Strony

20 de abril de 2019

Abrindo Mão dos “Se”



É estranho pensar que nos apegamos tanto aos “se”, como se fosse garantia de algo.

“Se meus pais tivessem feito diferente...”

“Se eu não tivesse aceitado a proposta...”

“Se eu não tivesse conhecido”

Ao mesmo passo que condicionamos nosso futuro

“Se eu ganhar um aumento...”

“Se eu conseguir arrumar tempo..”

“Se ela entendesse o meu lado...”

Talvez esta forma de encarar as coisas seja uma maneira de se isentar das responsabilidades, porque sempre estaremos vinculados a algo ou a alguém, nunca seremos o objeto central da questão, do erro, da mudança, sempre haverá uma força externa que justifica nossas ações e omissões.

No fundo esta é uma das ideias de conforto que criamos. Vejamos, duas crianças, gêmeas, criadas pelos mesmos pais, mesmos valores, mesmo contexto social, emocional e econômico, não são iguais. Em tese deveriam ser idênticas, pois tiveram o mesmo tipo de exposição e experiências. O que muda então? Se aqui não é o “se”, uma vez que tiveram exatamente o mesmo ambiente de criação? Não foram as ações dos pais, ou das pessoas ao redor dela que as tornaram diferentes, mas sim a forma que cada uma recebeu exatamente a mesma informação.

Pergunte a pessoas diferentes a opinião sobre alguém, quanto mais pessoas perguntar, mais respostas distintas você terá, porque a forma que vemos “o outro”, parte do nosso universo pessoal, das nossas experiências e como as registramos. Toda nossa realidade não é de fato real, pois consciente ou inconscientemente nós escolhemos o que ver, como ver, como reagir.

Ao contar uma história cada um lerá de uma forma diferente, ao mesmo passo que contar a mesma história em momentos distintos, também mudará a forma que a mesma pessoa receberá a mesma história. Talvez porque não acredita mais em lobo mau, talvez porque não tenha mais avó para levar doces, talvez porque já conhece o final da história então a “magia” foi desfeita e aquela metáfora não faz mais sentido para sua realidade.

Assim sendo olhar para nossa vida e condicionar a uma série de ações, omissões, ausências ou presenças, este é apenas o cenário, pois ao fim o que muda é a maneira com a qual vamos receber cada um destes acontecimentos, como iremos lidar com cada uma das frustrações, com cada medo, com cada vitória.

Olhar para o passado em busca de respostas, muitas vezes te trará várias hipóteses do porquê é, quem é, porque chegou onde está, mas ao colocarmos um “se”, vincular uma hipótese ao fato, apenas nos afastará da possibilidade de mudança. O passado é o que é, não pode ser mudado, seus fatos estão além do nosso alcance, assim como mudanças hipotéticas poderiam nos trazer exatamente ao mesmo caminho só que por estradas diferentes.

Não deveríamos desperdiçar nossa energia com hipóteses, mas sim com releituras, dar significado a cada um dos momentos que nos levaram numa determinada direção que julgamos hoje nos aprisionar. Ao ressignificar um momento, uma história, é como se pegássemos as rédeas de nossa própria vida e disséssemos para nós mesmos que não sabemos exatamente para onde aquela estrada nos levará, ou as intempéries que podem ocorrer ao longo da jornada, mas podemos sempre mudar a maneira que recebemos cada uma destas experiências. Saímos do papel de vítima das circunstâncias e nos tornamos o roteirista de nossa aventura.

Uma palavra tão pequena não deveria ter tamanho valor em nossas decisões, sonhos, escolhas, pois ela representa apenas hipóteses que só fazem sentido se usadas para o momento presente. Sabemos que se pegarmos determinada estrada, em determinado horário pegaremos trânsito, se pegarmos outra um pouco mais longa, é provável que cheguemos em casa mais cedo, ou seja, temos algo que já ocorreu várias vezes para formarmos uma teoria e com base nisso tomamos uma decisão, além deste momento tudo que acontecerá não cabe mais na palavra se. Pode ocorrer um acidente na via mais rápida e ficarmos presos, um carro pode bater no nosso, podemos pegar a mais longa e aquele dia excepcionalmente estar vazia, mas isso não invalida a sua decisão.

Temos que aprender a abrir mão dos condicionamentos, olhar para nós mesmos com mais gentileza, assim como para o nosso passado e assumir que demos o melhor que tínhamos naquele momento, ainda que hoje as escolhas fossem diferentes, em seu exato momento elas eram válidas e ainda que fossemos capazes de mudar a escolha anterior, o que nos garante que nos levaria ao caminho que desejamos? Na verdade não temos como saber.


Somos o que somos pelo o que vivemos e a maneira que recebemos cada um destes acontecimentos e escolhas, temos apenas o agora, o presente em nossas mãos para efetuar a mudança, seja de um padrão, de um hábito, de uma forma de pensar, ser, existir, mas nada nos garantirá que o futuro será tal qual o planejado, pois o meu futuro está conectado ao futuro de todos á minha volta, qualquer decisão diferente da escolha provável pode mudar o todo.

Não importa quantos “se” pensemos, tão pouco quantas versões do agora podemos imaginar, o que nos dá força para seguir a diante é justamente o poder de decidir no presente. Responsabilizar atos e fatos fora de nosso universo condicionam apenas o nosso futuro a uma força exterior, então se as coisas derem “errado” você terá a quem culpar, contudo se as coisas derem muito certo, não será você a receber os “louros” da vitória.

Uma vida consciente e responsável parte desta premissa, de compreender, dar significado ao que vivemos e buscar a mudança para que não cheguemos no caminho anterior, que tenhamos infinitas possibilidades para continuar seguindo em direção aos nossos sonhos e felicidade.

Ter o peso dos erros pode ser ruim, mas os louros da vitória só virão para os que arriscam. As hipóteses só te prenderão as suas dúvidas e medos, como se constantemente perdêssemos o próximo ônibus e o próximo, as oportunidades vão passando a nossa frente e permanecemos no lugar seguro da incerteza, mas do que vale a incerteza diante da possibilidade de vitória?

Ser responsável é um ato de coragem, assim como só vencem os que correm, pois os que assistem nada ganham. A vida é uma ironia de si mesma, por isso não devemos perder tempo olhando pelas arestas e imaginando o que poderia ser diferente. Os erros não nos tornam incompetentes, nos tornam capazes, já que a cada erro aprendemos algo novo ou o que não fazer. As perdas nos fazem dar valor ao que temos. Os medos nos desafiam a sair da zona de conforto. A necessidade nos faz humildes. O Se, apenas permite que fiquemos indefinidamente onde estamos...

19 de abril de 2019

O Momento Antes do Salto




O problema não é o salto, mas sim o momento que antecede o salto. Os murmúrios da plateia ouvidos do lado de dentro da coxia, os infinitos segundos que antecedem o primeiro beijo. É como se estivéssemos em suspensão, a mente percorrendo todos os caminhos, verificando todas as possibilidades, os “se”, as incertezas, os medos, tudo aquilo que nos deixa vulnerável está presente e ao mesmo tempo a certeza que se permanecermos no mesmo lugar, com as mesmas crenças, nada irá mudar.Eis que surge então a coragem, mesmo diante do medo mortal de tudo dar errado. Pulamos!

A adrenalina provocada pelo salto, a euforia, todos estes sentimentos de exaltação nos percorrem e dão sentido a vida tal qual conhecemos, nos sentimos vivos, invencíveis, mas este momento é igualmente fugaz, porque além do salto nada é conhecido, todas as possibilidades estão abertas e somos humanos, tememos o desconhecido ao mesmo passo que somos atraídos por ele, tememos a vulnerabilidade do momento, tememos que não aja nada mais além daquele salto.

Porém, não é de fato o que virá depois que importa, o que importa é o arriscar-se, sentir-se vivo, ter a coragem de ser o veículo da mudança, ousar fazer algo diferente, sair da famosa zona de conforto.

O conhecido nos conforta, sua familiaridade de cores, cheiros, sabores, nos trás aquela falsa sensação de segurança, de saber exatamente onde estão as bombas deste campo minado. Ainda que o conhecido seja nossa própria prisão, que nos faça caminhar nos mecanismos automáticos de nosso cérebro, como um trem que cumpre seu roteiro diário, mas se nos perguntarem sobe o dia que se transcorreu... é capaz que não consigamos descrever de fato, pois tudo parece um sonho nublado, vazio, torpe, sem sentido...

Voltando ao salto e suas incertezas, precisamos ser sinceros, até mesmo nossa única certeza é coberta de incertezas. Sabemos que a morte é o fim deste corpo tal qual conhecemos, mas e depois? São tantas versões da mesma realidade, tantas suposições, ainda que existam pistas não existem certezas e tenho certeza de quem as conhece não contaria, pois não somos movidos por nossas certezas, mas pelas coragens, enfrentamentos, por nossos medos, ainda que fugindo deles ou inconscientemente indo ao seu encontro.

Pular é mais do que uma metáfora, é manter-se vivo, sentir a adrenalina do momento e a incerteza de nossa própria natureza e sentença. O salto é tudo aquilo que fazemos quando estamos aterrorizados, ou o momento que ficamos olhando as nuvens imaginando o salto, congelados por nossas incertezas.

Imagine se um bebê não arriscasse dar o primeiro passo? Que pelo medo ele permanecesse no colo confortável de sua mãe, quantas coisas ele perderia? Quantas experiências estaria deixando para trás em nome deste medo? Porque o primeiro passo é também o início de todas as coisas, da nossa jornada rumo à independência e até então não conheço uma única criança que não o tenha feito!

Por que temos tanto medo? Acredito que da mesma forma que o desconhecido parece mais interessante a criança, do que a dependência de seus pais, a dependência do outro é o que nos cega para nossas próprias escolhas. O medo de errar, o medo de sermos julgados, o medo de parecermos tolos, o medo do que dirão a nosso respeito. Ao contrário daquele primeiro passo, onde ousamos e começamos a nos individuar, fica uma certeza de que um dia trilharemos sozinhos, mas nossos elos ainda estarão presentes ao longo de toda jornada, tanto quanto o medo que nossa vida, nossa felicidade não esteja em nossas mãos, que dependamos dos outros.

Eis que o medo de nos sentirmos desprotegidos, desnudos diante do outro, de que teremos que expor nossos sonhos, medos, erros e vergonhas. Tudo isso faz com que nos sintamos tal qual aquela criança diante do seu primeiro passo, vulneráveis.

Então não importa quantos “se” percorram os nossos pensamentos, a essência está na tentativa, no arriscar-se, saltar quantas vezes seja necessário, erguer-se tantas outras vezes mais, porque tudo é transitório e se nos entregarmos aos nossos medos, estaremos presos em nós mesmos para sempre.

Bom salto!

14 de abril de 2019

Jornada do Louco


Eu podia ouvir seus passos ecoando pelo laminado, aqueles mesmos passos ritmados, dançando debochadamente atrás de mim, não havia como confundir seu cadenciado. Então aquele perfume adentrou no ambiente e lembrei de um tempo em que temia tais passos, tanto quanto os desejava, minha ambivalência preferida! Era como se entrasse em um túnel do tempo e pudesse ver os milhões de flashes onde ansiava ou temia sua chegada, cada tilintar era um coração aflito que saltava, mas ao encontrar aqueles grandes olhos, janelas para imensidão e aquele sorriso sempre debochado de quem está sempre perto de partir novamente.

Há quantos anos a conhecia? Há quantos anos nossas histórias eram como uma? Entrelaçadas por lembranças, mágoas, verdades, segredos, pecados capitais… nada no mundo me alcançou com esta profundidade antes ou depois.

Ela diria que impus barreiras muito duras, obstáculos inalcançáveis, tarefas hercúleas para quem ousasse se aproximar de mim e do meu castelo encantado, repleto de armadilhas. Era engraçado como ela sempre transformava limites em alegorias, medos em feras abissais, dúvidas em montanhas a serem escaladas.

E neste momento encontrá-la não é meramente figurativo, mas necessário, como um pacto a ser feito, uma despedida, um enlace, uma incorporação…

Meus olhos então viraram em sua direção e ela mordia os lábios num gesto de ansiedade e lá estava ela, perfeita como sempre, intocada pelo tempo, desnudando-me com um único olhar e desta vez já não ligo, porque de todas as imperfeições ela fez morada, de todos os medos piadas, de todas as dúvidas charadas, de toda tentativa de fuga uma pegada, não havia nada, nada que eu pudesse esconder.

Eu finalmente dei um suspiro e a abracei em reconhecimento, ela sabia o que aquilo significava, palavra alguma era necessária. E ali afundada em seus braços eu podia ser apenas eu mesma, despida de máscaras, rótulos, sentido.

Ali poderia ficar uma eternidade, naquele perfume inebriante, na maciez de sua tez, na ausência de escárnio ou julgamento, apenas acolhimento e identificação.

Eu a criei assim, para ser perfeita, para ser tudo que não me permito ser, tudo que não ouso, tudo que me envergonha, tudo que me limita ou temo, ainda que não saiba exatamente o porquê. Toda aquela segurança e certeza no olhar, enquanto eu uma bússola sem norte.
Um dia fui tantos personagens, sonhadora, romântica, refém, vítima e algoz. A poesia vertia de meus dedos, os sonhos espalhafatosos se amontoavam na janela e olhos fixos na lua brilhante no céu, esperando aquele momento do salto do louco para mais uma jornada…

Mas a cada roda tanto veio e tanto se foi, torres que perderam suas bases e ruíram para o novo vir trazer semente, assim foram tantas vezes! Sem perceber arrastei comigo vários fantasmas e esqueletos, tentei entrar em espaços que não me cabiam, ou ocultar meu crime cometido. Sinto que a cada passo o que havia de selvagem, natural, visceral, latente, tudo aquilo foi sendo colocado nela, minha bela Rosa.

Mas ao olhar ao redor mais uma vez é como se o instinto me faltasse, visse refletido nos espelhos do passado e nas incertezas do futuro, tudo que se perdeu e não foi recomposto. Sementes que foram sendo guardadas para um momento propício de início de primavera, mas que então adormeceram esperando…

Ela então sussurrou:

- É como vislumbrar uma enorme tela em branco não é mesmo?

Deslizou seus dedos suavemente desembaraçando meus cabelos.

- Poder começar de qualquer ponto, com qualquer cor desejada, qualquer formato, ou até mesmo nenhum…. Poder escrever suas próprias palavras e desejos, quiçá seus medos e anseios! Qualquer coisa!

Ela ergueu meu rosto com seus dedos e me fitou diretamente.

- No entanto aqui está, olhando para a tela da sua vida, de infinitas possibilidades e permanece estática, como uma estátua, um corpo mumificado.

Silenciou por alguns segundos como se pensasse.

- Será que calou sua voz tantas vezes que desaprendera a falar? Será que verteu tantas vezes suas lágrimas que secaram? Tornou-se oca? Ou talvez insana?

Ela deu uma daquelas risadas largas e provocativas, que só ela é capaz de ressoar.

- Saiba que quanto mais olhar para o abismo, mais ele a olhará de volta, até que não saiba mais quem és ou quem é o abismo que fita.

Beijou suavemente meu rosto, fazendo-me arrepiar pelo toque quente de seus lábios em minha pele naturalmente fria.

- O tempo minha cara, ele é inexorável e começa a nos devorar por dentro e quando menos esperamos somos pó novamente. O agora é sua melhor chance, sua melhor performance...

Dei um suspiro tão profundo que pensei que desfaleceria.

- Sei que não posso ficar aqui para sempre e talvez tenha passado tempo demais aqui fitando o universo e tecendo teorias sobre minha própria existência. Estes dias li que as coisas verdadeiramente importantes não são as conhecidas, as que compreendemos, mas sim aquelas que sentimos…

- Sim, conhecer as razões não torna a verdade mais reconfortante ou menos real, mas dar novo significado ao hoje sim.

- Significado, signo, símbolo, valor… atribuir a algo um verbete que nos faça sentido, ou seja, não meramente conhecer a palavra, mas reconhecê-la com seus sentidos.

- Ela ainda mora dentro de você, mas para encontrá-la precisa deixar de temê-la, assim como suas imperfeições e erros, abraçar todas as partes que te fazem quem és.

- Talvez seria mais fácil se não tivesse atribuído a você todas estas qualidades, eu sou apenas a roteirista e você a atriz que encena este texto. Dei vida a criatura e a mim razão para controlá-la!

- Tudo isso, tudo nada mais é do que medo de não ter controle, de não saber, não ter como antever, de ser pega de surpresa em suas vulnerabilidades. Todos são assim! Tememos o que não conhecemos, o que nos soa diferente, inexplicável, ou que simplesmente não saibamos ou não tenhamos como controlar, tal qual a morte.
Sim…

Para isso serve o instinto, para alertá- la dos perigos e se não der certo? Todos nós temos o direito de ser tolos. Mas principalmente de recomeçar!

Internamente desejava que tais palavras fossem tão fáceis de se colocar em prática quanto soavam verdadeiras. Era como um embate interno que mais uma vez me arrastava entre a dicotomia de bem ou mau, certo ou errado, a mesma corda a qual me atei por uma vida inteira. A placidez da superfície do oceano tranquilo, ocultando a ferocidade de suas correntes e marés.

- Salte! Apenas salte...