Strony

17 de novembro de 2011

Calar


Acho curiosa a mania que as pessoas têm de colocar palavras na boca dos outros, de dizer o que não foi dito, de ampliar histórias, de inventar verdades, de distorcer os fatos, não sei se é por algum prazer oculto, por mera ociosidade ou uma explosão de criatividade mórbida talvez. O fato é que quando atribuem fatos, palavras que jamais se atribuiriam ao que sou, a quem sou, independente dos fatos que permeiam meus sentimentos, idéias, pensamentos, nada dá o direito de inventarem, florearem, aumentarem o que eu disse, pensei, senti, enfim por melhor que fosse a intenção, se é que pode se considerar boa intenção me pintar como um monstro vil e insensível, tanto quanto insensato. Tais coisas não ornam comigo e é por isso que volto a acreditar em minhas paredes brancas, em meus delírios solitários, em meu mundo silencioso e tranqüilo, onde o que penso e sinto cabe tão somente a mim e a mais ninguém!

Sentimentos não são joguetes, não são coisas das quais simplesmente nos livramos ou debochamos ou com as quais somos capazes de não nos importar, podemos até fingir, mas no fundo nos importamos, se não nada que viesse dali não nos afetaria, nos causaria fúria, dor, alegria, raiva, enfim... a indiferença meu caro, é só para aqueles por quem nada sentimos e isso é um fato! Estes sequer vemos, são como partes invisíveis de um quebra-cabeça que não nos pertence, mas os outros não, são as peças que nunca encaixam, ou as que constantemente param embaixo do sofá, a que você nunca consegue encaixar em lugar algum.

Então, recolho-me as minhas paredes e ao meu adorável silêncio! Selo meus lábios com minhas alegrias, tristezas e tudo mais que houver que ser compreendido, deixado para trás ou eternizado por mim, apenas por mim e mais ninguém, assim sendo explicações não precisam ser dadas. Pintarei minhas paredes como e quando convir, com minhas próprias matizes e deixarei os outros com seus devaneios vazios e repletos de mentiras com seus próprios ecos.

Quanto mais ouço a voz dos insanos, mas aprecio a importância do calar....

9 de novembro de 2011

Profundo

Por algum motivo estranho eu tenho duas características que se somam, uma me remete as minhas próprias profundezas e a outra me dá força para me reerguer sempre, não importa quão longe eu tenha ido. Se por um lado uma me leva para distante de tudo e de todos, por vezes me fazendo crer que posso me perder até do meu eu, a outra é que faz rugir a minha vontade, minha determinação e me arranca do torpor e me faz renascer. Dois opostos, duas essências, tão distintas, mas complementares, sem as quais eu não saberia viver.

Eu sou como um grande oceano, banhado pela escuridão da noite, iluminado pelos raios prateados da lua que repousa sob o céu estrelado. Aquela mansidão das águas, que faz perder o olhar, encantar os enamorados, acalmar os aflitos, divagar os poetas, aqueles que procuram respostas acabam se encantando com o reflexo da lua nas águas e acabam buscando suas próprias reflexões e acabam esquecendo a que vieram, se entregam aquele aconchego das águas calmas e turvas, a suave marola, o vai e vem das águas. Aquela sensação de entorpecimento, de casa, de mãe que abraça e nutre.

Porém sob as águas mansas da imensidão, mais abaixo, bem distante dos olhos, as correntezas são fortes, por vezes turbulentas, os fluxos e os refluxos se movimentam num ritmo constante, caótico, sempre em busca de algo, de abrir novos caminhos, de vencer novas barreiras, de romper limitações, é tudo tão intenso, profundo, silencioso, visceral, que só aqueles que conseguem enxergar por trás de toda mansidão, por trás de todo aquele espelho estrelado, percebe a fúria inerente daquele oceano inconstante e em eterna ebulição.

Tantas coisas se passam neste infinito particular, nestas paredes secretas, neste turbilhão de águas e sentimentos, talvez minha mãe soubesse... “Carolina, os teus olhos fundos guardam tanta dor, a dor de todo este mundo”. Talvez por isso o oceano seja o inicio de tudo, o oceano seja o início de minha essência de intensidades, sabores e dissabores, de processos de morte e renascimento tão intensos que qualquer um que ousasse me acompanhar certamente terminaria insano ou afogado em meus delírios. Não é por um acaso que a Lua é símbolo das ilusões, da magia, do mistério, da feminilidade, do oculto, do que está diante dos olhos, mas no entanto não se vê.

Parte de minha essência é o segredo, aquilo que vejo, sinto, reverbero, penso, transpiro e calo em minhas correntes, fluxos e refluxos, refletindo apenas parte daquilo que transformo e processo entre as milhões de explosões que ocorrem diariamente aqui dentro.

A outra parte, quem diria, vem de Luanin que não é somente lua, mas que em algumas línguas quer dizer leão. Felinos são ágeis, mais ativos a noite, força muscular bruta, mas são animais sinceros, leais, honrados, se gostam, gostam, não são de falsidade, se querem, querem, se não simplesmente vão embora. Não gastam sua energia em vão. São belos, voluntariosos, delicados, espreitam, observam, caçam, são determinados e estrategistas. Quando chega a hora de caçar, eles explodem sua energia e vão a luta, sem medo de fracassar, sem poupar esforços, mas sem perder sua exuberância e realeza.

Quando decido me reerguer, alcançar, renascer, sou como uma Fênix, como um felino perseguindo sua presa, o olhar fixo, determinado, nada é capaz de me impedir de alcançar, de defender minhas crenças, minhas verdades, aqueles que amo, as coisas que acredito. Posso ser uma alegre e saltitante Bast, assim como posso ser uma destemida Sekmet, tudo depende de que lado deseja despertar, mas ambas belas.

Sou filha de Freya, escolho minhas batalhas, escolho por quem lutá-las, a quem honrá-las, sempre leal aos meus sentimentos, valores, pois sei que quando chegar o meu dia não terá sido em vão, cada morte, cada renascimento, cada amor, cada tilintar de armas, cada lágrima derramada, até mesmo os momentos em que acreditei que a loucura consumiria minha alma, não terá sido em vão.

Sou o oceano profundo e silencioso que oculta seus segredos sob a luz da lua prateada, mas também sou a força do sol que renasce a cada manhã trazendo o rugir da grande leoa que reside em meu ser! Sou o profundo, que fita o abismo para então renascer. 

5 de novembro de 2011

Insanidade

Por vezes me sinto andando em um quarto vazio, de pé descalços, onde tudo que resta é a claridade das paredes brancas a minha volta e o silêncio, acompanhado de meus pensamentos, estes no entanto são infindáveis. Talvez pudesse escrever em tais paredes milhões de versos, preencher aquele vazio com palavras desconexas, que só fazem sentido para uma pessoa, preenchê-las com imagens, desenhos, rabiscos, gritos, qualquer coisa que expresse toda a fúria de meu oceano interno, ocultada por paredes brancas, por uma superfície silenciosa e calma.
Muitas vezes os olhos nos enganam, nos fazem crer em coisas que nos parecem tão certas e de repente ao pisarmos naquele solo, nos jogarmos naquele lago, descobrimos que não passava de uma bela miragem, de um reflexo do que buscávamos encontrar, de uma ilusão que colorimos com a nossa esperança, mas quando a areia movediça começa a ceder sob os nossos pés e nos vemos ali diante de nosso próprio desespero e nada podemos fazer apenas não nos debatermos pois assim seremos engolidos ainda mais rapidamente, compreendemos as armadilhas que nós mesmos nos impomos.
Aquela linha, tão tênue da sanidade, ela parece escorrer por entre nossos dedos e nada é capaz de fazer a história retroceder, nem arrependimento, raiva, perdão, angústia, culpa, nada... talvez compreender todo o enredo, traga um pouco de razão e faça a sanidade permanecer por mais alguns instantes. Quem sabe um novo personagem? Alguém para dialogar sobre este novo quadro que se faz diante de meus olhos? São tantos planos, esperanças, sonhos, desejos, mas ao mesmo tempo um emaranhado que me prende, confunde, me arranca o ar por vezes e me remete a pensamentos torpes, vontades que não me pertencem, uma prisão que não quero continuar. Quem são nossos algozes? É hora de virar a mesa, esta música é quase uma oração. Tem dias que eu penso, sim, estou perdendo a razão.