Por algum motivo estranho eu tenho duas características que se somam, uma me remete as minhas próprias profundezas e a outra me dá força para me reerguer sempre, não importa quão longe eu tenha ido. Se por um lado uma me leva para distante de tudo e de todos, por vezes me fazendo crer que posso me perder até do meu eu, a outra é que faz rugir a minha vontade, minha determinação e me arranca do torpor e me faz renascer. Dois opostos, duas essências, tão distintas, mas complementares, sem as quais eu não saberia viver.
Eu sou como um grande oceano, banhado pela escuridão da noite, iluminado pelos raios prateados da lua que repousa sob o céu estrelado. Aquela mansidão das águas, que faz perder o olhar, encantar os enamorados, acalmar os aflitos, divagar os poetas, aqueles que procuram respostas acabam se encantando com o reflexo da lua nas águas e acabam buscando suas próprias reflexões e acabam esquecendo a que vieram, se entregam aquele aconchego das águas calmas e turvas, a suave marola, o vai e vem das águas. Aquela sensação de entorpecimento, de casa, de mãe que abraça e nutre.
Porém sob as águas mansas da imensidão, mais abaixo, bem distante dos olhos, as correntezas são fortes, por vezes turbulentas, os fluxos e os refluxos se movimentam num ritmo constante, caótico, sempre em busca de algo, de abrir novos caminhos, de vencer novas barreiras, de romper limitações, é tudo tão intenso, profundo, silencioso, visceral, que só aqueles que conseguem enxergar por trás de toda mansidão, por trás de todo aquele espelho estrelado, percebe a fúria inerente daquele oceano inconstante e em eterna ebulição.
Tantas coisas se passam neste infinito particular, nestas paredes secretas, neste turbilhão de águas e sentimentos, talvez minha mãe soubesse... “Carolina, os teus olhos fundos guardam tanta dor, a dor de todo este mundo”. Talvez por isso o oceano seja o inicio de tudo, o oceano seja o início de minha essência de intensidades, sabores e dissabores, de processos de morte e renascimento tão intensos que qualquer um que ousasse me acompanhar certamente terminaria insano ou afogado em meus delírios. Não é por um acaso que a Lua é símbolo das ilusões, da magia, do mistério, da feminilidade, do oculto, do que está diante dos olhos, mas no entanto não se vê.
Parte de minha essência é o segredo, aquilo que vejo, sinto, reverbero, penso, transpiro e calo em minhas correntes, fluxos e refluxos, refletindo apenas parte daquilo que transformo e processo entre as milhões de explosões que ocorrem diariamente aqui dentro.
A outra parte, quem diria, vem de Luanin que não é somente lua, mas que em algumas línguas quer dizer leão. Felinos são ágeis, mais ativos a noite, força muscular bruta, mas são animais sinceros, leais, honrados, se gostam, gostam, não são de falsidade, se querem, querem, se não simplesmente vão embora. Não gastam sua energia em vão. São belos, voluntariosos, delicados, espreitam, observam, caçam, são determinados e estrategistas. Quando chega a hora de caçar, eles explodem sua energia e vão a luta, sem medo de fracassar, sem poupar esforços, mas sem perder sua exuberância e realeza.
Quando decido me reerguer, alcançar, renascer, sou como uma Fênix, como um felino perseguindo sua presa, o olhar fixo, determinado, nada é capaz de me impedir de alcançar, de defender minhas crenças, minhas verdades, aqueles que amo, as coisas que acredito. Posso ser uma alegre e saltitante Bast, assim como posso ser uma destemida Sekmet, tudo depende de que lado deseja despertar, mas ambas belas.
Sou filha de Freya, escolho minhas batalhas, escolho por quem lutá-las, a quem honrá-las, sempre leal aos meus sentimentos, valores, pois sei que quando chegar o meu dia não terá sido em vão, cada morte, cada renascimento, cada amor, cada tilintar de armas, cada lágrima derramada, até mesmo os momentos em que acreditei que a loucura consumiria minha alma, não terá sido em vão.
Sou o oceano profundo e silencioso que oculta seus segredos sob a luz da lua prateada, mas também sou a força do sol que renasce a cada manhã trazendo o rugir da grande leoa que reside em meu ser! Sou o profundo, que fita o abismo para então renascer.