Strony

7 de junho de 2019

Espelhos


Era uma sala de espelhos, uma sala de espelhos quebrados, cada qual refletiam seu rosto e em cada fragmento um pedaço de sua história, mas nada além de reflexos de tudo aquilo que um dia foi, mas que certamente não mais será.

Seu olhar percorria cada reflexo, cada lampejo, cada sentimento que lhe percorria a espinha, momentos tão próximos e de súbito tão longínquos. Ela não se reconhecia mais.

Tentou caminhar por entre os espelhos, mas o craquelar deles quebrando em mais fragmentos a incomodou, como se a cada passo tudo pudesse se perder, exaurir em si mesmo.

Então ergueu seus dedos por entre os vidros, tocando-os com sutileza, como se bolhas de sabão fossem e pudessem romper ao mais singelo toque. Era como se pudesse sentir novamente tais fragmentos, ainda que por breves lampejos de segundos. Tudo ecoava, não era mais quem era, mas tais reflexos eram a trilha que a conduzira até ali. Passos…

Impulso e os espelhos tornaram-se rubros, vertendo o que um dia fora sentimento, agora nada mais era do que o fluído da vida se esvaindo, lembrando-a da fragilidade do tempo, aquele que tudo devora e que tem todo tempo para aguardar seu fenecer.

Levou o dedo aos lábios para limpar a ferida, aquele gosto ferroso, levemente doce, mas que despertava cada um de seus sentidos, cheiro de terra, herança, passado e presente unidos em um cordão. A vida que segue após nossa breve existência, através de nosso sangue e centelha.

Tudo é mutável, passageiro, etéreo… não importa se duram 10 minutos, 10 horas, 10 dias ou anos, tudo tem seu início, seu meio e seu fim. Daquilo que julgamos mais valioso e eterno, ao que julgamos imperdoável.

Era como ver os anéis de Saturno rodopiando pela sala, seu olhar parado, como se nada observasse, impassível, longínquo, inatingível em seu trono de areia, a mesma que nos forma e que depois nos devora.

Seu silêncio talvez fosse mais severo do que qualquer palavra, pois quem conhece o tempo, conhece seus movimentos cíclicos, viciosos, mas também a teia que tece todas as coisas, que liga todos os fios, por onde reverbera tudo que existe, existiu e existirá.

Não existe linearidade para o tempo, nem aos sentimentos, tanto um quanto o outro fluem através de nossas lembranças, lampejos, existências, dimensões, lembrando-nos de toda jornada, de quantas vezes passaremos por cada porta. Tantas quantas necessárias até fechá-las e então reabrir sob outra perspectiva.

Mas em meio ao silêncio, as lembranças e gosto ocre nos lábios, viu o reflexo dos espelhos no teto e cada qual parecia uma estrela. Algumas mais brilhantes, outras opacas, algumas mais próximas, outras tão distantes. Aquela era sua própria constelação.

E então avistou a estrela rubra, latente, estonteante, como Vênus a brilhar no céu, lembrando-nos de nossa humanidade, fragilidade, sentimento, um coração por trás de toda vida pulsante.

Seus olhos vagaram por suas constelações e ela sabia que se tentasse movê-las ou aproximá-las, perderiam o brilho e o sentido naquele caminho de estrelas.

Então mais uma se fez no canto de seus olhos, a estrela ainda sem nome, sem dádiva, sem presente, passado ou futuro. A esperança que surge em meio ao furacão, aquele lampejo que nos apegamos em meio a tempestades, segundos antes dos céus rugirem como uma fera que deseja saciar sua fome.

Riu de si mesma e das conjunções, quadraturas e trígonos que podia tecer, transformar tudo em fogo, quem sabe então água, ou póstuma terra para descansar seu corpo, mas quiçá uma suave brisa e tilintar. Sua mente! Aquele labirinto que não podiam decifrar.

Olhou então para o próprio reflexo e a infinidade de "se" e destinos que poderia ter tomado, quantas possibilidades caberiam em cada escolha? Como saber onde cada uma iria dar? Como saber diante de tantas possibilidades que caminho seguir.

Tantos fatos, momentos, erros e acertos, um arco para cada história. Mas ali estava, apesar de tudo diante de espelhos quebrados, que ela quebrou com as próprias mãos, enquanto questionava os indícios de sua insanidade.

Sã ou não, algoz ou não, não cabia mais uma única palavra, não se retorna pelo caminho uma vez caminhado, não da mesma forma que a primeira vez. Cada momento em si mesmo é único, uma joia de rara riqueza. Assim como cada estrela tem seu papel neste céu estrelado.

Caos e ordem. Início e fim. O ouroboros da vida! Não há começo, não há meio, nem fim. Cada encontro é uma partida, cada partida um novo encontro.

Luanin

20 de abril de 2019

Abrindo Mão dos “Se”



É estranho pensar que nos apegamos tanto aos “se”, como se fosse garantia de algo.

“Se meus pais tivessem feito diferente...”

“Se eu não tivesse aceitado a proposta...”

“Se eu não tivesse conhecido”

Ao mesmo passo que condicionamos nosso futuro

“Se eu ganhar um aumento...”

“Se eu conseguir arrumar tempo..”

“Se ela entendesse o meu lado...”

Talvez esta forma de encarar as coisas seja uma maneira de se isentar das responsabilidades, porque sempre estaremos vinculados a algo ou a alguém, nunca seremos o objeto central da questão, do erro, da mudança, sempre haverá uma força externa que justifica nossas ações e omissões.

No fundo esta é uma das ideias de conforto que criamos. Vejamos, duas crianças, gêmeas, criadas pelos mesmos pais, mesmos valores, mesmo contexto social, emocional e econômico, não são iguais. Em tese deveriam ser idênticas, pois tiveram o mesmo tipo de exposição e experiências. O que muda então? Se aqui não é o “se”, uma vez que tiveram exatamente o mesmo ambiente de criação? Não foram as ações dos pais, ou das pessoas ao redor dela que as tornaram diferentes, mas sim a forma que cada uma recebeu exatamente a mesma informação.

Pergunte a pessoas diferentes a opinião sobre alguém, quanto mais pessoas perguntar, mais respostas distintas você terá, porque a forma que vemos “o outro”, parte do nosso universo pessoal, das nossas experiências e como as registramos. Toda nossa realidade não é de fato real, pois consciente ou inconscientemente nós escolhemos o que ver, como ver, como reagir.

Ao contar uma história cada um lerá de uma forma diferente, ao mesmo passo que contar a mesma história em momentos distintos, também mudará a forma que a mesma pessoa receberá a mesma história. Talvez porque não acredita mais em lobo mau, talvez porque não tenha mais avó para levar doces, talvez porque já conhece o final da história então a “magia” foi desfeita e aquela metáfora não faz mais sentido para sua realidade.

Assim sendo olhar para nossa vida e condicionar a uma série de ações, omissões, ausências ou presenças, este é apenas o cenário, pois ao fim o que muda é a maneira com a qual vamos receber cada um destes acontecimentos, como iremos lidar com cada uma das frustrações, com cada medo, com cada vitória.

Olhar para o passado em busca de respostas, muitas vezes te trará várias hipóteses do porquê é, quem é, porque chegou onde está, mas ao colocarmos um “se”, vincular uma hipótese ao fato, apenas nos afastará da possibilidade de mudança. O passado é o que é, não pode ser mudado, seus fatos estão além do nosso alcance, assim como mudanças hipotéticas poderiam nos trazer exatamente ao mesmo caminho só que por estradas diferentes.

Não deveríamos desperdiçar nossa energia com hipóteses, mas sim com releituras, dar significado a cada um dos momentos que nos levaram numa determinada direção que julgamos hoje nos aprisionar. Ao ressignificar um momento, uma história, é como se pegássemos as rédeas de nossa própria vida e disséssemos para nós mesmos que não sabemos exatamente para onde aquela estrada nos levará, ou as intempéries que podem ocorrer ao longo da jornada, mas podemos sempre mudar a maneira que recebemos cada uma destas experiências. Saímos do papel de vítima das circunstâncias e nos tornamos o roteirista de nossa aventura.

Uma palavra tão pequena não deveria ter tamanho valor em nossas decisões, sonhos, escolhas, pois ela representa apenas hipóteses que só fazem sentido se usadas para o momento presente. Sabemos que se pegarmos determinada estrada, em determinado horário pegaremos trânsito, se pegarmos outra um pouco mais longa, é provável que cheguemos em casa mais cedo, ou seja, temos algo que já ocorreu várias vezes para formarmos uma teoria e com base nisso tomamos uma decisão, além deste momento tudo que acontecerá não cabe mais na palavra se. Pode ocorrer um acidente na via mais rápida e ficarmos presos, um carro pode bater no nosso, podemos pegar a mais longa e aquele dia excepcionalmente estar vazia, mas isso não invalida a sua decisão.

Temos que aprender a abrir mão dos condicionamentos, olhar para nós mesmos com mais gentileza, assim como para o nosso passado e assumir que demos o melhor que tínhamos naquele momento, ainda que hoje as escolhas fossem diferentes, em seu exato momento elas eram válidas e ainda que fossemos capazes de mudar a escolha anterior, o que nos garante que nos levaria ao caminho que desejamos? Na verdade não temos como saber.


Somos o que somos pelo o que vivemos e a maneira que recebemos cada um destes acontecimentos e escolhas, temos apenas o agora, o presente em nossas mãos para efetuar a mudança, seja de um padrão, de um hábito, de uma forma de pensar, ser, existir, mas nada nos garantirá que o futuro será tal qual o planejado, pois o meu futuro está conectado ao futuro de todos á minha volta, qualquer decisão diferente da escolha provável pode mudar o todo.

Não importa quantos “se” pensemos, tão pouco quantas versões do agora podemos imaginar, o que nos dá força para seguir a diante é justamente o poder de decidir no presente. Responsabilizar atos e fatos fora de nosso universo condicionam apenas o nosso futuro a uma força exterior, então se as coisas derem “errado” você terá a quem culpar, contudo se as coisas derem muito certo, não será você a receber os “louros” da vitória.

Uma vida consciente e responsável parte desta premissa, de compreender, dar significado ao que vivemos e buscar a mudança para que não cheguemos no caminho anterior, que tenhamos infinitas possibilidades para continuar seguindo em direção aos nossos sonhos e felicidade.

Ter o peso dos erros pode ser ruim, mas os louros da vitória só virão para os que arriscam. As hipóteses só te prenderão as suas dúvidas e medos, como se constantemente perdêssemos o próximo ônibus e o próximo, as oportunidades vão passando a nossa frente e permanecemos no lugar seguro da incerteza, mas do que vale a incerteza diante da possibilidade de vitória?

Ser responsável é um ato de coragem, assim como só vencem os que correm, pois os que assistem nada ganham. A vida é uma ironia de si mesma, por isso não devemos perder tempo olhando pelas arestas e imaginando o que poderia ser diferente. Os erros não nos tornam incompetentes, nos tornam capazes, já que a cada erro aprendemos algo novo ou o que não fazer. As perdas nos fazem dar valor ao que temos. Os medos nos desafiam a sair da zona de conforto. A necessidade nos faz humildes. O Se, apenas permite que fiquemos indefinidamente onde estamos...

19 de abril de 2019

O Momento Antes do Salto




O problema não é o salto, mas sim o momento que antecede o salto. Os murmúrios da plateia ouvidos do lado de dentro da coxia, os infinitos segundos que antecedem o primeiro beijo. É como se estivéssemos em suspensão, a mente percorrendo todos os caminhos, verificando todas as possibilidades, os “se”, as incertezas, os medos, tudo aquilo que nos deixa vulnerável está presente e ao mesmo tempo a certeza que se permanecermos no mesmo lugar, com as mesmas crenças, nada irá mudar.Eis que surge então a coragem, mesmo diante do medo mortal de tudo dar errado. Pulamos!

A adrenalina provocada pelo salto, a euforia, todos estes sentimentos de exaltação nos percorrem e dão sentido a vida tal qual conhecemos, nos sentimos vivos, invencíveis, mas este momento é igualmente fugaz, porque além do salto nada é conhecido, todas as possibilidades estão abertas e somos humanos, tememos o desconhecido ao mesmo passo que somos atraídos por ele, tememos a vulnerabilidade do momento, tememos que não aja nada mais além daquele salto.

Porém, não é de fato o que virá depois que importa, o que importa é o arriscar-se, sentir-se vivo, ter a coragem de ser o veículo da mudança, ousar fazer algo diferente, sair da famosa zona de conforto.

O conhecido nos conforta, sua familiaridade de cores, cheiros, sabores, nos trás aquela falsa sensação de segurança, de saber exatamente onde estão as bombas deste campo minado. Ainda que o conhecido seja nossa própria prisão, que nos faça caminhar nos mecanismos automáticos de nosso cérebro, como um trem que cumpre seu roteiro diário, mas se nos perguntarem sobe o dia que se transcorreu... é capaz que não consigamos descrever de fato, pois tudo parece um sonho nublado, vazio, torpe, sem sentido...

Voltando ao salto e suas incertezas, precisamos ser sinceros, até mesmo nossa única certeza é coberta de incertezas. Sabemos que a morte é o fim deste corpo tal qual conhecemos, mas e depois? São tantas versões da mesma realidade, tantas suposições, ainda que existam pistas não existem certezas e tenho certeza de quem as conhece não contaria, pois não somos movidos por nossas certezas, mas pelas coragens, enfrentamentos, por nossos medos, ainda que fugindo deles ou inconscientemente indo ao seu encontro.

Pular é mais do que uma metáfora, é manter-se vivo, sentir a adrenalina do momento e a incerteza de nossa própria natureza e sentença. O salto é tudo aquilo que fazemos quando estamos aterrorizados, ou o momento que ficamos olhando as nuvens imaginando o salto, congelados por nossas incertezas.

Imagine se um bebê não arriscasse dar o primeiro passo? Que pelo medo ele permanecesse no colo confortável de sua mãe, quantas coisas ele perderia? Quantas experiências estaria deixando para trás em nome deste medo? Porque o primeiro passo é também o início de todas as coisas, da nossa jornada rumo à independência e até então não conheço uma única criança que não o tenha feito!

Por que temos tanto medo? Acredito que da mesma forma que o desconhecido parece mais interessante a criança, do que a dependência de seus pais, a dependência do outro é o que nos cega para nossas próprias escolhas. O medo de errar, o medo de sermos julgados, o medo de parecermos tolos, o medo do que dirão a nosso respeito. Ao contrário daquele primeiro passo, onde ousamos e começamos a nos individuar, fica uma certeza de que um dia trilharemos sozinhos, mas nossos elos ainda estarão presentes ao longo de toda jornada, tanto quanto o medo que nossa vida, nossa felicidade não esteja em nossas mãos, que dependamos dos outros.

Eis que o medo de nos sentirmos desprotegidos, desnudos diante do outro, de que teremos que expor nossos sonhos, medos, erros e vergonhas. Tudo isso faz com que nos sintamos tal qual aquela criança diante do seu primeiro passo, vulneráveis.

Então não importa quantos “se” percorram os nossos pensamentos, a essência está na tentativa, no arriscar-se, saltar quantas vezes seja necessário, erguer-se tantas outras vezes mais, porque tudo é transitório e se nos entregarmos aos nossos medos, estaremos presos em nós mesmos para sempre.

Bom salto!