe o dia que se transcorreu... é capaz que não consigamos descrever de fato, pois tudo parece um sonho nublado, vazio, torpe, sem sentido...
Voltando ao salto e suas incertezas, precisamos ser sinceros, até mesmo nossa única certeza é coberta de incertezas. Sabemos que a morte é o fim deste corpo tal qual conhecemos, mas e depois? São tantas versões da mesma realidade, tantas suposições, ainda que existam pistas não existem certezas e tenho certeza de quem as conhece não contaria, pois não somos movidos por nossas certezas, mas pelas coragens, enfrentamentos, por nossos medos, ainda que fugindo deles ou inconscientemente indo ao seu encontro.
Pular é mais do que uma metáfora, é manter-se vivo, sentir a adrenalina do momento e a incerteza de nossa própria natureza e sentença. O salto é tudo aquilo que fazemos quando estamos aterrorizados, ou o momento que ficamos olhando as nuvens imaginando o salto, congelados por nossas incertezas.
Imagine se um bebê não arriscasse dar o primeiro passo? Que pelo medo ele permanecesse no colo confortável de sua mãe, quantas coisas ele perderia? Quantas experiências estaria deixando para trás em nome deste medo? Porque o primeiro passo é também o início de todas as coisas, da nossa jornada rumo à independência e até então não conheço uma única criança que não o tenha feito!
Por que temos tanto medo? Acredito que da mesma forma que o desconhecido parece mais interessante a criança, do que a dependência de seus pais, a dependência do outro é o que nos cega para nossas próprias escolhas. O medo de errar, o medo de sermos julgados, o medo de parecermos tolos, o medo do que dirão a nosso respeito. Ao contrário daquele primeiro passo, onde ousamos e começamos a nos individuar, fica uma certeza de que um dia trilharemos sozinhos, mas nossos elos ainda estarão presentes ao longo de toda jornada, tanto quanto o medo que nossa vida, nossa felicidade não esteja em nossas mãos, que dependamos dos outros.
Eis que o medo de nos sentirmos desprotegidos, desnudos diante do outro, de que teremos que expor nossos sonhos, medos, erros e vergonhas. Tudo isso faz com que nos sintamos tal qual aquela criança diante do seu primeiro passo, vulneráveis.
Então não importa quantos “se” percorram os nossos pensamentos, a essência está na tentativa, no arriscar-se, saltar quantas vezes seja necessário, erguer-se tantas outras vezes mais, porque tudo é transitório e se nos entregarmos aos nossos medos, estaremos presos em nós mesmos para sempre.
Bom salto!






0 comentários:
Postar um comentário