É estranho pensar que nos apegamos tanto aos “se”, como se fosse garantia de algo.
“Se meus pais tivessem feito diferente...”
“Se eu não tivesse aceitado a proposta...”
“Se eu não tivesse conhecido”
Ao mesmo passo que condicionamos nosso futuro
“Se eu ganhar um aumento...”
“Se eu conseguir arrumar tempo..”
“Se ela entendesse o meu lado...”
Talvez esta forma de encarar as coisas seja uma maneira de se isentar das responsabilidades, porque sempre estaremos vinculados a algo ou a alguém, nunca seremos o objeto central da questão, do erro, da mudança, sempre haverá uma força externa que justifica nossas ações e omissões.
No fundo esta é uma das ideias de conforto que criamos. Vejamos, duas crianças, gêmeas, criadas pelos mesmos pais, mesmos valores, mesmo contexto social, emocional e econômico, não são iguais. Em tese deveriam ser idênticas, pois tiveram o mesmo tipo de exposição e experiências. O que muda então? Se aqui não é o “se”, uma vez que tiveram exatamente o mesmo ambiente de criação? Não foram as ações dos pais, ou das pessoas ao redor dela que as tornaram diferentes, mas sim a forma que cada uma recebeu exatamente a mesma informação.
Pergunte a pessoas diferentes a opinião sobre alguém, quanto mais pessoas perguntar, mais respostas distintas você terá, porque a forma que vemos “o outro”, parte do nosso universo pessoal, das nossas experiências e como as registramos. Toda nossa realidade não é de fato real, pois consciente ou inconscientemente nós escolhemos o que ver, como ver, como reagir.
Ao contar uma história cada um lerá de uma forma diferente, ao mesmo passo que contar a mesma história em momentos distintos, também mudará a forma que a mesma pessoa receberá a mesma história. Talvez porque não acredita mais em lobo mau, talvez porque não tenha mais avó para levar doces, talvez porque já conhece o final da história então a “magia” foi desfeita e aquela metáfora não faz mais sentido para sua realidade.
Assim sendo olhar para nossa vida e condicionar a uma série de ações, omissões, ausências ou presenças, este é apenas o cenário, pois ao fim o que muda é a maneira com a qual vamos receber cada um destes acontecimentos, como iremos lidar com cada uma das frustrações, com cada medo, com cada vitória.
Olhar para o passado em busca de respostas, muitas vezes te trará várias hipóteses do porquê é, quem é, porque chegou onde está, mas ao colocarmos um “se”, vincular uma hipótese ao fato, apenas nos afastará da possibilidade de mudança. O passado é o que é, não pode ser mudado, seus fatos estão além do nosso alcance, assim como mudanças hipotéticas poderiam nos trazer exatamente ao mesmo caminho só que por estradas diferentes.
Não deveríamos desperdiçar nossa energia com hipóteses, mas sim com releituras, dar significado a cada um dos momentos que nos levaram numa determinada direção que julgamos hoje nos aprisionar. Ao ressignificar um momento, uma história, é como se pegássemos as rédeas de nossa própria vida e disséssemos para nós mesmos que não sabemos exatamente para onde aquela estrada nos levará, ou as intempéries que podem ocorrer ao longo da jornada, mas podemos sempre mudar a maneira que recebemos cada uma destas experiências. Saímos do papel de vítima das circunstâncias e nos tornamos o roteirista de nossa aventura.
Uma palavra tão pequena não deveria ter tamanho valor em nossas decisões, sonhos, escolhas, pois ela representa apenas hipóteses que só fazem sentido se usadas para o momento presente. Sabemos que se pegarmos determinada estrada, em determinado horário pegaremos trânsito, se pegarmos outra um pouco mais longa, é provável que cheguemos em casa mais cedo, ou seja, temos algo que já ocorreu várias vezes para formarmos uma teoria e com base nisso tomamos uma decisão, além deste momento tudo que acontecerá não cabe mais na palavra se. Pode ocorrer um acidente na via mais rápida e ficarmos presos, um carro pode bater no nosso, podemos pegar a mais longa e aquele dia excepcionalmente estar vazia, mas isso não invalida a sua decisão.
Temos que aprender a abrir mão dos condicionamentos, olhar para nós mesmos com mais gentileza, assim como para o nosso passado e assumir que demos o melhor que tínhamos naquele momento, ainda que hoje as escolhas fossem diferentes, em seu exato momento elas eram válidas e ainda que fossemos capazes de mudar a escolha anterior, o que nos garante que nos levaria ao caminho que desejamos? Na verdade não temos como saber.
Somos o que somos pelo o que vivemos e a maneira que recebemos cada um destes acontecimentos e escolhas, temos apenas o agora, o presente em nossas mãos para efetuar a mudança, seja de um padrão, de um hábito, de uma forma de pensar, ser, existir, mas nada nos garantirá que o futuro será tal qual o planejado, pois o meu futuro está conectado ao futuro de todos á minha volta, qualquer decisão diferente da escolha provável pode mudar o todo.
Não importa quantos “se” pensemos, tão pouco quantas versões do agora podemos imaginar, o que nos dá força para seguir a diante é justamente o poder de decidir no presente. Responsabilizar atos e fatos fora de nosso universo condicionam apenas o nosso futuro a uma força exterior, então se as coisas derem “errado” você terá a quem culpar, contudo se as coisas derem muito certo, não será você a receber os “louros” da vitória.
Uma vida consciente e responsável parte desta premissa, de compreender, dar significado ao que vivemos e buscar a mudança para que não cheguemos no caminho anterior, que tenhamos infinitas possibilidades para continuar seguindo em direção aos nossos sonhos e felicidade.
Ter o peso dos erros pode ser ruim, mas os louros da vitória só virão para os que arriscam. As hipóteses só te prenderão as suas dúvidas e medos, como se constantemente perdêssemos o próximo ônibus e o próximo, as oportunidades vão passando a nossa frente e permanecemos no lugar seguro da incerteza, mas do que vale a incerteza diante da possibilidade de vitória?
Ser responsável é um ato de coragem, assim como só vencem os que correm, pois os que assistem nada ganham. A vida é uma ironia de si mesma, por isso não devemos perder tempo olhando pelas arestas e imaginando o que poderia ser diferente. Os erros não nos tornam incompetentes, nos tornam capazes, já que a cada erro aprendemos algo novo ou o que não fazer. As perdas nos fazem dar valor ao que temos. Os medos nos desafiam a sair da zona de conforto. A necessidade nos faz humildes. O Se, apenas permite que fiquemos indefinidamente onde estamos...












